quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Elysium

Longa não consegue repetir o impacto de Distrito 9, mas ainda assim nos apresenta um eficiente trabalho repleto de viés politico

É impossível não escrever sobre Elysium sem lembrar do primeiro trabalho do diretor Neil Blomkamp, o extremamente elogiado Distrito 9. O Sci-Fi politico de baixo orçamento - cerca de 30 milhões de dólares - conquistou o mundo graças ao seu visual ousado e a sua trama, que abordou a temática do Apartheid sob uma nova perspectiva. Quatro anos depois, Blomkamp volta ao terreno que o consagrou em Elysium, agora com o suporte de Hollywood e com maiores possibilidades dentro da produção, incluindo ai a montagem do elenco. O resultado é um longa que consegue com eficiência explorar o viés político, mas de forma condescendente, sem o mesmo impacto do longa que o consagrou.

E quando digo condescendente, deixo claro que o filme perde aquele aspecto visceral de Distrito 9, mas de forma nenhuma a contextualização politica. A impressão que eu tive após o final da sessão é que Neil Blomkamp tenta transformar Elysium em um filme mais acessível para o grande público, mais leve, sem tentar perder a sua pegada politica. Apesar desta tentativa de universalizar o tema, o diretor consegue manter o peso em sua narrativa, aliando este enfoque engajado à temas mais básicos dentro do cinema, como amizade, amor e sobrevivência. No entanto, se a trama principal se prende a esta temática mais óbvia, as sub-tramas dão espaço para toda essa discussão politica, adicionando uma original temática revolucionária ao filme. Somado a isso, os efeitos visuais desenvolvidos por Blomkamp, principalmente com relação a Elysium, mais uma vez chamam a atenção. O diretor sul-africano consegue dar um ar de "paraíso" a estação espacial e, sem ser megalomaníaco, cria uma interessante estética que chama a atenção pelos detalhes. O contraste na fotografia e também na construção robótica contribuem ainda mais para essa noção de separação entre nichos. Além disso, Blomkamp conduz de forma criativa as cenas de ação, sem economizar na violência estilizada, que já marcou o trabalho do diretor em Distrito 9.


Assinado pelo próprio Blomkamp, o roteiro de Elysium novamente volta a ter a segregação como tema principal. Se em Distrito 9 o diretor explora a marginalização sob o ponto de vista de alienígenas, aqui são os humanos das classes mais baixas que passam por essa situação. O ano é 2159 e o planeta terra vive grande decadência e superlotação. A economia quebrou e as metrópoles viraram grandes "favelas". Enquanto os pobres vivem sem o mínimo de condição na terra, os ricos deixaram o nosso planeta e passaram a viver em Elysium, uma estação espacial que mais parece um grande condomínio de luxo, com alta tecnologia, permitindo uma vida estável graças a um equipamento que pode aniquilar qualquer doença. Comandado com mãos de ferro pela secretária do governo Rhodes (Jodie Foster), Elysium luta para manter o seu padrão de vida e principalmente a distancia dos ilegais, pessoas pobres que logicamente não tem condições de morarem lá. Entre eles está Max (Matt Damon) um ex-delinquente, preso em regime condicional, que tenta levar a sua vida como trabalhador de uma fábrica de robôs. Órfão, foi criado por freiras e criou um grande vínculo com Frey (Alice Braga). Após um breve reencontro, depois de anos separados, Max acaba sofrendo um acidente de trabalho e sendo atingido por altas doses de radioatividade. À beira da morte, Max sabe que só uma ida a Elysium poderia salvá-lo, e por isso recorre a Spider (Wagner Moura) uma espécie de "coiote futurista" que ganha dinheiro tentando infiltrar pobres em Elysium. No entanto, Spider tem planos maiores para Max e os dois podem acabar sendo os únicos a mudarem a realidade da população da terra.


Se visualmente o filme é impecável, a trama apresenta sim seus altos e baixos. No contexto politico, Blomkamp explora muito bem a questão do poder, e o domínio de uma minoria rica sobre uma maioria pobre. Sem se apegar as noções de espaço territorial, fica nítido que a crítica maior é sim aos norte-americanos, até porque a população "segregada" é formada de maioria latina, e a figura do coiote remete - e muito - a esta situação. Apesar desses indícios, Blomkamp não tem a preocupação em criticar um governo, ou um país, mas sim essa situação envolvendo a questão da imposição do poder. No entanto, se politicamente o filme tem novamente destaque, o roteiro acaba deslizando em alguns pontos. Como a trama principal se prende muito aos clichês do gênero, as eficientes sub-tramas se tornam a grande redenção do argumento e mais interessantes do que a própria jornada do "herói". Destaco aqui as sub-tramas envolvendo os personagens de Wagner Moura e Sharlito Copley.


E talvez seja esse último, o grande destaque dentro do elenco de Elysium. Revelado junto de Blomkamp em Distrito 9, Copley consegue construir um antagonista de respeito, um soldado acostumado a muitas missões, que acabou sendo "esquecido" na terra. Se Copley impressiona, Wagner Moura é sim a grande surpresa do filme. Sem querer revelar muito, Moura não é um mero coadjuvante e chega a roubar a cena em muito momentos, com um personagem extremamente bem construído. Moura vive uma espécie de revolucionário, com ares duvidosos, que acaba sendo a peça mais elaborada dentro da trama. Já Foster, com o seu talento usual, é a grande mente por trás de Elysium, e também a que melhor representa essa figura da imposição do poder. Além do trio, os protagonistas Matt Damon e Alice Braga também tem bons desempenhos, apesar de personagens mais simples. Se Damon tem uma atuação dentro dos seus padrões, destaque para o seu desempenho até se transformar numa espécie de Robocop, Alice Braga vem se tornando uma realidade dentro de Hollywood. Mesmo com um personagem "sem sal", ela consegue uma interpretação respeitável.


Com 115 milhões de dólares em mãos, orçamento quase quatro vezes maior do que em Distrito 9, Neil Blomkamp transforma Elysium em um engajado blockbuster. Uma ficção científica de qualidade, que não se apega a explicações baratas e levanta temas extremamente atuais dentro da nossa sociedade. Apesar do primor visual, o longa chama mesmo a atenção por seu viés politico e pela forma como tenta levar o tema ao espectador, sem esquecer o bom entretenimento. Não é tão incisivo quanto Distrito 9, mas com sobras, é bem melhor do que os últimos filmes apresentados dentro do gênero.

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