sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Star Wars: Rogue One

A guerra (e a espionagem) nas estrelas

Intenso, sombrio e genuinamente empolgante, Star Wars: Rogue One faz jus ao substantivo bélico que dá título a esta poderosa franquia. No projeto mais autoral da saga desde o aclamado O Império Contra-Ataca (1980), o longa dirigido pelo promissor Gareth Edwards (Godzilla) instiga ao revelar "trabalho sujo" por trás do roubo dos planos da Estrela da Morte, flertando com elementos mais humanos ao introduzir um novo e diversificado grupo de heróis. Mesmo limitado pela baixa classificação etária, o realizador é maduro ao escancarar o ambíguo jogo de espionagem e a violência presente nos bastidores do confronto entre a Aliança Rebelde e as forças do Império, nos fazendo enxergar o doloroso impacto da guerra sob um ponto de vista íntimo e profundo. E isso sem nunca abrir mão do fator entretenimento. Com personagens carismáticos e um roteiro sólido em mãos, Edwards equilibra aventura, drama e humor com rara espontaneidade, permitindo que as fantásticas cenas de ação e os impagáveis alívios cômicos dividam um respeitoso espaço com as emocionantes sequências mais sérias. É quando se volta reverencialmente para os fãs de Star Wars, porém, que Rogue One alcança um patamar único dentro da saga. Mais do que requentar velhos arcos, o 'spin-off' se orgulha em estabelecer uma forte conexão com o universo ao qual pertence e vai além do puro 'fan service' ao resgatar algumas das icônicas criações do cultuado George Lucas. O resultado é memorável, uma película vigorosa que, embora funcione magnificamente como um produto solo, merece ser assistida como parte de um todo, como parte de uma experiência cinematográfica que insiste em não se esgotar.


Com o desafio de apresentar uma gama de novos personagens em apenas uma película, um fato inédito na franquia, a trama assinada pelo quarteto Tony Gilroy, Chris Weitz, John Knoll e Gary Whitta cumpre a sua missão ao introduzir os singulares rebeldes e a complexa dinâmica entre eles. Ainda que se apoiando num drama familiar bem típico dentro do universo Star Wars, o roteiro foge do lugar comum ao trabalhar tanto o desenvolvimento dos traumatizados protagonistas, quanto a construção do elo que os une. Mesmo diante da evidente falta de tempo, Gareth Edwards é cuidadoso ao realçar a ambiguidade dos seus personagens, as suas respectivas diferenças e intenções, permitindo que estas arestas sejam gradativamente aparadas à medida que os laços do grupo passam a ficar mais estreitos. Sem querer revelar muito, o processo de transformação dos principais personagens em nenhum momento soa artificial ou incoerente, principalmente pelo poder de síntese do argumento ao estabelecer os honestos fatos em que as mudanças se sustentam. Melhor ainda, aliás, é a autossuficiência do longa ao se esquivar de alguns dos mais populares arquétipos da saga. Em Rogue One não existe espaço para aventureiros espaciais, heróis altruístas ou Jedis superpoderosos. Inseridos num desolador cenário bélico, os personagens surgem desgastados pelo confronto, descrentes e\ou desconfiados, sentimentos humanos que só acrescentam peso aos seus respectivos arcos. Na verdade, por mais que o foco esteja no trio Jyn, Cassian e K2-SO, cada um dos integrantes da Rogue One consegue imprimir a sua personalidade na tela, o que se torna fundamental para que possamos criar uma sincera empatia por eles.


Com uma trama recheada de ritmo e um roteiro que não se farta de oferecer novas informações, Rogue One acompanha a jornada de Jyn Erso (Felicity Jones). Separada do seu pai, o ex-engenheiro do Império Galen Erso (Mads Mikkelsen), ainda criança, ela viu o lado negro da Força, na figura do ambicioso diretor Krennic (Ben Mendelsohn), a afastar daqueles que mais a amavam. Sozinha, a pequena cresceu sob os cuidados do líder rebelde Saw Gerrera (Forest Whitaker). Não demorou muito, porém, para que ele percebesse que a jovem poderia se tornar um problema junto a causa, já que ela era a filha do homem por trás da construção da temida Estrela da Morte. Abandonada de vez aos 16 anos, Jyn precisou aprender a sobreviver por conta própria, enquanto esperava que o seu pai desse algum sinal de vida. Já desesperançosa, a agora adulta Jyn é resgatada da prisão pelo dúbio Cassian Andor (Diego Luna), um capitão da Aliança Rebelde que decide utiliza-la para se aproximar do recluso Gerrera. Sem ter em que confiar, Jyn decide aceitar o "convite" em troca da sua liberdade. Com a ajuda do devotado Chirrut Îmwe (Donnie Yen), do descrente Baze Malbus (Wen Jiang), do sarcástico robô K2-SO (Alan Tudyk), Jyn e Cassian iniciam uma missão de busca pelo paradeiro do piloto Bodhi Rook (Riz Ahmed), um desertor do império que poderia ter informações preciosas sobre a nova arma do inimigo.  Ela, no entanto, nem suspeitava que Galen logo seria o próximo alvo da Aliança. 


Impecável ao explorar a rixa entre Jyn e Cassian, Gareth Edwards é inicialmente habilidoso ao introduzir o clima de espionagem no universo Star Wars. Sem tempo a perder, ele nos brinda com um primeiro ato distante do restante da franquia, realçando, dentre outras coisas, a ambiguidade moral do enigmático Cassian, os erráticos interesses dos rebeldes, as ardilosas estratégias da Aliança e a complexa posição de Jyn Erso. Apesar de se tratar de uma produção do selo Disney, o diretor inglês não se faz de rogado ao traduzir o lado mais espinhoso por trás desta missão, principalmente quando evidencia as diferenças ideológicas presentes na própria Aliança. Neste contexto, é interessante ver a brecha aberta ao deteriorado grupo liderado por Saw Gerrera, uma figura extrema e atuante que não concorda com a democrática liderança da sábia Mon Mothma (Genevieve O'Reilly). Sob o prisma deste bando, Edwards enfatiza o lado mais sujo da guerra, a deterioração física, emocional e ideológica enfrentada pelos rebeldes ao longo desta guerra civil.


Impulsionado pela calorosa fotografia de Greig Fraser (A Hora mais Escura) e pelo primoroso design de produção e figurino, Gareth Edwards é igualmente criativo ao tornar esta degradação esteticamente nítida aos olhos dos públicos. Os protagonistas, por exemplo, surgem visualmente desgastados, as naves sucateadas e o excepcional robô C2-SO carrega no seu casco os espólios da guerra. Além disso, as batalhas ganham contornos mais sérios e dolorosos. Dando atenção aos intensos embates terrestres, geralmente esnobados pela franquia, o realizador adota uma pegada realística ao acompanhar os violentos combates entre os rebeldes e as tropas do Império, o que só amplia o senso de urgência em torno destes explosivos momentos. Num todo, aliás, as sequências de ação são nervosas, imprevisíveis e nos fazem experimentar o caos em torno do conflito. Vide o magnífico clímax que, devido a afiada montagem, ao impecável senso de simultaneidade do roteiro e ao talento do diretor em explorar as noções de escala, flutua do apoteótico ao dramático com maestria.


Empurrado pelo consistente roteiro, Rogue One também acerta ao introduzir o ambicioso Krennic. Longe de ter a força de um Darth Vader, o antagonista traz consigo um aspecto falho que agrada, um misto de sede de poder e petulância que soa incompatível com o seu status dentro do Império. Nenhum destes predicados, porém, supera o orgulho com que os roteiristas se voltam para o passado (futuro) da franquia. Por mais que o longa traga novos personagens e ganhe um contexto ideológico mais atual, Gareth Edwards é cuidadoso ao se apropriar de alguns dos elementos mais caros aos fãs do universo Star Wars. Quando o assunto é o aspecto visual, por exemplo, o diretor nos brinda com um trabalho magistral. Os cenários são reconhecíveis, a pluralidade de espécies é mantida, os figurinos dos membros da Força e do Império são nostalgicamente recriados e a concepção das variadas naves é primorosa. Sem querer revelar muito, a gigantesca batalha aérea envolvendo Destroyers, Y-Wings, X-Wings e os Tie Fighter é fantástica, de longe um dos momentos mais empolgantes da saga. E como se não bastasse isso, Edwards e a equipe de animação exploram com inspiração os recursos CGI ao reconstruir digitalmente alguns célebres personagens. Obviamente, não posso revelar quais são, mas o resultado espanta independente das ainda evidentes limitações técnicas. As referências, no entanto, vão bem além do puro 'fan service'. Fiel ao cânone da trilogia original, Edwards faz um arrepiante uso da Força, que, aqui, ganha uma conotação quase religiosa, dando ao arco da dupla Chirrut e Malbus um peso que eu sinceramente não esperava ver nesta nova fase. Somado a isso, o argumento brilha ao criar uma engenhosa conexão entre Rogue One e Uma Nova Esperança (1977), culminando numa sequência final catártica, uma daquelas cenas capazes de nos fazer relevar os pequenos deslizes da trama.


Rogue One traz ainda um elenco diversificado e totalmente entrosado em cena. Com a responsabilidade de assumir um importante papel neste 'spin-off', a adorável Felicity Jones cria uma protagonista autoral e marcante. Por mais que não tenha a energia da carismática Princesa Leia (Carrie Fisher) ou a aura 'bad-ass' da indomável Rey (Daisy Ridley), a desiludida Jyn se torna uma espécie de símbolo de esperança, um belo contraponto dentro deste ambiente desolador. Apesar da sua aptidão nas sequências mais físicas, Jones cria uma personagem dócil e persuasiva, uma líder humana que se desvia dos clichês vingativos ao virar o elo do grupo de rebeldes. Além disso, mesmo requentado, o arco envolvendo Jyn e o seu pai é fundamental para o rumo da trama, potencializado pela intensa presença do talentoso Mads Mikkelsen. Assim como Felicity Jones, o mexicano Diego Luna instiga ao adicionar uma pitada de ambiguidade ao seu Cassian, um homem devoto à causa rebelde que vê a sua crença cega abalada pela presença de Jyn. Através da relação entre os dois protagonistas, inclusive, o argumento é perspicaz ao expor as falhas e trapalhadas da Aliança Rebelde, um elemento pouco explorado ao longo da heptalogia. Os dois grandes ladrões de cena, porém, são Alan Tudik e Donnie Yen. Na pele de um robô sarcástico e resmungão, Tudik não só protagoniza os melhores alívios cômicos do roteiro, como também entrega um dos melhores personagens da película. Já Yen surpreende ao interpretar um tipo complexo e sábio, um cego perito em artes marciais que se recusa em aceitar a não existência da Força. É dele, inclusive, o momento mais emocionante da película. Por fim, enquanto Ben Mendelsohn mostra categoria ao capturar a aura ardilosa de Krennic, o versátil Forest Whitaker flutua da insanidade à lucidez com o interessante Saw Gerrera. 


Indo da descrença à esperança com extrema sensibilidade, Star Wars: Rogue One é um filmaço, um longa capaz de emocionar, divertir e empolgar com espantosa naturalidade. Fazendo um excelente uso da arrebatadora trilha sonora de Michael Giacchino e do memorável 3-D, Gareth Edwards constrói um blockbuster visualmente extraordinário, uma experiência singular de grandes proporções que revisita o vasto universo idealizado por George Lucas com ousadia e personalidade própria. Isso, logicamente, sem esquecer de citar a extraordinária aparição do icônico Darth Vader, que, em um par de cenas, causa um frio na espinha digno das suas melhores aparições na franquia.

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