sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Conselheiro do Crime

Um desperdício completo


Não tenho palavras para descrever o quão decepcionado fiquei ao assistir O Conselheiro do Crime, novo longa do sempre competente diretor Ridley Scott. Apostando em um elenco talentoso, recheado de nomes como os de Michael Fassenber, Brad Pitt, Javier Badem e Cameron Diaz, e na primeira investida como roteirista do aclamado escritor Comarc McCarthy (A Estrada e Onde os Fracos não tem Vez), o longa tenta parecer inteligente e crítico, mas não passa de um grande e enfadonho vazio. O mais surpreendente, no entanto, é ver como a promissora trama acaba desperdiçada por mãos tão competentes, como as de Scott e McCarthy, através de diálogos cansativos e discussões envolvendo temas como a moralidade, o amor, o sexo e, claro, a morte. 

Garanto que se não fosse o talento de todo o elenco, seria complicado para qualquer espectador assistir as quase duas horas do novo longa comandado por Ridley Scott. Apesar do diretor mostrar o seu usual talento para comandar o elenco, conseguindo inclusive manter um clima de tensão até o seu desfecho, a impressão que fica é que em alguns momentos a trama simplesmente não anda. Como escritor, Comarc McCarthy ficou conhecido por suas tramas repletas de metáforas e de forte impacto no espectador. Em A Estrada, e principalmente em Onde Os Fracos não tem Vez, essas histórias ganharam interessantes adaptações que destacavam a força do texto do escritor. No entanto, justamente quando McCarthy se responsabiliza por essa adaptação, o resultado acaba sendo extremamente complicado. Com um texto repleto de metáforas, muitas delas completamente soltas na trama, o roteiro de O Conselheiro do Crime erra não só pela linguagem pouco objetiva, mas também no simples desenrolar da trama. Enquanto aposta em diálogos pouco representativos, principalmente na hora inicial, McCarthy peca no desenvolvimento de seus próprios personagens, que são quase largados em cena. Com isso uma série de pontas soltas acabam se repetindo ao longo do filme, dificultando até mesmo o desenrolar do longa. A trama narra a história do "conselheiro" (Michael Fassbender), um homem apaixonado por Laura (Penelope Cruz), que decide se arriscar em um "investimento" dos traficante Reiner e Westray (Javier Badem). Um grande negócio, que iria render mais de 20 milhões de dólares em lucros. As coisas, porém, não saem como o esperado e com isso o "conselheiro" vai passar a sofrer as consequência de ter ser envolvido com o crime organizado.


Se o filme funciona ao explorar a tensão por trás desse processo de causa e consequência envolvendo a criminalidade, ele acaba pecando na forma como narra a sua história. A opção de deixar os fatos principais em segundo plano é interessante, e foi muito bem utilizada em Onde os Fracos Não tem Vez. Os irmãos Cohen, porém, conseguiram equilibrar melhor essas discussões à ação propriamente dita, fato que não acontece aqui, tornando o filme cansativo em muitos momentos. Como se não bastasse isso, a trama aposta em soluções extremamente forçadas e em personagens mal utilizados, que vem e vão sem qualquer importância. Pra se ter uma noção, a cena envolvendo um diamante e o ótimo Bruno Ganz (A Queda) é sonolenta, pouco expressiva e parece não acrescentar nada. E o pior é que essa opção se torna recorrente, com diálogos vazios, muito blá, blá, blá, frases bonitas, mas que no final das contas nada dizem. Além disso, em alguns momentos a trama soa autoexplicativa, com diálogos que antecipam situações futuras, tornando algumas cenas previsíveis. O resultado acaba não sendo pior graças ao ótimo elenco, que com grandes atuações, salvam o filme do esquecimento.


A começar pelo grande desempenho de Michael Fassbender, que apresenta o único personagem verdadeiramente interessante no longa. Ao viver um advogado criminal que resolve investir no crime organizado, Fassbender tem uma atuação arrebatadora, de grande evolução dramática. O ator é seguido de perto por Brad Pitt, que, apesar de uma participação pequena, imprime personalidade ao personagem e funciona como uma espécie de mentor de Fassbender. Quem também rouba a cena é a bela Cameron Diaz, com uma atuação vibrante e extremamente sexy. Eu diria que a melhor metáfora apresentada no filme envolve Cameron, e a comparação da sua personagem com os seus jaguares de estimação. O mesmo, no entanto, não pode se dizer do seu companheiro de cena Javier Bardem, que na pele do traficante Reiner acaba tendo um desempenho caricato. Uma versão mais masculina - e menos afetada - do seu último vilão, o temido Raoul Silva de 007 - Operação Skyfall. Pra fechar o poderoso elenco temos ainda a sempre competente Penelope Cruz, que em apenas uma grande aparição já deixa a sua marca.


Não quero aqui dizer que O Conselheiro do Crime é ruim - definitivamente essa não é a melhor descrição. O longa tem os seus méritos, conseguindo manter um certo clima de tensão aliado as boas interpretações. No entanto, isso é pouco - muito pouco - em função das grandes figuras envolvidas no projeto. Na verdade, a única impressão que temos com o subir das "letrinhas" é: que desperdício. Desperdício de uma boa história, que curiosamente não foi bem adaptada pelo seu próprio escritor, de um ótimo elenco e, acima de tudo, de uma grande oportunidade de se produzir algo verdadeiramente marcante. 



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