quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cinemaniac Indica (O Livro de Eli)

Definitivamente 2010 ficará marcado pelo ano em que Hollywood aprendeu a fazer verdadeiros filmes catástrofes. Com abordagens diferentes, os estúdios resolveram novamente investir no gênero, que vinha sobrevivendo dos efeitos especiais de Rolland Emirich, vide 2012 e O Dia depois do Amanhã. Explorando um tom mais realístico, e histórias mais interessantes, este anos tivemos três ótimos lançamentos sobre o tema. Começamos com o divertidíssimo Zumbilândia, que apesar da irrealidade do gênero Zumbi, discutiu temas interessantes. Passamos pelo ótimo A Estrada, um drama eficiente que aborda com frieza o fim da civilização. E chegamos ao O Livro de Eli, um filme envolvente que foi vendido para o público de uma forma completamente equivocada.

Dirigido pelo irmãos Albert e Allen Hughes, O Livro de Eli não é o típico filme de ação protagonizado por Denzel Washington. Então se você espera sequências absurdas do gênero pode se decepcionar. Equilibrando de maneira interessante as cenas de ação, com o desenvolvimento da trama, o longa discuti de maneira eficiente, diga-se de passagem, o poder da religiosidade sobre a civilização. Como todos já devem saber, na trama, o tal livro de Eli é a bíblia e Washington é uma espécie de guardião deste último exemplar por mais de 30 anos. Em uma terra sem lei, onde a civilização foi destruída após uma grande guerra, Eli tem a missão de proteger este livro, mas nem ele sabe bem o porquê. Vagando pelo que restou das cidades, a procura de um lugar onde este livro pudesse recuperar a civilização, Eli encontra um cenário de destruição. Os poucos seres-humanos que sobreviveram, perderam justamente a sua humanidade, e vivem como canibais a procura de alimento. Neste caótico cenário, o único que compreende os objetivos de Eli é Carnegie (Gary Oldman), o autoproclamado lider de uma cidade repleta de ladrões. Tendo conhecimento sobre os poderes deste livro sobre a sociedade, Carnegie parte em uma busca incessante afim de conseguir o valioso objeto que Eli protege.

Explorando com eficiência o poder da religião sobre a sociedade, os irmãos Hughes conseguem fazer uma obra que vai além dos muitos clichês sobre o gênero. Apesar de o roteiro de Gary Whitta não se aprofundar no tema como poderia, ou deveria, a trama tem um bom andamento, aliando estilizadas cenas de ação á um bom desencadear da história. Sem subestimar a inteligência do espectador, o tema é apresentado de maneira sóbria e diferenciada, o que sem dúvidas pode causar algumas críticas dos segmentos mais fervorosos do cristianismo. Infelizmente, no entanto, a forma como o filme foi vendido ao público se torna um grande tiro no pé para a pretensão dos estúdios. Explorado como mais um trabalho de ação do astro Denzel Washington, O Livro de Eli definitivamente não consegue ser. Apesar de ter o ator em um papel semelhante ao que o consagrou, o cara solitário, cisudo, que precisa proteger algo ou alguém, o filme dos irmãos Hughes não tem o interesse em explorar esta vertente do ator. Mas sim, o de adicionar algum conteúdo ao já combalido gênero. Por isso, os fãs mais extremistas de Washington, e de seus filmes, torceram o nariz para O Livro de Eli. Não é por menos que por muito pouco o filme quase não consegue cobrir os seus custos, já que teve um orçamento de 80 milhões de dólares e faturou "apenas" 150 em todo o mundo.

Por falar em Washington, o elenco apesar de reduzido, vai bem. Washington como sempre acerta na construção do personagem, tanto na parte dramática, que neste caso é até mais preponderante, como também nas cenas de ação. Como antagonista, Gary Oldman mais uma vez acerta em cheio. Com um personagem bastante interessante em mãos, Oldman não decepciona conseguindo criar um vilão condizente ao cenário caótico apresentado. Além deles, o elenco conta com a eficiente atauação da bela Milla Kunis, que vai muito bem como Solara, e com a "volta" da ex-flashdance Jenifer Beals, que apesar da fraca personagem, consegue proporcionar boas cenas com Oldman. O Livro de Eli ainda traz uma ótima, e surpreendente, aparição de Malcom Mcdowell.

Se a ação não é muito explorado ao longo do filme, ao menos ela é tecnicamente brilhante. Apostando numa fotografia desértica extremamente inovadora, com uma aspecto acinzentado que funciona muito bem, Don Burgess cria um ótimo clima no longa. As lutas, esteticamente bem construídas, apresentam uma estilização interessante, diferente do que o gênero tem apresentado ultimamente. Além disto, a trilha sonora é bem desenvolvida e contribui para este eficiente clima de destruição que O Livro de Eli promove muito bem.

Transformado a bíblia em uma poderosa arma, O Livro de Eli sem dúvidas foi um filme subestimado. Trazendo uma trama eficiente, um bom elenco e discutindo um tema realmente interessante, o longa dos irmãos Hughes acabou pagando caro por ter sido vendido de uma forma equivocada. Enfim, como a própria bíblia define bem " a ganância não leva ao céu".

3 comentários:

Jardel Nunes disse...

Bem colocado por você que 2010 foi um bom ano pra esse gênero de filme. Acheo O Livro de Eli um filme bem interessante, podia ser bem melhor se o roteiro fosse mais aprofundado, mas é um bom filme.
Destaque para os protagonistas, principalmente Gary Oldman, é impressionante como ele fica bem nesses papéis meio psicóticos.

Abraços

Hugo disse...

Tb gostei do filme, a história é bem interessante. Denzel está bem, mas por outro lado não gostei dos papéis de Gary Oldman (exagerado) e Mila Kunis (deslocada).

Lembra em parte e praticamente no resultado com "A Estrada".

Abraço

thicarvalho disse...

Jardel concordo plenamente. Oldman funciona mto bem neste tipo de papel. Aliás, geralmente ele funciona em qualquer personagem. Abraços.

Hugo eu achei boa sim a atuação de Oldman. Condizente com o cenário do caótico apresentado no filme. Quanto a Kunis, apesar de achar ela uma promissora atriz, realmente ela ficou meio deslocada. Sem função diria assim. Abraços Hugo.

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