quinta-feira, 24 de abril de 2014

Amante a Domicílio

Inusitada comédia é dirigida por John Turturro, mas bebe diretamente da fonte dos mais divertidos longas de Woody Allen.

O espectador menos atento pode até se confundir, mas a comédia Amante a Domicílio não é assinada pelo cultuado diretor Woody Allen. Na verdade, o filme tem a cara dele, o estilo dele, o humor dele, mas trata-se do quinto trabalho da carreira do ator e diretor John Turturro. Essa comparação, no entanto, não representa qualquer demérito para Turturro. Até porque além de buscar inspiração nos trabalhos certos do experiente diretor, ele mostra também o seu estilo, conseguindo construir uma trama original, divertida, e em muitos momentos até inusitada. Ainda assim, é a presença de Woody Allen o grande diferencial do filme.

E todo este destaque é bem simples de explicar. Turturro concebeu um personagem moldado para Woody Allen. O típico homem que o consagrou. Isso mesmo, aquele norte-americano falador, cheio de ideias mirabolantes, que sempre usa de sua lábia para convencer as pessoas de suas atitudes. A mesma fórmula que parece não envelhecer quando utilizada pelo ator. Essa, aliás, deve ser a grande explicação para Woody Allen interromper uma lacuna de quase 14 anos sem estrelar um longa que não fosse de sua autoria, o último foi Juntando os Pedaços (2000). Sem nenhuma enrolação, a trama não demora muito para apresentar a dupla de amigos Murray (Allen) e Fioravante (Turturro). Na verdade, Fioravante trabalhava para Murray em uma livraria de obras raras, mas a falta de clientes acabou fechando o estabelecimento. Sem grandes oportunidades, Murray acaba tendo uma ideia maluca, ao saber que sua médica (Sharon Stone) estava interessada em fazer um "sexo a três" com uma amiga e precisava de um homem de confiança. Acreditando que Fioravante tinha esse "sex appeal", Murray sugere que o amigo aceite o convite em troca de dinheiro. Apesar de relutar no início, ele acaba aceitando e o que era para ser um negócio de uma noite acaba ganhando grande proporção. Num desses "trabalhos" promovidos por Murray, ele acaba conhecendo Avigal (Vanessa Paradis), uma viúva judia com sérios problemas de relacionamento. No entanto, a aproximação entre os três acaba gerando certa polêmica na vizinhança pouco ortodoxa, principalmente no agente de segurança Dovi (Liev Schreiber), que nutre uma paixão platônica por Avigal.


Nas mãos erradas essa curiosa trama poderia virar mais uma comédia pastelão barata, mas Turturro mostra estilo ao conduzir o filme. Principalmente com relação ao seu próprio personagem, um tipo solitário, fechado e culto, que acaba despertando um certo frisson junto às suas clientes. Utilizando enquadramentos que sempre destacam as curvas de suas "pretendentes", o diretor ressalta a atmosfera sexual que envolve o gigolô de forma sútil e bem humorada, sem apelar para a vulgaridade, ou cenas desnecessárias. Se engana, porém, quem acredita que o filme é sobre sexo. Na verdade, Turturro cria essa espécie de conto - repleto de ironia - para tocar em outros temas importantes, como a decadência, a solidão e a infelicidade. Apesar do ritmo do longa oscilar em alguns momentos, justamente nas questões mais densas, o roteiro é equilibrado. Com um perspicaz texto, marcado por divertidos diálogos, Turturro consegue aliar muito bem comédia e drama. Se no humor o filme funciona a contento, o mesmo não pode se dizer da escorregadia parte romântica. Por mais que toda a abordagem envolvendo a personagem de Vanessa Paradis soe interessante, e que a química entre ela e John Turturro seja eficiente, a trama não consegue desenvolver com a mesma originalidade a relaçâo entre os dois. Nada que - felizmente - atrapalhe o resultado final, já que a presença do personagem Dovi (Liev Schreiber) acaba gerando um clímax impagável, envolvendo Woody Allen e judeus ortodoxos. 


O grande acerto de Turturro, porém, acaba sendo a escolha e condução do elenco. A começar por Woody Allen, que apesar de novamente representar o seu típico personagem, funciona graças aos bons diálogos e a sua capacidade em trabalhar com o humor de forma leve. Turturro também tem um interessante desempenho, num personagem mais fechado, com ares de misterioso, completamente diferente de Allen. Além da dupla, as presenças de Sharon Stone, Sofia Vergara e Vanessa Paradis, acrescentam beleza e qualidade ao longa, preenchendo muito bem as brechas do roteiro. Aliás, esperto esse Turturro hein, resolveu dirigir um filme sobre um gigolô, se escalou para o papel e ainda escolheu para o elenco Stone e Vergara. Brincadeiras à parte, vale destacar ainda as participações de Jill Scott e de Bob Balaban, muito bem como o advogado de Murray. 


Conseguindo repetir o nível das últimas comédias de Woody Allen, Fading Gigolo acaba sendo uma diversão, no mínimo, inusitada. Um trabalho que não se prende a clichês, se tornando extremamente original e sensível. Uma comédia redonda, que independente de alguns pequenos eqívocos, acaba representando um certo amadurecimento de John Turturro atrás das câmeras. O êxito maior, no entanto, fica para Allen, impagável na pele de um inusitado cafetão.


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