quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Cinco Fatos que Ajudam a Explicar o Sucesso de It: A Coisa


Uma das grandes surpresas cinematográficas de 2017, o "fenômeno" It: A Coisa tem causado um enorme frisson nos EUA. Recebido com entusiasmo pela crítica, o longa dirigido pelo argentino Andy Muschietti já soma expressivos US$ 305 milhões no mercado norte-americano, superando por muito o modesto orçamento de US$ 35 milhões. Além disso, mesmo limitado pela elevada classificação etária, a adaptação da obra do cultuado escritor Stephen King se tornou nos últimos dias a maior bilheteria da história do cinema de Terror\Horror com expressivos US$ 677 milhões* ao redor do mundo. Entender o sucesso de It: A Coisa, porém, não é tão simples assim. Como se não bastassem os seus inúmeros predicados técnicos e narrativos, destrinchados à fundo na nossa crítica, a película estrelada por Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard e Bill Skarsgård parece ter tirado proveito de outros fatores, o que justificaria o triunfo de uma produção que até pouco tempo atrás sequer era mencionada entre os filmes mais aguardados do ano. Neste artigo, portanto, tentaremos entender a partir de cinco fatos os motivos que ajudam a explicar o êxito comercial do ótimo It: A Coisa.

- A "grife" Stephen King



Um dos escritores de ficção mais respeitados (e lidos) da atualidade, Stephen King geralmente é sinônimo de sucesso. Com obras originais e tematicamente universais, o autor ganhou prestígio não só junto aos (exigentes) leitores mais vorazes, como também aos fãs de um passatempo mais descompromissado. Uma popularidade que, na maioria das vezes, é abalizada quando um dos seus livros\contos ganham às telas de cinema. Embora não seja tão cuidadoso quanto a liberação dos direitos dos seus projetos, o que explica a enorme quantidade de filmes ruins envolvendo as suas histórias, King ora e vez figura na Sétima Arte com um grande sucesso de público\crítica. Um dos maiores, por exemplo, é Um Sonho de Liberdade (1994), drama dirigido por Frank Daranbont que, apesar de não ter se saído tão bem nas bilheterias, se tornou o longa com a melhor avaliação dentro do IMDB, o Internet Movie Data Base. Um sonoro 9,3. Com obras dirigidas por nomes como Brian de Palma (Carrie: A Estranha), Stanley Kubrick (O Iluminado), John Carpenter (Christine: O Carro Assassino), Rob Reiner (Conta Comigo) e George A. Romero (A Metade Negra), King virou uma "grife" e seus últimos projetos tem se saído bem nas bilheterias. Sob a batuta de Wes Craven, o suspense Voo Noturno (2005) faturou interessantes US$ 95 milhões ao redor do mundo, superando os US$ 25 milhões de orçamento. O mesmo, aliás, aconteceu dois anos depois com o tenso 1408 (2007), longa estrelado por John Cusack e Samuel L. Jackson que arrecadou US$ 131 milhões mundialmente. It, porém, é disparado o maior sucesso de público da sua "filmografia", superando os US$ 266 milhões conseguidos por À Espera de um Milagre (1999). 

- Onda Nostálgica em Hollywood



Logo após a estrondosa estreia de A Bela e a Fera, eu preparei um artigo sobre as crescente onda nostálgica em Hollywood. Rivalizando com as grandes franquias de super-herói, sucessos como Mogli: O Menino Lobo (US$ 966 mi), Star Wars: O Despertar da Força (US$ 2,06 bi), Jurassic World (US$ 1,67 bi) despontaram revitalizando clássicos, mostrando que o dinheiro poderia estar no passado. Nos últimos anos, inclusive, muitas produções tem bebido da fonte dos anos 80, resgatando a estética hiper-colorida, a eclética trilha-sonora, além de  elementos como o neon e os sintetizadores. Como não citar, por exemplo, títulos como Super 8, Os Guardiões da Galáxia, De Volta ao Jogo, X-Men: Apocalipse, Atômica, Homem-Aranha: De Volta ao Lar, Baby Driver e o ainda inédito Thor: Ragnarok. O ápice da nostalgia, entretanto, aconteceu na cultuada série Stranger Things, que, recheada de referências, reciclou o velho subgênero crianças contra o mundo. Numa mistura de Os Goonies, com E.T, Deu A Louca nos Monstros e Os Garotos Perdidos, a produção da Netflix mostrou que o público andava realmente saudosista, a deixa que Hollywood precisava para colocar a criançada no meio de grandes confusões. Foi assim em X-Men: Apocalispe, Logan, Transformers: O Último Cavaleiro e (claro!) It: A Coisa. Embora o livro esteja entre uma das principais referências da série, é óbvio que o hype em torno de Stranger Things ajudou a preparar o público para o "espírito" do filme, para a misturada de gêneros brilhantemente orquestrada por Andy Muschietti, se tornando uma das explicações mais plausíveis para o triunfo comercial do longa. É bom frisar, entretanto, que, apesar da ajudinha do seriado, It é o produto original nesta equação. Que isso fique bem claro, principalmente junto àqueles que acham que a cultura pop nasceu na sua geração.  

- Elenco afinado, arquétipos populares


Sob espontânea batuta de Andy Muschietti, o elenco de It: A Coisa mostrou o dinamismo necessário para se tornar um representante digno do gênero "crianças contra o mundo". Assim como nos títulos citados acima, o longa se preocupou em realçar a amizade entre os protagonistas, em estabelecer a personalidade dos personagens, dando ao entrosado elenco a oportunidade de brilhar numa produção essencialmente jovial. Impulsionados pelo afiado texto, os talentosos Jaeden Lieberher (Um Santo Vizinho) e Finn Wolfhard (Stranger Things) assumiram o protagonismo da película sem sequer titubear, liderando um grupo de rostos menos conhecidos. Na pele do sacana Richie, aliás, o segundo criou uma das figuras mais engraçadas de 2017, resgatando um arquétipo cômico bem particular nas produções do segmento. Na verdade, Muschietti é especialmente perspicaz ao dialogar com elementos bem reconhecíveis aos olhos dos fãs do gênero. Se pararmos para analisar bem, inclusive, iremos perceber a esperta relação entre os personagens e alguns dos maiores clássicos cinema 'teen' oitentista. O humor moleque\debochado de Richie, por exemplo, remete diretamente ao falastrão Bocão (Corey Feldman) de Os Goonies .O mesmo acontece com a rebeldia ruiva da doce Sophia Lillis, numa clara alusão a figura de Molly Ringwald e a títulos como Clube dos Cinco e A Garota de Rosa Shocking. Isso para não falar do gordinho inteligente vivido por Jeremy Ray Taylor, do engraçadíssimo medroso interpretado por Jack Dylan Grazer e do rapaz deslocado que se torna a força do grupo vivido por Chosen Jacobs. Todos arquétipos bem recorrentes que, ao serem utilizados com originalidade, se tornam um dos motivos do inquestionável sucesso do longa. 

- Pennywise: um vilão de causar arrepios



É de conhecimento popular que o cinema de Horror\Terror tem sofrido com a falta de vilões memoráveis. Enquanto nos anos 80 personagens como Freddy Krueger, Jason, Michael Myers, Chucky tomaram conta do segmento, na década passada foi uma série de antagonistas saturados. Após uma série de continuações\remakes\reboots, os vilões de Hollywood foram perdendo espaço, se tornaram figuras banais. Mesmo os mais "novos", como o enigmático Ghostface e a amedrontadora Samara, foram utilizados a exaustão em sequências de gosto bem duvidoso. A ameaça, aos poucos, passou a ser invisível, impulsionada por títulos como A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal. Nos últimos anos, porém, uma corrente de diretores voltou a apostar na personificação do antagonista. Como não citar, por exemplo, a velha decrépita de Sobrenatural, a possessiva mãe de Mama e a popular boneca Annabelle. Nenhum deles, porém, chegam perto da força e do visual do arrepiante Pennywise. Um dos antagonistas mais populares da vasta obra de Stephen King, o palhaço dançante é o melhor (ou seria pior) antagonista do gênero em décadas, uma figura naturalmente ameaçadora que se torna um dos grandes trunfos de It: A Coisa. Convivendo com o "fantasma" da fantástica performance de Tim Curry, o responsável pela adaptação televisiva da década de 1990, o jovem Bill Skarsgard criou um vilão magnífico, um personagem insano e sedento que rouba a cena sempre que está nela. Como se não bastasse a medonha caracterização do palhaço, o ator sueco deu aula de como causar medo, investindo pesado na expressão facial ao traduzir o aspecto mais predatório do personagem. Pode parecer mentira, mas, por diversas vezes, o ator consegue olhar para a lente e para os jovens ao mesmo tempo, criando uma experiência bizarra. Que trabalho! Vale frisar que um vilão do porte de Pennywise é, também, um peça chave no processo de divulgação do longa, um marketing ativo que ajuda a explicar a popularidade desta adaptação.

- O reaquecimento do gênero



E por fim um tópico que merecia um artigo solo. Após o triunfo individual de franquias como Jogos Mortais e Atividade Paranormal, duas "sagas" superestimadas que, verdade seja dita, se sustentaram basicamente no baixo orçamento e no hype criado em torno do seu lançamento, o (saturado) cinema de Terror parecia voltar para o limbo que havia tomado conta do segmento durante os anos 90. Isso até o lançamento do criativo Sobrenatural (2010) e a consolidação de James Wan. Aprendendo com os erros das duas séries citadas acima, o realizador malásio e os executivos da Blumhouse Pictures (empresa proeminente dentro do segmento) entenderam que o baixo orçamento era a saída para a lucratividade, mas que os filmes precisavam também ter qualidade. Com muitos mais acertos (comerciais) do que erros, a parceria emplacou hits como o "apenas" lucrativo Atividade Paranormal 3 (2011), o crítico Uma Noite de Crime (2013), o honroso Sobrenatural 2 (2013), o tenso Uma Noite de Crime: Anarquia (2014), o sínico A Visita (2014), o surpreendente Fragmentado (2017) e o excelente Corra! (2017). Isso para não falar dos filmes ruins e rentáveis (Ouija, O Garoto da Casa ao Lado, Atividade Paranormal 4) e dos "fenômenos" Invocação do Mal e Invocação do Mal 2 (2013-2016). Dois produtos, diga-se de passagem, bem melhores do que o genérico título nacional pode sugerir. Na verdade, embora dirigido por Wan, a dobradinha (e os derivados) não foram produzidos pela Blumhouse, mas pela Warner. Sim, a mesma companhia por trás de It. Neste cenário "receptivo", A Coisa despontou como o título certo, na hora certa. Com um orçamento bem superior a maioria dos longas citados acima, Andy Muschietti entregou a qualidade esperada para um produto de um grande estúdio, ostentando a sua criação ao apostar veementemente no seu monstro e no medo em detrimento do susto. O resultado é um estrondoso sucesso de crítica e bilheteria.

* Números Atualizados no dia 08\11.

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