quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Os Estagiários

Filme apresenta uma abordagem interessante sobre o velho dilema da experiência contra a juventude


Essa não é a primeira vez que o duelo entre juventude e experiência é levado para o cinema. Nem tão pouco o primeiro filme a levantar a discussão sobre a diferença entre os relacionamentos humanos e os virtuais. O que faz então de Os Estagiários um filme acima da média? A resposta é simples. Além de não subestimar a inteligência do espectador, como muitas comédias têm feito ultimamente, o longa dirigido por Shawn Levy consegue criar uma abordagem diferente, invertendo os papeis ao dar para os experientes o direito de ser os "sonhadores" em questão. 

Usando a plataforma Google e toda a sua estrutura como pano de fundo - é verdade que em alguns momentos o filme parece uma propaganda da empresa - a trama assinada por Vince Vaughn (Penetras Bons de Bico) tem a feliz ideia de unir duas gerações em um mesmo cenário. Na verdade de injetar dois quarentões, o próprio Vaughn e Owen Wilson em um ambiente completamente inexplorado para dois vendedores de relógios. Explorando bem não só esse confronto de gerações, mas também toda a dificuldade da dupla em se encontrar dentro deste novo "mundo tecnológico", a trama narra a história de Billy (Vaughn) e Nicky ( Wilson), dois amigos vendedores que são surpreendidos com a notícia de que sua empresa irá fechar. Cientes que estão ultrapassados dentro do mercado atual, a dupla acaba se desesperando com a situação. Desempregado, Billy acaba se separando da mulher. Já Nicky tem que recorrer ao desequilibrado cunhado, vivido por Will Ferrel, dono de uma loja de colchão. Tudo muda quando Billy tem a ideia de inscrever a dupla num programa de estágios do Google. O que os dois não sabiam, no entanto, é que em meio a juventude dos seus concorrentes, apenas os seus conhecimentos sobre a vida não seriam suficientes. A dupla precisará cair dentro do mundo virtual. Os dois então partem numa jornada de reciclagem, que vai mostrar que as vezes a própria vida pode ensinar muito mais do que qualquer grande plataforma virtual. 


Aliando bem a comédia às pequenas doses de romance, o longa consegue ainda boas "gags" sobre essa dificuldade dos quarentões ultrapassados em meio ao mundo digital. Os debates filosóficos sobre Flashdance e a pegadinha envolvendo o professor Xavier são excelentes. Apostando na ótima química da dupla Vaughn e Wilson, a trama consegue explorar com inteligência toda essa dificuldade de relacionamento entre as duas gerações. Na verdade, como disse no início, a grande sacada da trama é a de justamente inverter esses papeis. Enquanto os mais jovens mantêm os pés no chão e encaram a oportunidade de trabalhar no Google como a grande chance de suas vidas, os experientes são os sonhadores que, usando metáforas pouco críveis e falácias tipicas de vendedores, acreditam que a vida sempre pode dar mais uma chance. Esse fato dá uma nova roupagem para o tema, promovendo em alguns momentos um debate interessante sobre essa nova perspectiva, em meio a um mercado cada vez mais competitivo. O que chama a atenção também é que o roteiro não aposta em soluções mirabolantes para a dupla e a já esperada evolução dos dois ao longo dos debates tecnológicos soa gradativa e natural. 


E como se não bastasse a inteligente trama, o elenco tem também um desempenho acima da média. A começar pela dupla Owen Wilson e Vince Vaugh, que mostra excelente carisma vivendo uma espécie de "bromance" no longa. Além deles, Os Estagiários acaba apostando em jovens promissores e ainda pouco conhecidos, como Tiya Sircar (17 Outra vez), muito bem na pele de Neha, Josh Brener (The Big Banh Teory), Dylan O'Brien (The First Time) e Tobit Raphael, que formam a equipe dos renegados. Vale destacar ainda o antagonista vivido por Max Minghella (A Hora da Escuridão), a presença da sempre competente Rose Byrne (Sobrenatural) e as boas participações especiais de Will Ferrel e John Goodman.


Leve e divertido, Os Estagiários não tenta ser pretensioso e por isso se torna um dos melhores trabalhos do gênero no ano. Uma comédia de conteúdo, que com inteligência e perspicácia explora muito bem não só esse processo de virtualização, mas principalmente as relações em meio a esse advento cada vez mais presente na nossa rotina. Outro eficiente trabalho do diretor canadense Shawn Levy, que vem conseguindo uma sequência consistente em Hollywood com os interessantes Vizinhos Imediatos de Terceiro Grau, Gigantes de Aço e com o hilário Uma Noite Fora de Série.


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