segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O Roubo da Taça

Piada Nacional

Inspirado em títulos do quilate de Fargo (1996) e Snatch: Porcos e Diamantes (2000), O Roubo da Taça é uma comédia de erros com um tempero tipicamente tupiniquim. Sob a cômica batuta de Caito Ortiz, da divertida série FDP, o longa estrelado pela dupla Paulo Tiefenthaler e Tais Araujo é sagaz ao reproduzir os bastidores do vexatório roubo da taça Jules Rimet. Entre fatos e ficção, o realizador mostra irreverência ao utilizar o caótico contexto sócio-político da época em prol da trama, brincando com os nossos estereótipos ao realçar a falta de organização, as bravatas dos políticos e o popular "jeitinho" brasileiro. Embora perca força no momento em que decide reinterpretar a história, O Roubo da Taça é um competente exemplar da comédia nacional, um longa bem escrito, com um entrosado elenco e uma afiada veia cômica genuinamente brasileira.



Com roteiro assinado pelo próprio Caio Ortiz, ao lado de Lusa Silvestre, O Roubo da Taça é acima de tudo um cartunesco relato sobre um período complicado do nosso país. Diante da ditadura, da inflação e de uma série de outros problemas sociais, o futebol era considerado por muitos, incluindo os governantes, o principal instrumento de orgulho nacional. Um produto capaz de desviar a atenção do povo dentro de uma realidade marcada pela desigualdade e a crise econômica. Inserido neste contexto, o longa é perspicaz ao utilizar este episódio para expor o quão bizarra era a nossa situação política, voltando brevemente a sua mira para instituições como a Confederação Brasileira de Futebol, a Policia Civil e o próprio regime militar. Sem querer revelar muito, enquanto o hilário presidente da CBF (Stephan Nercessian, impagável em cena) surge como o símbolo do desleixo e da desorganização estatal, o policial linha dura interpretado pelo excelente Milhem Cortaz traduz com ironia o lado mais hostil da ditadura.


Com personagens positivamente estereotipados em mãos, O Roubo da Taça narra as desventuras do picareta Peralta (Paulo Tiefenthaler), um agente de seguros falastrão que sonhava em se tornar um "cartola" de futebol. Em dívida com um perigoso agiota, o afetado Bispo (Hamilton Vaz Pereira), ele resolve se unir ao confiante Borracha (Danilo Grangheia) para roubar a réplica da taça Jules Rimet. Uma "missão" fácil e aparentemente garantida. Após o bem sucedido furto, porém, os dois são surpreendidos ao perceberem que estavam em posse do troféu original. Na mira da policia e do governo, Peralta decide se "livrar" da taça com urgência, contando com a ajuda da sua querida esposa, a inteligente Dolores (Taís Araújo), para contornar os diversos problemas em torno deste desastrado roubo.


Através de uma envolvente narrativa não linear, O Roubo da Taça é inicialmente inspirado ao introduzir a realidade dos carismáticos protagonistas e os motivos que os levaram a tal situação. Impulsionado pelas impagáveis atuações de Paulo Tiefenthaler, convincente como um desajeitado oportunista, e Tais Araújo, exuberante como o cérebro deste casal, Caito Ortiz esbanja categoria ao realçar o humor por trás deste icônico caso, construindo uma comédia de erros digna dos melhores elogios. Com um irresistível ar de deboche, o realizador arranca sinceras risadas ao reproduzir os percalços dos atrapalhados bandidos, preenchendo a trama com marcantes personagens secundários e uma série de diálogos genuinamente engraçados. Sem apelar para soluções mirabolantes e os populares clichês do gênero, Ortiz é criativo ao rir, por exemplo, da particular interação entre Peralta e Dolores, da perigosa relação do picareta com o exótico Bispo ou então das intransigentes atitudes do investigador Cortez.


Além disso, Caito Ortiz entrega um filme esteticamente bem resolvido, principalmente quando resolve traduzir o desespero do protagonista diante da sua complicada situação. Com cenários caoticamente coloridos e uma atmosfera tipicamente suburbana, o realizador é sagaz ao não só construir o jogo de gato e rato entre ladrão e policial, como também ao explorar o submundo do crime, elementos capturados com vigor pela fotografia quente e avermelhada de Ralph Strelow (Redentor). Na transição do segundo para o último ato, porém, O Roubo da Taça perde grande parte da sua energia diante das opções do roteiro. Decidido a jogar uma nova luz sobre os fatos, Ortiz investe superficialmente num triângulo amoroso envolvendo Peralta, Dolorores e um vendedor de ouro argentino, uma relação insossa que "briga" por espaço com o divertido arco em torno do roubo propriamente dito. O resultado é um clímax apenas regular, um desfecho que peca ao esnobar os ótimos coadjuvantes e a forte veia cômica presente na investigação policial. Sem querer revelar muito, o sumiço do Bispo é inexplicável.



Ainda assim, mesmo diante desta evidente queda de ritmo, O Roubo da Taça desponta como uma espécie de retomada da comédia nacional. Por mais que não tenha a força de títulos do porte de Mundo Cão e Que Horas ela Volta?, o longa cativa ao abraçar um humor mais descompromissado e irreverente, uma pegada "moleque" que remete diretamente à essência do futebol brasileiro.

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