sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret


Apesar da demora em engrenar, Martin Scorsese promove uma das mais belas homenagens ao fantástico mundo do cinema

Primeira investida de Martin Scorsese no cinema infantil, A Invenção de Hugo Cabret comprova porque o diretor é considerado um dos melhores de todos os tempos. Promovendo uma grande homenagem a magia proporcionada pelo cinema, Scorsese consegue realizar um trabalho para todas as idades, repleto de sensibilidade e encanto. Uma adaptação bem conduzida, que mesmo com um ritmo mais lento do que o esperado, promete emocionar o espectador graças ao ótimo roteiro, a um visual soberbo e a brilhante atuação do elenco. Sem dúvidas, um dos melhores trabalhos dentro do gênero nos últimos anos e uma dos mais belos tributos aos criadores do cinema.

Adaptação da obra literária de Brian Selznick, A Invenção de Hugo Cabret aposta numa narrativa clássica para contar a história de Hugo, um jovem órfão especialista na manutenção de relógios. Após perder o seu pai em um trágico incêndio, Hugo vive perambulando por uma estação de trem em Paris, lutando para manter os relógios em funcionamento e assim não ser notado pelo inspetor (Sacha Baron Cohen). O jovem sonhador, no entanto, acredita que um misterioso autômato encontrado pelo seu pai (Jude Law), possa trazer alguma mensagem dele e revelar um pouco mais do passado de sua família. Na tentativa de recuperar o pequeno robô, Hugo acaba esbarrando em Georgie (Ben Kingsley), o dono de uma loja de brinquedos com passado nebuloso e Isabelle (Chloe Moretz) sua sobrinha sedenta por aventuras. Junto dela, Hugo parte numa aventura inesquecível na tentativa de resolver um mistério mágico.


Apostando em uma narrativa leve e encantadora, Scorsese mostra toda sua versatilidade nesta obra que agrada não só aos adultos, como também a criançada. Apresentando uma trama madura, mas sem perder o ar inocente, o diretor consegue conduzir o filme de uma forma bem fiel à obra, mantendo o equilíbrio entre o drama e a aventura, e revelando pouco a pouco os segredos da trama. Profundo conhecedor do cinema e de sua história, Scorsese monta com primor uma merecida homenagem aos pioneiros da sétima arte, como os irmãos Lumiere e, principalmente, George Meliés. Apesar do ritmo lento nos primeiros minutos, ao longo de cada cena, o roteiro assinado por John Logan vai sugando a atenção do espectador, conquistando o espectador com a sensibilidade em que os dilemas de cada um dos personagens são desenvolvidos. Explorando com sutileza esses dramas, o filme encontra na nostalgia uma arma poderosa, e a utilizando de forma eficiente, constrói uma trama segura e genuinamente emocionante. Sem apelações, ou melodramas. Emocionante na essência.

Convincente também é a atuação de todo o elenco, principalmente, do experiente Ben Kingsley. Após trabalhar com Scorsese em A Ilha do Medo, Kingsley consegue criar um personagem singelo e amargurado, como há muito não se via.  Personagem, aliás, que ganha ainda mais brilho quando começamos a conhecer o seu passado e descobrir aquilo que o levou a se tornar uma pessoa depressiva. Interessante ver como Logan e Scorsese conseguem conduzir esta homenagem a George Meliés, que acaba funcionando muito bem, com direito a algumas surpresas, graças ao pouco conhecimento do grande público sobre esse diretor. Além de Kingsley, a atuação do elenco infantil merece também muitos elogios. Escrever sobre Chloe Moretz é fácil, e mesmo num personagem menos potente, a atriz não decepciona. Já Asa Buterfield é mais um a entrar para aquela lista das boas promessas juvenis. Após a ótima atuação em O Menino do Pijama Listrado, um drama extremamente subestimado, o jovem tem outro bom desempenho, demonstrando uma ótima capacidade nas cenas dramáticas e protagonizando belos diálogos com Ben Kingsley.


Agora, se na arte de conduzir um bom elenco Scorsese sempre se destacou, a grande novidade em A Invenção de Hugo Cabret fica justamente na capacidade do diretor em trabalhar com o 3–D. Explorando vibrantes efeitos visuais, o experiente realizador demonstra pleno domínio sobre esta técnica, não só criando recursos para impressionar o espectador, mas também a utilizando de forma minimalista. Desde a fumaça na estação, até um simples aperto de mão, tudo ganha uma proporção mágica nas mãos de Martin Scorsese, provando que esta tecnologia não necessariamente precisa ser protagonista de um filme. Não é por menos que o próprio James Cameron, um dos pioneiros na técnica em 3-D, deixou claro após a exibição do filme que esse talvez tenha sido o melhor desempenho desta tecnologia já lançado no cinema.

No fim das contas, A Invenção de Hugo Cabret consegue recriar, em grande estilo, os clássicos infantis que foram se perdendo ao longo das últimas décadas. Um filme mágico e encantador que presta uma sensível homenagem ao fantástico mundo da sétima arte. Méritos para o diretor Martin Scorsese, que, com uma condução criativa e surpreendente, nos proporciona um dos mais belos trabalhos de 2012.

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