E nada melhor que começar com o
filme favorito de Alfred Hitchcock. A Morte Cansada é um thriller dramático
poético, soturno e ao mesmo tempo espetaculoso sobre a efemeridade da vida. A
morte, tal qual o adjetivo no título, surge melancólica, mas implacável. Com as
feridas da 1ª Guerra Mundial ainda expostas, o diretor, por sinal, era veterano
e foi ferido gravemente em combate, Fritz Lang flerta com a esperança e também
a desolação ao narrar as desventuras de uma apaixonada jovem disposta a
convencer a morte de que o amor da sua vida merecia uma nova chance. O
romantismo não apaga o pessimismo e vice-versa. Numa proposta ambiciosa, A
Morte Cansada explora a estrutura de contos com maestria ao escancarar a
impiedade humana por trás da dor e desilusão. Seja num país Muçulmano, seja
na Itália renascentista, seja na China mitológica, o poder do homem é
responsável pela violência. Aos olhos de Lang, a Morte surge como um espectador
apático. Amaldiçoada pela realidade. O esgotamento reflete a melancolia de uma
entidade cansada de conviver com a responsabilidade por atos que não eram seus.
Uma visão complexa e instigante sobre o fim em tempos tão hostis. Tão
inquietante quanto a morte, o protagonismo feminino dado a intrépida jovem
moderniza um clássico arco romântico com coragem. É ela a pessoa a desafiar a
repressão. A sua inconsequência torna tudo mais urgente e ambíguo. Existe amor,
existe pureza, mas também posse e obsessão. E como se não bastassem os
predicados narrativos, o longa se revela uma experiência visual impactante.
Fritz Lang usa e abusa das trucagens ao exaltar o fantástico em meio ao
sombrio. As cores injetam vigor aos planos. As expressões de Bernhard Goetzke
parecem esculpidas na tela. Com um design de produção primoroso e um clímax de
embasbacar, A Morte Cansada testa as nossas expectativas ao traduzir com um misto
de pesar, esperança e ironia a atmosfera de uma época. Lang trata o desapego
como um ato de amor em tempos de luto, incertezas e recomeço.
- Dr Mabuse, O Jogador (1922)
Graças a um vídeo do Entre
Planos, o excelente canal de cinema do crítico Max Valarezo, me senti tentado a
rever Metrópolis. E Impressiona como um filme de 1927 insiste em permanecer
atual, principalmente na crítica de Fritz Lang ao extremismo e ao efeito
sedutor dos seus líderes junto à massa. É fácil, hoje, acusar o diretor de
inocência. O clima utópico, no fim, surge como uma manifestação de esperança.
Não podemos esquecer, porém, do contexto em que Metrópolis foi lançado. Entre o
fim da 1ª Guerra Mundial e o início da consolidação do discurso nazista na
Alemanha. O que diz muito sobre o teor pacifista da obra. Maria é um símbolo de
moderação. A voz da lucidez. Um instrumento que caiu em desuso num ambiente de
polarização política. Uma persona que não interessa àqueles que lucram com o
conflito, que crescem com a divisão, que só ambicionam o poder. Chama a
atenção, aliás, a perspicácia com que Metrópolis trata a massa como um
instrumento de manobra. Lang é visionário ao realçar o perigo em torno da
manipulação e o efeito que uma pessoa pode causar numa nação. Algo que a
Alemanha viria a sentir na pele nos anos seguintes. Nas entrelinhas, o cineasta
é brilhante ao trazer o subtexto religioso para a obra. O insinuante texto da
sua esposa e parceira Thea Von Harbou questiona a voracidade do capitalismo com
ferocidade, flertando com elementos do paganismo e o Velho Testamento ao
vislumbrar uma peculiar versão do Apocalipse. Na visão de Lang, o fim floresce
da desigualdade, é inflamado por interesses escusos e pela ambição e se concretiza
com a violência acéfala. Uma visão distópica que chegaria para revolucionar o
gênero Sci-Fi. O que faz de Metrópolis um dos filmes mais influentes do século
XX.
- M: O Vampiro de Dusseldorf
(1931)
Mais do que uma referência
absoluta para qualquer thriller de assassinato que se preze, M: O Vampiro de
Dusseldorf segue uma obra única. Do auge da sua ousadia narrativa, Fritz Lang
propõe um estudo sobre a psicopatia numa obra capaz de enxergar o mal sob
múltiplas faces. No ano em que a Universal entregava os clássicos Drácula e
Frankenstein, Lang colocou o dedo na ferida ao expor a monstruosidade do mundo
real. O assombroso infanticida surge como a ponta do iceberg da sua implacável
análise sobre uma sociedade corrompida, insensível e perversa. O frescor de M, por
sinal, está na sua abordagem ácida. O foco não está nas vítimas, mas na reação
de um meio moralmente corroído ao frenesi. Na base da ironia, Lang preenche a
trama com seus afiados comentários sobre revanchismo, sensacionalismo e a
violência dos homens comuns. Impulsionado pela extraordinária montagem, a ideia
de traçar um paralelo entre policiais e criminosos é ainda hoje de uma
originalidade ímpar. Mais do que um simples contraponto, Lang cria um cínico
senso de igualdade entre opostos. Como se todos tivessem a sua parcela de
culpa. É nos momentos em que decide expor a sua face mais humana, porém, que M
realmente desconcerta. Na antológica cena de abertura, por exemplo, as lacunas
não preenchidas causam um choque maior do que qualquer sequência gráfica.
Poucas vezes o vazio foi tão tenso e dilacerante. O mesmo vale para as
passagens envolvendo o assombroso assassino vivido por Peter Lorre. Num
trabalho magistral, o ator captura a complexidade psicológica da obra à medida
que se torna uma preza dos seus nefastos crimes. Poucas vezes a psicopatia foi
tão realmente patológica. Nada, porém, supera o desesperador clamor materno no
clímax. Fritz Lang encara o público no olho com uma franqueza impactante e
canaliza a sua tristeza e indignação. Muito mais do que uma mera provocação, um
manifesto contra a inércia que cega, que mata, que vitima inocentes. Com
soluções estéticas\narrativas fascinantes, o silêncio (combinado com os
pontuais efeitos sonoros) potencializa a tensão e a dramaticidade de certas
passagens, M (1931) usa a psicopatia com ponte para uma análise reconhecível
sobre males enraizados nos grandes centros urbanos.
- O Testamento do Dr. Mabuse
(1933)
O Testamento do Dr. Mabuse é uma sequência exemplar. Fritz Lang amplifica o conceito de perversidade do original numa obra visionária sobre o poder de uma ideia. Lançado em 1933 com o Terceiro Reich já no controle da situação na Alemanha, é impossível não associar os ideais distorcidos do antagonista ao ‘modus operandi’ nazista. Numa sacada genial, a força do antagonista emana de uma nova fonte. A hipnose dá lugar a manipulação. A lavagem cerebral nasce da obsessão. A ambição, aqui, assume uma face ainda mais anárquica, perigosa e infelizmente reconhecível. Não à toa o longa acabou censurado em solo alemão na época do seu lançamento. Joseph Goebbels tratou o filme como uma “ameaça à saúde e a segurança pública do país”. Ao mesmo tempo, porém, o Ministro da Propaganda de Adolf Hitler tentou converter Lang e o convidou para produzir obras em nome do regime nazista. Diante da oferta e do nebuloso cenário que já se avizinhava, o realizador germânico fugiu do país logo em seguida e se refugiou em Paris onde lançou o longa. É fácil entender, na verdade, o misto de frustração e fascínio de Goebbels quanto a obra de Lang. O Testamento do Dr. Mabuse é um filme tecnicamente impressionante. O virtuosismo do cineasta fica claro nos ambiciosos planos, no (mais uma vez) inacreditável pulso narrativo, nos expressivos efeitos práticos. O cineasta chegou ao cúmulo de usar armas de fogo de verdade para extrair o máximo de realidade da ação. Em suma, O Testamento do Dr. Mabuse é um thriller psicológico com essência moderna capaz de, tal qual o original, tocar em temas atuais (terrorismo, manipulação, obsessão) com um olhar atento sobre os limites da perversidade humana e total consciência do contexto sócio-político que estava inserido. A perfeita combinação entre a ousadia estética e a narrativa. Não esqueçam os clássicos.
- O Carrascos Também Morrem
(1943)
Os Carrascos também Morrem é um
dos filmes de guerra mais corajosos da sua época. Fritz Lang, em sua fase
americana, assume o temor da derrota num thriller intenso, instigante e
brilhantemente dirigido. Um filme sobre a guerra longe das trincheiras, a
guerra dos que resistem. Lançado em 1943, ou seja, num momento de incerteza
quanto o rumo do conflito, o cineasta alemão invade uma Checoslováquia tomada
pelos nazistas numa trama recheada de nuances sobre a barreira que separa
aqueles que se ajoelham perante o fascismo e aqueles que encaram de frente. A
partir de um plot instigante, Lang escancara o nefasto 'modus operandi' dos
nazistas ao narrar a desventurada jornada de uma família checa envolvida
involuntariamente no assassinato de um líder das forças invasoras. O que começa
como um thriller noir convencional ganha nuances complexas à medida que
inocentes se veem obrigados a encarar a dura realidade e a escolher um lado no
impiedoso conflito. Indo de encontro a O Homem que Matou Hitler (1941), a
propaganda aqui assume um tom mais sutil. Talvez consciente do rumo da guerra,
Lang investe num tom mais dramático. O clamor por resistência indica até certo
pessimismo. O V de Churchill surge como um símbolo de esperança. Esqueça o
romantismo. Os nazistas são cerebrais e perversos, a resistência vulnerável e
cansada. Um senso de ameaça que ajuda a catalisar o longa. Com uma montagem
inacreditável, as cenas de interrogatório seguem influentes, Lang extrai a
tensão da realidade e também da ficção. Estamos diante de uma trama
imprevisível arquitetada com maestria ao longo dos dinâmicos 120 min. No fim,
Os Carrascos também Morrem causa um misto de tensão e comoção ao reverenciar
com sensibilidade os heróis anônimos. Aqueles que encararam a opressão nos
olhos e sacrificaram tudo pelos seus princípios. E isso num período em que o
nazismo era uma ameaça real e dilacerante.
- Um Retrato de Mulher (1944)
A essa altura, notar a
atemporalidade da obra de Fritz Lang pode soar até redundante. Seus principais
filmes são inesgotáveis não só pelo nítido virtuosismo estético\narrativo, mas
pela assinatura do cineasta. Seja nas suas obras mais críticas, seja nas mais
espirituosas, Lang adiciona um senso de urbanidade ao texto que ajuda a
explicar os motivos por elas “sobreviverem” por tanto tempo. O que fica bem
claro quando nos deparamos com Um Retrato de Mulher. Embora siga à risca as
convenções do cinema ‘noir’, o diretor alemão evita se sustentar demais na
tensão ou nos eventuais plot twists ao preencher a trama com um comentário
perspicaz sobre o homem de meia idade. Com base no afiado texto de Nunnally
Johnson, Um Retrato de Mulher testa as expectativas do público ao se alimentar
dos desvios do protagonista. Na pele de um homem casado às avessas com os seus
próprios impulsos extraconjugais, o carismático ator Edward G. Robinson (O
Estranho) captura a ambiguidade moral do argumento com maestria. A sensação de
perigo nasce no momento que ele se depara com uma estranha, a tal mulher
retratada num quadro. Lang trata o flerte com a infidelidade com o primeiro de
uma sucessão de passos em falsos que desencadeia a espiral de confusão que
repentina toma conta do respeitado professor. O misto de fascínio, culpa e
pragmatismo do protagonista torna tudo mais complexo. O cinema noir, na
verdade, se reflete muito mais na estética do que propriamente na narrativa. À
medida que a trama avança e o homem comum é obrigado a experimentar a
obscuridade de um mundo que não era o seu, Lang, com o auxílio luxuoso do
texto, é habilidoso ao se aproximar dos thrillers criminais. Ao mesmo tempo em
que estuda a deterioração emocional o protagonista, o realizador fisga o
público ao explorar a tensão quanto a investigação policial, ao traduzir o
cerco se fechar em torno do cada vez mais vulnerável protagonista, ao sugerir
as possíveis saídas e encruzilhadas. Tudo por um impulso. Tudo pela fragilidade
masculina. No fim, lançado no penúltimo ano do conservador Código Hays, Fritz
Lang encontra a saída perfeita para traduzir o texto original (do escritor J.H
Wallis) sem enfraquecer os questionamentos morais da sua abordagem. Um desfecho
crítico e ao mesmo tempo irônico com assinatura de um cineasta capaz de embutir
um forte significado até nas soluções mais escapistas.
- Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (1960)
Os Mil Olhos do Dr. Mabuse fecha
a trilogia Mabuse (nem sei se existe um nome para esta trinca de filmes) com
competência e elegância. Mesmo com um plot requentado em mãos, Fritz Lang é
sagaz ao encontrar na paranoia da Guerra Fria o combustível deste instigante
thriller policial. Troque a manipulação pela espionagem e temos uma obra
visionária sobre invasão de privacidade. Se falta à Os Mil Olhos do Dr. Mabuse
o senso de perversidade dos longas anteriores, muito em função do demasiado
senso de proteção quanto a real identidade do antagonista, Lang compensa ao expor
com propriedade os temores em torno da vigilância e do poder da informação
privilegiada. A tensão nasce da desconfiança, da sensação que todos são meras
peças num tabuleiro comandado\observado por uma força maior. É interessante ver
como Fritz Lang, quase três décadas depois, consegue explorar com maestria a
força de O Testamento do Dr. Mabuse. A essa altura, nós somos obrigados a
confiar desconfiando. Nos sentimos instigados a desvendar os reais papéis de
cada um dos personagens. O que dialoga diretamente com a essência do ardiloso
vilão. Em sua estrutura, na verdade, Os Mil Olhos dialoga com o melhor que
vemos no suspense da atualidade. Lang investe em figuras tridimensionais e em
soluções narrativas que testam as expectativas do público. O tipo de obra que
pode até soar antecipável, mas nunca previsível. Esteticamente comedido, Os Mil
Olhos de Dr. Mabuse reflete sobre a nossa vulnerabilidade diante daqueles que
têm o intrusivo poder de tudo ver. Em 1960, Fritz Lang já ensaiava uma
discussão ainda hoje atual ao escancarar as inúmeras (e potencialmente
perversas) intenções dos vigilantes modernos. Mais do que um fim de saga, um
desfecho de carreira em grande estilo de um cineasta sempre atento aos perigos
do mundo em que habitava. Não esqueçam os clássicos.
Fritz Lang foi um pioneiro da Sétima Arte. Dr. Mabuse, O Jogador é para muitos o primeiro filme noir da história. Metrópolis reinventou o gênero Sci-Fi. M: O Vampiro de Dusseldorf é o thriller criminal definitivo. A expressividade das suas obras chamou a atenção do Terceiro Reich. Influência direta e indireta para nomes como os de Alfred Hitchcock, Luis Buñuel, Orson Welles, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, William Friedkin e tantos outros, Fritz Lang faleceu em Los Angeles, aos 85 anos, em 1976. As suas obras atemporais, entretanto, seguem vivas e contemporâneas, fruto da mente criativa de um cineasta à frente do seu tempo.
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