sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hoje eu quero Voltar Sozinho

Longa é uma prova do potencial (desperdiçado) pelo Cinema Brasileiro


Vencedor da Mostra Panorama do Festival de Berlim, Hoje eu quero Voltar Sozinho é uma luz no fim do túnel para o cinema brasileiro. Em meio à profusão de produções nacionais nada originais, cada vez mais sugadas diretamente da TV, o longa é uma prova de que com pouco pode se fazer muito. Acompanhando os desdobramentos do curta-metragem Hoje eu Não quero Voltar Sozinho, o estreante em longas-metragens Daniel Ribeiro nos brinda com uma trama extremamente sensível, lidando de forma tocante com as descobertas da adolescência. Sem o apoio das grandes produtoras, o diretor consegue repetir o tom autoral do seu curta, ampliando toda a história do deficiente visual Leonardo e a sua busca pelo primeiro amor. Carregando uma bem vinda naturalidade, o longa aborda de forma inspirada as dúvidas, crises e a insegurança com relação a essa fase da vida. 

Com roteiro assinado pelo próprio Daniel, o drama segue narrando a vida de Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego que tem como grande alicerce a carismática Giovana (Tess Amorim). Dois amigos quase inseparáveis, que acabam mutuamente buscando as respostas para as corriqueiras dúvidas da adolescência. Enquanto Giovana sonha com um primeiro grande amor, Leo busca autonomia juntos aos seus zelosos pais (Eucir de Souza e Lucia Romano). Seu maior sonho, na verdade, é o de realizar um intercâmbio. Tudo muda, no entanto, quando ele conhece o novo companheiro de turma Gabriel (Fabio Audi). Apesar da rápida aproximação, Gabriel acaba criando um inesperado conflito entre os três, principalmente quando Leo deixa a amizade com Giovana em segundo plano, para cultivar um sentimento maior pelo novo amigo.


Em cima deste triângulo afetivo, Daniel Ribeiro consegue captar com simplicidade a essência atual dos adolescentes. Está tudo em cena, o primeiro amor, as crises de ciúmes, as brigas, o relacionamento com os pais, o bullying, as bebedeiras, as piadas, as dúvidas sobre o futuro, enfim, os principais questionamentos de dez entre dez jovens. O que faz desse filme tão diferente, porém, é a forma encontrada para retratar a juventude contemporânea. Ainda que alguns dos personagens tenham uma aparência "coxinha", no mais pleno sentido do termo paulistano, o diretor demonstra perspicácia ao dar uma abordagem diferenciada aos adolescentes. Esqueça então os clichês do funk ostentação, Lady Gaga's e Katy Perry's da vida. A visão de Daniel Ribeiro sobre os jovens é bem elaborada, apresentando personagens antenados, com gosto mais apurado. Pra se ter uma noção, a eclética trilha sonora vai de Beethoven a Belle e Sebastian. Opção que, a princípio, poderia não criar o vínculo ideal com o público em geral. No entanto, se a "casca" dos personagens não se mostra tão abrangente, os dilemas desta complexa fase da vida são genuinamente capturados. Com destaque para a forma como o longa explora temas tão particulares, de forma extremamente natural. Ao longo da projeção, a impressão é que estamos de volta ao Ensino Fundamental. 


Por mais paradoxal que seja, ao analisar a adolescência sob o ponto de vista de um jovem cego, o longa ganha ainda mais luz. Muito em função, é verdade, da independência e intensidade marcantes em Leonardo. Contando com uma expressiva atuação de Guilherme Lobo, que não é cego, Leo é o típico personagem inspirador, que parece não se abater diante as suas limitações. Demonstrando grande química com a atriz Tess Amorim, muito espontânea como a divertida Giovana, Guilherme demonstra sensibilidade em cena. Principalmente, no relacionamento com o competente Fabio Audi, muito bem como o cativante Gabriel. Mesmo sem contar com diálogos tão acima da média, o roteiro é cuidadoso ao abordar o relacionamento entre os dois. Sem preconceitos, o diretor opta por explorar momentos mais intimistas, narrando de forma contida a relação entre Leo e Gabriel. Trabalhando com uma baixa classificação etária, Daniel consegue ainda assim enfatizar a tensão sexual entre os dois, evidenciando que a sutileza pode ser muito mais funcional que a sexualidade explícita. Vale destacar ainda, a forma como Daniel conduz a relação do protagonista com seus pais. Contando com competentes atuações de Eucir de Souza (FDP) e Lucia Romano, as limitações impostas pelos pais são muito bem exploradas, deixando claro o quão tênue é a linha entre o zelo e a privação. Tudo isso embalado por um funcional senso de humor e por uma trama repleta de ritmo.


Fugindo dos clichês envolvendo o relacionamento homossexual, Hoje eu quero Voltar Sozinho é mais um daqueles filmes "fadados" a se tornar o retrato de uma geração. Flutuando muito bem entre a comédia e o romance, o longa consegue dar uma nova roupagem aos dilemas e clichês envolvendo a adolescência. Sem se prender a preconceitos e estigmas, o diretor Daniel Ribeiro brilha ao não se prender somente às questões amorosas, indo além das expectativas ao traduzir o processo de amadurecimento e preparação para os verdadeiros conflitos que a vida pode nos proporcionar. Um trabalho que merecia muito mais do que as seis salas de exibição aqui na cidade do Rio de Janeiro. 

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