domingo, 25 de junho de 2017

Cinco Filmes (Daniel Day-Lewis)


Uma bomba para qualquer fã de cinema, a aposentadoria do ator Daniel Day-Lewis é uma daquelas notícias que a gente torce para ser desmentida. Segundo a informação da Variety, a derradeira produção do ator será Phantom Tread, o seu último trabalho com o diretor e velho parceiro Paul Thomas Anderson. De acordo com o representante do ator, Leslee Dart, Lewis "está imensamente grato com todos os colaboradores e o fãs que o acompanharam ao longo dos anos. É uma decisão privada e nem ele, nem seus representantes farão qualquer comentário futuro sobre o assunto". Dono de três estatuetas do Oscar, Daniel Day-Lewis fez parte de uma safra rara de realizadores. Ele é do tipo que prefere a qualidade à quantidade. Com um apurado faro para grandes personagens e uma filmografia singular, o recluso ator construiu o seu legado sem precisar apelar para a mídia, para o rótulo estrelar. O seu status veio única e exclusivamente do seu trabalho, da sua máxima dedicação e das suas elogiadas produções. Para celebrar a carreira deste verdadeiro monstro da arte de atuar, neste Cinco Filmes iremos lembrar de alguns dos grandes filmes da sua carreira, uma missão dificílima tendo em vista o elevado padrão de qualidade da sua obra. 

- Meu Pé Esquerdo (1989)


Numa performance capaz de transcender as barreiras da atuação, Daniel Day-Lewis colocou o seu nome na história da sétima arte no primoroso drama Meu Pé Esquerdo. Dando vida ao artista irlandês Christy Brown, um pintor e escritor com uma severa paralisia cerebral, o então promissor ator britânico arrebatou o público e a crítica com um desempenho único, um trabalho repleto de fisicalidade e expressão. Mais do que simular a atrofia do biografado, Lewis criou uma espantosa conexão com o seu personagem. O ator conseguiu interiorizar os sentimentos do artista, o misto de dor, esperança e criatividade presente na sua rotina diária, tornando a genialidade do retratado evidente aos olhos do público. Imerso no personagem, Lewis exibiu a sua reconhecida intensidade ao traduzir as emoções de Christy, ao torna-las completamente únicas e pessoais. Com um material vasto em mãos, ele se aprofundou como poucos na psique do complexo pintor, na maneira com que ele expressava a dor, a raiva, a felicidade, a esperança e o afeto, dando uma conotação própria a cada um destes sentimentos. Na verdade, reconhecido por suas metódicas atuações, Daniel Day-Lewis se dedicou ao máximo para absorver os trejeitos de Christy, o seu característico modo de se comunicar. Durante o processo de pré-produção e as filmagens, inclusive, o ator assumiu a cadeira de rodas, a movimentação involuntária do personagem, o que lhe rendeu duas costelas fraturadas e uma representação estupenda das limitações do escritor. O resultado é uma performance singular capaz de capturar a personalidade deste inspirador artista com um grau de intimidade poucas vezes visto no cinema.


Conduzido com enorme sensibilidade por Jim Sheridan, o primeiro grande parceiro de Daniel Day-Lewis, Meu Pé Esquerdo é brilhante ao construir este sincero drama familiar. Sob um prisma abrangente, o realizador não só se encanta pela figura de Christy, como também pelos pais do artista, o “casca grossa” de bom coração Srº Brown (Ray McAnally, impecável) e a dedicada Srª Brown (Brenda Fricker, extraordinária). Com uma condução genuinamente intimista, Sheridan é cuidadoso ao revelar tanto o fardo inicial e as incertezas dos Brown acerca do futuro de Christy, quanto o cativante processo de criação e a dinâmica desta humilde família irlandesa. Somado a isso, Sheridan cativa ao investigar a estreita relação entre Christy e os seus queridos pais, ao revelar os altos e baixos em torno do trio, uma relação humana arquitetada com extrema delicadeza ao longo da película. Sem querer revelar muito, a Srª Brown é uma figura incrível, uma mulher dedicada e atenciosa que rouba a cena com diálogos memoráveis. "Um corpo ferido não é nada perto de um coração partido", diz a preocupada mãe ao perceber o encantamento do filho pela sua médica, a Drª Eileen Cole (Fiona Shaw). Até em cima disso, aliás, é interessante ver o esmero de Sheridan ao revelar as desilusões amorosas de Christy, um arco pessoal que diz muito sobre a personalidade do pintor e a sua incessante busca por um romance. Dito isso, com uma fotografia elegante, uma montagem extremamente fluída e um elenco no auge da sua forma, Meu Pé Esquerdo fascina ao desvendar o homem por trás da sua obra, ao revelar a trajetória de um pintor\escritor que superou as suas limitações ao conseguir "domar a sua arte" e trilhar o seu próprio caminho.

- O Último dos Moicanos (1992)


Um velho artesão na arte do cinema, Michael Mann apontou a sua mira para o coração da América no épico O Último dos Moicanos. De longe uma das produções mais imponentes da década de 1990, o longa estrelado por Daniel Day-Lewis e Madeleine Stowe ultrapassou as barreiras do gênero ao usar a Colonização Americana como o pano de fundo para uma história de amor e vingança. Um dos raros projetos hollywoodianos sobre a situação dos nativos americanos no centro deste conflito, o filme é primoroso ao escancarar a degradação moral e cultural das tribos. Apesar de trazer um homem branco no papel do protagonista, uma artimanha comercial, diga-se de passagem, bem explicada pelo roteiro, Mann esbanja categoria ao expor os agentes por trás das atitudes dos personagens. Embora pintado como o vilão, o obcecado Magua (Wes Studi) surge com motivações realmente sólidas. Mais do que criar figuras unidimensionais, o longa é cuidadoso ao mostrar os dois lados da moeda, ao revelar a ardilosa influência europeia no modo de vida dos nativos, indo de encontro aos mais enraizados clichês do gênero ao mostrar os indígenas como parte integrante do conflito. Uma peça chave nos planos de ingleses e franceses. O Último dos Moicanos, porém, em nenhum momento se reduz ao contexto bélico.


Também responsável pelo envolvente roteiro, Michael Mann brilha ao utilizar a guerra como o pano de fundo para uma história bem mais íntima e singular. Inspirado no clássico homônimo do escritor James Fenimore Cooper, o realizador norte-americano é sutil ao construir o caso de amor entre um "adotado" moicano (Lewis) e a filha de um importante general (Stowe). Com um excelente senso de simultaneidade, Mann consegue não só desenvolver a repentina relação dos dois, como também se debruçar sobre as consequências desta história de amor, um arco íntimo que se mistura harmoniosamente com as agressivas cenas de ação e com o conflito em questão. Poucas vezes, aliás, a guerra entre os colonizadores foi tão bem narrada em Hollywood. Reconhecido pelo seu rigor técnico, Michael Mann não poupou esforços ao tornar o cenário o mais verossímil possível. Sem medo de "sujar" as mãos, ele levou as filmagens para o coração da Carolina do Norte e construiu um set de filmagens de fazer inveja a qualquer grande realizador da velha geração. Impulsionado pela expansiva fotografia selvagem de Dante Spinotti, Mann exibe o seu vasto repertório ao nos brindar com sequências engenhosas, momentos memoráveis como o noturno plano panorâmico nas trincheiras francesas, o gigantesco ataque Mohawk às tropas inglesas ou então a expressiva cena de fuga em baixo do "lençol" de uma cachoeira. Uma bela maneira de se usar as paisagens naturais. No embalo da inesquecível trilha sonora da dupla Randy Eldman\Trevor Jones e das magníficas atuações do dedicado elenco, capitaneado por um "indomável" Daniel Day-Lewis, O Último dos Moicanos é um filme cada vez mais raro em Hollywood. Uma produção singular, de grandes proporções, mas que em nenhum momento esquece de valorizar o que realmente importa: o poder de uma comovente história.

- Em Nome do Pai (1993)



Sob a batuta do sensível e engajado Jim Sheridan, Em Nome do Pai é um relato intimista sobre uma desoladora história real. Como de costume na sua filmografia, o realizador irlandês joga uma luz sobre o IRA (o Exército Republicano Irlandês) ao acompanhar a desventurada jornada da família Conlon. Impulsionado pela magnífica performance de Daniel Day-Lewis, impecável ao traduzir o processo de amadurecimento do seu personagem em um ambiente naturalmente opressor, o longa segue os passos do rebelde Gerry Conlon, um jovem arredio que é injustamente acusado de um atentado a um pub. Mesmo sem qualquer ligação com a organização, ele é preso e condenado a prisão perpétua, para o desespero do seu devotado pai, o bondoso Giuseppe Conlon (Pete Postlethwaite). Convicto da inocência do filho, ele resolve questionar a policial local, mas acaba preso por associação criminosa. Revoltado com a detenção do seu pai, Gerry decide se insurgir contra o sistema, atraindo a atenção da advogada Gareth Peirce (Emma Thompson), uma determinada mulher disposta a expor as irregularidades por trás da condenação dos dois.


Muito mais do que um drama político, Em Nome do Pai é um relato comovente sobre o amor entre um pai e o seu filho. Por mais que o roteiro explore com propriedade o contexto judicial e revele o autoritarismo em torno da condenação dos dois, Jim Sheridan mostra a sua reconhecida maturidade ao se encantar pelo fator humano. Com uma direção intimista, o diretor irlandês é cuidadoso ao construir o processo de amadurecimento de Gerry, uma jornada árdua marcada pela injustiça, pela tortura e pela repentina reaproximação com o seu pai. Através de diálogos marcantes e sequências sentimentais, Sheridan mostra sensibilidade ao se debruçar sobre esta estremecida relação familiar, ao expor a influência desta serena figura paterna na metamorfose do filho, um arco potencializado pela magnífica atuação do subestimado Pete Postlethwaite. Além de expor a violência e a dor dos dois personagens, o argumento é cuidadoso ao revelar não só a conexão entre Gerry e uma célula do IRA na prisão, como também os bastidores desta batalha jurídica, nos fazendo experimentar o gradativo senso de urgência em torno da luta de Gerry e Giuseppe por justiça. Em suma, com uma direção elegante mesmo num cenário claustrofóbico, um arco familiar recheado de nuances e um argumento capaz de mexer com as emoções do espectador, Em Nome do Pai se revela um drama completo, uma obra sólida e envolvente marcada por diálogos intensos, atuações impactantes e um clímax genuinamente libertador. E que cena final!

- Sangue Negro (2007)


Talvez o filme mais visceral da carreira de Daniel Day-Lewis, Sangue Negro é um enérgico drama familiar. Um relato épico à moda antiga, mas narrado dentro de um contexto inegavelmente moderno. Ao longo dos imersivos 160 minutos de película, o refinado Paul Thomas Anderson nos brinda com uma história sobre ganância, religião, degradação moral e decadência. Indo além da monstruosa atuação de Lewis, brilhante na pele de um impetuoso desbravador, o longa surpreende ao introduzir o excelente Paul Dano, magnífico na pele de um pastor influente e ardiloso capaz de expor a faceta mais venal das instituições religiosas. Através desta inusitada relação, Anderson desfila a sua genialidade ao transitar por temas naturalmente complexos, os descortinando com crueza e inegável contundência. Na verdade, o realizador transforma o impetuoso Daniel Plainview numa espécie de símbolo, o homem por trás do mito do sonho americano. A realidade, entretanto, aqui é mostrada em sua mais nefasta forma. Sangue e petróleo se misturam numa jornada em busca do poder e da riqueza. Não há lei, nem tão pouco ética. E o roteiro é brilhante ao traduzir a deterioração física e emocional do ex-minerador neste "universo" corrosivo.


Nem só de aridez, porém, vive esta emblemática história. Em meio à questões tão vis, o roteiro é sutil ao investigar também o lado mais humano de Daniel, a sua delicada relação com o filho H.W. (Dillon Freasier), permitindo que o espectador enxergue as múltiplas facetas deste complexo personagem. O pior e o melhor de uma figura capaz de tudo para alcançar os seus objetivos. É preciso salientar, no entanto, que Sangue Negro não é um filme "fácil" de se assistir. Embora objetivo e extremamente universal, Paul Thomas Anderson não poupa o espectador ao escancarar as consequências por trás desta espiral de ambição e loucura, culminando numa sequência final explosiva, brutal e totalmente condizente com as atitudes dos personagens. Um desfecho impactante para uma obra impressionante. Um longa que, como se não bastassem os inúmeros predicados narrativos, se revela ainda uma película tecnicamente irretocável, um trabalho potencializado pela elegante condução de PTA, pela suja e expansiva fotografia de época de Robert Elswit (Atração Perigosa) e pela fantástica direção de arte.

- Lincoln (2013)


Após trabalhar com nomes como Jim Sheridan, Michael Mann, Martin Scorsese e Paul Thomas Anderson, Daniel Day-Lewis resolveu se distanciar dos holofotes. Longe dos sets de filmagem após o lançamento do musical Nine (2009), o ator relutou em aceitar o convite de Steven Spielberg, que se viu num grande dilema após a saída de Liam Neeson do projeto. Acostumado a não "enfileirar" trabalhos, Lewis pediu um ano de espera, tempo prontamente respeitado pelo realizador norte-americano. Melhor para nós espectadores que, mais uma vez, pudemos presenciar mais um show do astro Daniel Day-Lewis. Na pele de uma das figuras públicas mais populares da história, o ator simplesmente “desaparece” em cena ao viver este icônico político. Num complexo estudo de personagem, Lewis exibe o seu dedicado detalhismo ao dar corpo a esta imponente figura. Numa performance extremamente física, ele fala de um modo particular, anda de um modo particular, exprime as suas emoções de um modo particular. Nada ali remete ao sempre intenso Daniel Day-Lewis. Com uma postura quase sempre curvada, um andar vagaroso e um sereno modo de se expressar, o dedicado ator consegue não só realçar a dor de Lincoln e o seu sofrimento diante da violenta Guerra da Secessão, como também a esperança dele na luta pelo fim da escravidão nos EUA. Sob a imperceptível batuta de Spielberg, Lewis ganha a liberdade necessária para nos fazer enxergar o homem por trás do mito, e consequentemente compreender os motivos que o transformaram numa grande fonte de inspiração para o povo americano. Uma performance magnífica que rendeu a Daniel Day-Lewis o seu terceiro Oscar de Melhor Ator.


Nem só de Lewis, porém, vive o excelente Lincoln. Embora haja contestações em torno da precisão história do longa, um fato bem comum no gênero, Steven Spielberg exibe a sua reconhecida sensibilidade ao se debruçar sobre um dos momentos mais memoráveis da política norte-americana. Num primeiro momento, o roteiro assinado por Tony Kushner é perspicaz ao narrar o jogo político por trás da aprovação da 13ª Emenda. Comprovando que os tempos passam e as "artimanhas" públicas não mudam, o argumento faz questão de expor o amoral 'modus operandi' em torno da aprovação de tal lei, evidenciando com clareza o 'lobby', a compra de votos e a corrupção por trás de um projeto tão decisivo. Isso é política, seja para o bem ou para o mal. Outro ponto que agrada, e muito, é a maneira com que o filme trata a causa Negra. Fazendo um primoroso uso da retórica, Lincoln não só põe o dedo na ferida ao realçar não só a injustiça histórica quanto ao papel do negro na sociedade americana, como algumas questões raciais que só viriam a se tornar recorrentes quase um século depois da abolição. Sem querer revelar muito, a sequência em que o presidente e a dama de honra (Gloria Reuben) da sua esposa (Sally Field) discutem o futuro dos ex-escravos numa América "igualitária" é magnífica, um momento sincero que diz muito sobre as incertezas e os obstáculos enfrentados pelos negros nos anos seguintes.


Com o avançar da trama, aliás, Spielberg é igualmente habilidoso ao se voltar também para a faceta mais íntima de Abraham Lincoln. Sem nunca perder o foco da trama, o papel do presidente na Abolição da Escravatura, o diretor esbanja sutileza ao costurar as questões familiares ao pano de fundo político, nos brindando com momentos marcantes. No melhor deles, Lewis e Field expõem os “fantasmas” do presidente e da primeira dama numa sequência naturalmente densa. Por falar no elenco, Spielberg tira o melhor dos seus qualificados "comandados", dando a nomes como Tommy Lee Jones, James Spader, Lee Pace e David Strathairn a chance de brilhar através de personagens muito bem escritos. Contando ainda com inúmeros predicados estéticos, vide a espetacular direção de arte, a sóbria fotografia iluminada de Janusz Kaminski e os impecáveis figurinos de época, Lincoln reforça o mito em torno do décimo sexto presidente dos EUA sem esquecer de investigar a sua face mais intima. Num trabalho extremamente sofisticado, Steven Spielberg é perspicaz ao traduzir a imponência imagética do biografado, ao mostra-lo com um verdadeiro símbolo de justiça e igualdade, uma abordagem solene (reparem na maneira com que o diretor explora a popular silhueta do personagem) humanizada pela estrondosa performance de Daniel Day-Lewis. Um dos poucos a conseguir encarar uma figura deste porte.

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