sábado, 3 de agosto de 2019

Fugindo do Hype | Vingadores: Ultimato (Com Spoilers)

Obrigado, Marvel!

É impossível deixar o vínculo afetivo de fora deste texto. São onze anos de filmes. São onze anos de MCU. São onze anos de Cinemaniac. Embora a criação deste blog não tenha qualquer tipo de conexão com o início do Universo Vingadores, numa daquelas coincidências do destino tive o privilégio de ao longo deste período escrever sobre uma das maiores franquias da história da Sétima Arte. Acompanhar de perto as notícias. Elogiar o que deveria ser elogiado. Questionar o que tinha para ser questionado. São centenas de texto sobre uma saga que soube construir um elo com o seu público. Uma trajetória que alcança o seu ápice, como esperado, no épico Vingadores: Ultimato. Uma obra sem precedência dentro da poderosa indústria da cultura pop. É um filme que não é só UM filme. Avengers: End Game (no original) traz consigo uma parte da essência dos vinte e um capítulos anteriores do Universo Cinematográfico da Marvel. É a síntese de uma saga construída com esmero, com respeito aos fãs, com apreço pelos detalhes. Os irmãos Anthony e Joe Russo encontram aqui a oportunidade de exaltar tudo o que de melhor o MCU tem a oferecer. O senso de diversão. A riqueza de personagens. A dinâmica entre eles. O peso dramático. A ambição narrativa. O virtuosismo estético. E, claro!, muito altruísmo. Muito mesmo. O que, a meu ver, talvez seja o principal predicado de Ultimato. O maior filme de super-herói de todos os tempos é também o de maior coração. Não importa o tamanho da escala das batalhas. Não importa a imponência do vilão. Não importa o senso de urgência. Neste impactante fim de ciclo, Vingadores: Ultimato é retumbante ao reverenciar a jornada dos seus humanos personagens, a importância de cada um deles (do menor ao maior) e o efeito catártico causado por eles junto ao público. Mais MCU impossível.



Eu tentei fugir do hype. Deixei a euforia das primeiras semanas passar. E graças a isso tive uma grande certeza. Vingadores: Ultimato é uma obra tão espetacular, tão única, tão emotiva que se tornou imune aos spoilers. E isso é algo inacreditável. A jornada, aqui, é o elemento primordial. Falo por experiência própria. Graças a falta de respeito de alguns, incluindo grandes portais de comunicação, fui assistir ao longa sabendo, por exemplo, que a destemida Viúva Negra iria morrer, que Tony Star se sacrificaria no fim (o que era até óbvio) e que o Capitão América iria empunhar o martelo do Thor. Isso, porém, em nada prejudicou a minha experiência. Nada! Após onze anos e vinte e dois filmes, Anthony e Joe Russo entenderam que a jornada deveria estar em primeiro lugar. E como as próprias prévias de EndGame anunciavam, parte importante dela é o fim. O que fica bem claro, em especial, no inclemente primeiro ato. Mais do que simplesmente explorar as sequelas do impiedoso ataque de Thanos (Josh Brolin), a dupla de cineastas conseguiu ir além ao transformar o luto em raiva. O altruísmo parece ter se esfarelado com o estalar de dedos do Titã Louco. Tony Stark (Robert Downey Jr.) surge disposto a apontar o dedo. Abatido. Devastado. No fim, de fato, ele tinha razão. A ingenuidade cobrou um preço caro. A rixa causada pela Guerra Civil (2016) nunca foi tão pesada quanto neste terço inicial. Steve Rogers (Chris Evans), talvez pela primeira vez, errou. A sua falta de visão sobre o todo expôs aqueles que ele mais amava. A visão pessimista de A Era de Ultron (2014) nunca fez tanto sentido. Capitã Marvel (Brie Larson) chegou tarde demais... Thor (Chris Hemsworth) só queria vingança. Movidos por sentimentos pouco explorados dentro do MCU, quer dizer, sob a perspectiva dos protagonistas, os heróis tentam uma “reação” derradeira, culminando numa sequência pesada, brutal e nada super-heroica. Um início totalmente condizente com o desfecho de Guerra Infinita (2018). Contrariando as minhas expectativas, os irmãos Russo não fugiram da raia ao tratar as consequências do capítulo anterior com a contundência esperada.


Confesso, inclusive, que cheguei a temer pelo restante do longa. Era óbvio que, como um exemplar do MCU, o senso de diversão logo teria vez. A mudança de tom, no entanto, era um desafio. O escapismo não poderia sacrificar o que havia sido estabelecido previamente. O peso dramático, pelo menos neste primeiro momento, deveria prevalecer. A sacada encontrada pelos irmãos Russo, felizmente, foi excelente. E comprova o quão decisivo foi o esmero de Kevin Feige e sua turma na construção do gigantesco quebra-cabeça que é o MCU. Como escrevi lá atrás, na minha crítica de Homem-Formiga e a Vespa (2018), a Marvel ousou ao encontrar numa descompromissada aventura o sopro de esperança. Uma aura de leveza que “impregna” Vingadores: Ultimato gradativamente à medida que Scott Lang (Paul Rudd) reaparece cinco anos depois com aquela que poderia ser a solução. Sem a necessidade de se explicar demais, algo que já havia sido feito em Homem-Formiga e a Vespa, a dupla de cineastas é habilidosa transformar o então subestimado vingador num elemento chave dentro da trama. Ao lado do cativante Hulk inteligente (Mark Ruffalo) e do sempre impagável Rocket Racoon (Bradley Cooper), o grande ladrão de cenas do filme, Scott resgata o humor do grupo. O que, dentro do contexto, faz todo o sentido, até porque ele praticamente não sentiu os efeitos do estalar de Thanos. Sem querer revelar mais do que o necessário, a aparentemente tola sequência da foto no restaurante, por exemplo, representa a esperta virada de chave na trama. Uma mudança de rumo potencializada pela “forma” corajosa com que os irmãos Russo tratam o devastado Thor. Sob o claro efeito Taika Waititi e o seu Ragnarok (2017), a dupla destrói as nossas expectativas ao pontuar a transformação do deus nórdico no principal elemento cômico da franquia. Com a sua sede de vingança saciada, o Rei de Asgard ganha uma inacreditável nova versão, uma roupagem imatura\desleixada que diz muito sobre o acerto da Marvel ao enxergar nele um potencial irônico muito maior do que épico. Thor melhora enquanto personagem a cada novo lançamento.


Ao longo das envolventes quase três horas de produção, inclusive, impressiona outra vez o cuidado de Anthony e Joe Russo na condução dos seus personagens. Dos mais populares aos mais novos. Assim como já havia acontecido em Vingadores: Guerra Infinita, os irmãos extraem o máximo de cada um deles ao encontrar tempo para que o arco deles siga avançando. Não estamos diante de um clímax de 180 minutos. Existe uma nova história a ser contada. E ela passa muito, pasmem vocês, pela complexa figura da Nebulosa (Karen Gillan). Tal qual a sua irmã Gamora (Zoe Salgana) em Infinity War (no original), a filha cyborg do Thanos adiciona peso ao arco central quando se vê obrigada a tocar em velhas feridas para finalmente se tornar uma Vingadora. Uma daquelas personagens que, sorrateiramente, cresceram muito ao longo dos últimos anos, Nebulosa é repentinamente alçada a posição de protagonistas, se tornando a peça que os irmãos Russo precisavam para apimentar as coisas. A ponte perfeita entre os heróis e os vilões. Destaque para a cativante relação entre ela e Tony no espaço. O mesmo, aliás, podemos dizer de um dos personagens mais “desvalorizados” do Universo Vingadores. Presente desde a Fase 1, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) sempre foi uma peça subaproveitada dentro do MCU. Um herói humano com família, com algo a perder, consciente da sua fragilidade ao decidir lutar lado a lado com gênios da ciência, indivíduos geneticamente modificados, deuses e alienígenas. Por mais que os conflitos do seu personagem tenham sido tratados com maior respeito em A Era de Ultron, Clint Barton merecia um espaço maior. E, para a minha surpresa, ele veio em Ultimato. Apesar da escala épica da obra, os Irmãos Russo encontraram no Gavião Arqueiro um belo gatilho para entender o drama daqueles que sobreviveram e verdadeiramente perderam. Capitão América perdeu a batalha, mas seus principais amigos sobreviveram. Homem de Ferro perdeu o seu pupilo, mas ganhou uma família. Clint não. Perdeu sem lutar. De surpresa. Alheio a tudo ao que acontecia. Logo na fantástica sequência de abertura, é legal ver o cuidado do argumento assinado por Christopher Markus e Stephen McFeely em escancarar através dele a vulnerabilidade dos Vingadores. É dele a sentença mais pesada da obra. “Não me dê esperanças...” diz Clint, agora como o violento Ronin, no momento em que a resliliente Viúva Negra (Scarlett Johansson) surge com um plano que poderia reverter o ataque do Thanos. Ele não aguentaria perder de novo. Juntos, os velhos agentes da SHIELD embarcam na jornada mais tênue e espinhosa da obra. Nada mais justo para uma das relações de amizade\companheirismo mais sinceras dentro do MCU.


O coração de Vingadores: Ultimato, de fato, está na maneira comovente com que Anthony e Joe Russo tratam os seus principais personagens. Mesmo diante da gigantesca escala da obra, a dupla de realizadores consegue se aprofundar no drama de cada um dos Vingadores originais, respeitando o legado construído ao longo de uma década enquanto investiga o impacto do sacrifício na identidade de cada um deles. O sentimento de altruísmo nunca foi tão forte. O que fica bem claro, em especial, quando nos deparamos com o arco do Homem de Ferro. Pedra fundamental da iniciativa Vingadores, Tony Stark já foi de tudo. Egocêntrico, irresponsável, mimado, líder, tutor, derrotado. Nunca, porém, esteve tão certo. Diante do que Thanos causou, as sequelas ocasionadas pelo projeto Ultron se revelaram irrisórias. Ele teve a certeza que não deveria ter pausado as suas pesquisas. A ameaça tão antecipada por ele chegou e os Vingadores não estavam preparados para contê-la. O rancor era claro. É fácil entender a nova posição de Tony. Ele agora é pai, marido, um homem finalmente comum. Sem responsabilidades. Sem o peso da armadura que carregava. Até por isso, talvez pela primeira vez dentro do MCU, ele nunca teve tanto a perder. No embalo da poderosa performance de Robert Downey Jr, que, ao lado de Josh Brolin, Chris Evans, Scarlett Johansson e Jeremy Renner, encaram com intensidade a missão de absorver a carga dramática do plot, os Irmãos Russo dão ao Homem de Ferro o desfecho que o seu personagem sempre mereceu. Ele nunca esteve tão exposto, tão desarmado e tão HUMANO. Desta vez é a humanidade dele que move a trama. O que não quer dizer, entretanto, que Steve Rogers fique atrás. Muito pelo contrário. Símbolo máximo de altruísmo dentro da saga, o Capitão América surge como o elo do grupo. Após anos de relutância, agora (finalmente) ele sabe por quem e pelo que lutar. Sem bandeiras, sem fins bélicos, sem manipulações. Se Tony é o coração de Ultimato, Steve é a alma. A chama que não se apaga. O líder que os Vingadores precisavam. Responsável por algumas das passagens mais catárticas do longa, Capitão América faz jus ao legado do saudoso Stan Lee ao tirar do papel a sequência que todo fã de super-herói sempre sonhou em ver.


Muita da catarse causada por Vingadores: Ultimato, aliás, está na forma honesta com que Anthony e Joe Russo exploram o ‘fan-service’. Neste sentido, na verdade, vai ser difícil algum filme superar o efeito gerado pela apoteótica conclusão da Saga do Infinito. Consciente do status construído pela franquia ao longo dos últimos onze anos, os diretores surpreendem ao olhar para dentro do MCU sob uma perspectiva já reverente. E com toda justiça. Numa sacada inteligente, o já antecipado artifício da viagem no tempo é explorado com originalidade, revisitando outros capítulos da saga com extremo dinamismo. No melhor estilo Homem-Formiga, a ideia de transformar o segundo ato num intrépido ‘heist movie’ deu aos Irmãos Russo a oportunidade de olhar para trás com perspicácia, resgatando alguns dos melhores personagens em participações pontuais e nunca dispensáveis. Uma solução que funciona seja dentro do contexto cômico, como na hilária volta a batalha de Nova Iorque, seja sob uma perspectiva mais emotiva, como no comovente reencontro entre Tony e o seu pai, Howard Stark (John Slattery). Mesmo se sustentando em algumas soluções convenientes, por que os heróis não foram buscar mais partículas Pym antes de iniciar este ousado plano, é inegável que a ideia funciona, principalmente pela maneira esperta com que os Russo brincam com os clichês dos filmes de viagem no tempo. As referências são inúmeras e surgem como um bem-vindo respiro narrativo. Outro ponto que agrada, e muito, é a maneira com que os personagens se “movem” pelo passado. Anthony e Joe invadem o cenário de algumas das mais famosas cenas do MCU sob uma nova perspectiva, capturando alguns detalhes que se tornaram menos importantes em cada uma dessas obras. Como não se escangalhar de rir, por exemplo, com o Hulk raivoso esmagando um carro de forma aleatória em meio a batalha de Nova Iorque, ou em assistir a prisão de Loki (Tom Hiddleston) numa nova e curiosa perspectiva, ou com o ‘insight’ de Tony Stark ao perceber que o uniforme de Steve não realçava os seus atributos físicos. A ideia não é simplesmente resetar as coisas. Por trás da solução encontrada existe humor, existe aventura, existe drama. Reencontros e despedidas. Após o pesado primeiro ato, aqui vemos o MCU raiz. Imperfeito, escapista e estupidamente divertido. Como pouquíssimos títulos conseguem ser na atualidade.


É impossível não finalizar este texto, entretanto, sem se aprofundar no antológico clímax de Vingadores: Ultimato. Algo totalmente inédito. Nunca antes uma obra moveu tantas peças relevantes de forma simultânea como acontece aqui. É óbvio que a cultura pop já viu embates em escala até maior. O Senhor dos Anéis, por exemplo, entregou algumas das mais épicas batalhas da Sétima Arte. A questão não é só essa. O tamanho se torna menos importante quando vemos a espantosa habilidade dos irmãos Anthony e Joe Russo em trabalhar com quase cinquenta personagens (protagonistas\antagonistas) ao mesmo tempo e extrair o bastante de cada um deles em momentos dignos de aplausos coletivos. E isso em meio ao caos de um embate tão imponente quanto o de Guerra Infinita. Tudo, porém, começa pequeno. No melhor estilo Três Homens em Conflito (1966) de Sérgio Leone. O embate se inicia olho no olho. A partir do esforço de Thor, Capitão América e Homem de Ferro na implacável batalha pessoal contra Thanos, os irmãos Russo conseguem ressaltar o quão ‘bad-ass’ é o vilão central da Saga do Infinito, causando um misto de tensão e euforia ao entregar algumas das sequências mais catárticas do MCU. Uma mix de sentimentos que só se afloram quando Anthony e Joe decidem entregar aquilo que qualquer fã de quadrinho sempre sonhou ver na tela grande. Não existem artifícios aqui. Não tem para onde fugir. Os Vingadores estão unidos. E o que vemos é algo difícil de se traduzir em palavras. 


Ultimato culmina numa sucessão de cenas fantásticas guiadas pela grandiloquente trilha sonora de Alan Silvestri. Todos, volto a frisar, ganham o espaço necessário para brilhar. Gostei de ver, aliás, como a estupidez de Peter Quill (Chris Pratt) no capítulo anterior foi castigada. Com efeitos visuais de arrepiar, enquadramentos imagéticos e uma primorosa montagem, a explosão de superpoderes enche a tela de forma magnânima, capturando a escala do combate com clareza e muito dinamismo. A câmera dos Irmãos Russo “passeia” entre os personagens com assertividade, indo do micro ao macro num verdadeiro piscar de olhos. Em meio a tudo isso, eles conseguem extrair o humor da situação, a raiva de alguns personagens, o desespero, o medo, a empolgação, o ‘girl power’. Valkiria (Tessa Thompson), Okoye (Danai Gurira), Capitã Marvel (Brie Larson) e a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), por sinal, roubam a cena. O senso de urgência é claro. Thanos, como o próprio diz, é inevitável, e Ultimato consegue nos fazer enxergar isso. Ele nunca esteve tão irritado, tão convicto, um sentimento capturado com brilhantismo pelo CGI. A expressividade do Titã Louco é outro ponto sem precedentes de End Game.


O que vemos, no fim, é um desfecho superlativo, mas que nunca sacrifica a emoção. Vingadores: Ultimato nos seus trinta minutos finais vai da alegria à tristeza. Da empolgação ao comedimento. Da euforia ao luto. Não é fácil dar adeus. Uma missão dificultada pela sensibilidade com que os irmãos Anthony e Joe Russo pontua o arco de alguns dos mais queridos heróis do MCU. Com uma sutileza digna de elogios, a dupla reverência o legado dos Vingadores originais enquanto estabelece a sua discreta passagem de bastão, conseguindo numa só cena unir o passado, o presente e o futuro do Universo Cinematográfico da Marvel e capturar a estreita conexão entre eles. O resultado é de uma clareza inquestionável. O sentimento ali é puro. E transpassa a quarta parede ao atingir o público. Embora a fase 4 já esteja começando a ganhar forma, Vingadores: Ultimato marca o fim de um ciclo. De um capítulo inesquecível dentro da cultura pop. De uma experiência cinematográfica difícil de ser igualada. 


 Obrigado, turma. Obrigado, Marvel. 

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