sábado, 21 de dezembro de 2019

Fugindo do Hype | It - Capítulo 2

Nada de novo em Derry

É fácil entender porque It - Capítulo 2 passou longe de repetir o êxito do seu antecessor. Enquanto a revigorante parte um conseguiu capturar a essência do texto de Stephen King com um frescor juvenil oitenista e sólidas raízes dramáticas, a superlativa parte dois optou por simplificar as coisas ao emular o senso de nostalgia imaturo que marcou o original num ambiente que desta vez deveria ser mais adulto e complexo. “Ninguém quer brincar mais comigo”, diz um cabisbaixo Pennywise na tentativa de comover uma ressabiada garotinha. O mundo mudou. Em 2019, a cidade de Derry se tornou um lugar ainda mais inóspito. E não por culpa do sinistro palhaço. Logo na impactante sequência de abertura, o diretor Andy Muschietti é enfático ao usar um ato de homofobia como um inteligente elemento contextualizador. A violência urbana enfraqueceu o alcance da entidade. O medo assumiu uma forma mais real na sua ausência. Apesar do início promissor, o realizador argentino frustra ao subaproveitar a perversidade urbana em prol de uma construção de mundo presa ao passado dos protagonistas. Derry é um mero coadjuvante aqui. Um problema potencializado pelo contraditório argumento assinado por Gary Dauberman. Se por um lado o longa merece pontos extras por tentar tornar tudo mais gráfico e impactante visualmente, por outro o roteiro frustra ao sacrificar o potencial intimista da obra. Os garotos de outrora cresceram. Os seus traumas ganharam novas formas. Mas a abordagem não poderia ser mais simplificada. 



À medida que eles retornam para Derry, os seus sólidos conflitos pessoais são esvaziados. Na ânsia de estreitar o laço com o longa anterior, Andy Muschietti decepciona ao esnobar temas espinhosos como violência doméstica, depressão, repressão sexual, crise de autoestima... Elementos que, nas mãos de um sedento Pennywise, poderiam atualizar o teor da obra. Torná-la mais adulta. Outra vez, no entanto, os medos assumem uma forma bem infantil e porque não repetitiva. Embora o cineasta consiga extrair o horror deste contato com os anos 1980, os traumas do primeiro filme, por sinal, ganham corpo desta vez em enervantes flashbacks, It: A Coisa 2 sacrifica muito na tentativa de dialogar com o antecessor. As conveniências narrativas são inúmeras. O argumento recicla situações com exagero. O retorno de um personagem em especial beira o risível. O núcleo adulto tem bem menos voz que o ideal. Incomoda, por exemplo, a falta de convicção do roteiro no desenvolvimento dos personagens após o hiato de vinte e sete anos. Ao invés de focar na reconstrução do elo entre eles, Andy Muschietti, com base numa justificativa frágil, investe em uma série de pequenas ‘sidequests’, os separando com um intuito bastante redundante. Ao contrário do primeiro filme, quando estes momentos de isolamento eram plausíveis, nesta segunda parte tudo soa muito aleatório. Falta naturalidade. Faltam motivações sólidas. Falta independência em relação ao livro. Ao ponto de um dos personagens alertar para o perigo disso. Ao não se desapegar do núcleo jovem, a impressão que fica é que o novo It se esforça para funcionar também como um filme solo, o que ajuda a explicar as absurdas duas horas e quarenta de projeção. 


Diante deste baita problema, por sinal, ninguém “sofre” tanto quanto o adulto Mike (Isaiah Mustafa). Um personagem altruísta, alçado à protagonista no imersivo primeiro ato, mas que é sumariamente esquecido por mais de uma hora de película. Em contrapartida, nos momentos em que decide (finalmente) focar no Clube dos Perdedores, It 2 se revela uma obra tão empolgante e angustiante quanto o original. Escolhido a dedo, o talentoso elenco adulto capitaneado por Jessica Chastain, Bill Hader e James McAvoy mantém o nível ao interiorizar os traumas das suas versões infantis com afinco. Mais do que o combustível do palhaço Pennywise, o medo, aqui, é por si só perigoso. Os personagens nunca foram tão vulneráveis isoladamente. Um sentimento que, graças a sagacidade do roteiro, aquece uma amizade esfriada pelo tempo. As microdinâmicas entre os personagens da primeira parte são novamente exploradas com sutileza e bom humor. Os diálogos são fluídos. O humor pontua a trama com leveza. O triângulo amoroso entre Bev, Ben e Bill é trabalhado com delicadeza. As trocas de farpas entre Bill e Richie seguem impagáveis. O esforço deles para parar a criatura é convincente. O medo idem. O clímax é criativo. A cereja no bolo, porém, segue sendo o sinistro Pennywise e a inventividade de Andy Muschietti em traduzir o horror causado por ele. Sem amarras, a parte dois pira nas possibilidades ao explorar o elemento metamorfo da entidade. O resultado é expressivo, incrementado pelo CGI impactante, pelo virtuoso ‘mise en scene’ e pela marcante performance de Bill Skarsgard. 


Num momento em que a interferência dos grandes estúdios surge como um freio para alguns criadores, It: A Coisa 2 merece o crédito por, ao contrário do seu pavoroso antagonista, se assumir como é. Uma continuação com pretensões grandiosas disposta a resgatar o melhor da marcante parte um ao buscar o terror nos medos mais íntimos dos seus (ainda infantilizados) personagens. No fim, porém, nada de muito novo em Derry.

Um comentário:

Unknown disse...

Thiago gostaria, se possível ver sua análise sobre o filme cats, abominável por todos os críticos q o assistiram.