segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Perfeita é a Mãe

Uma divertida sátira sobre a idealização da figura materna

Uma das comédias mais lucrativas de 2016, Perfeita é a Mãe está longe de ser o filme mais engraçado do ano, mas tem os seus momentos. De volta aos holofotes após roteirizar o popular Se Beber, Não Case (2009), a dupla John Lucas e Scott Moore deixa de lado o público masculino ao construir uma divertida sátira sobre a exigente rotina materna. Sem qualquer tipo de pudor, os diretores escancaram não só os anseios destas multi-atarefadas mulheres, como também a exagerada responsabilidade atribuida a elas após o parto, transformando a carismática Mila Kunis numa espécie de símbolo de resistência contra esta idealizada realidade. Apesar da abordagem propositalmente exagerada, o argumento é suficientemente humano ao transitar por temas universais, entre eles o divórcio, a infidelidade e a desigualdade de gênero, elevando o nível de uma trama que poderia facilmente cair no esquecimento. 



Com roteiro também assinado pela dupla de diretores, Perfeita é a Mãe se equilibra entre soluções originais e alguns dos mais enraizados clichês do gênero. Impecável ao explorar a inusitada dinâmica entre as "insurgentes" protagonistas, o longa acompanha a jornada da moderna Amy (Kunis), uma daquelas mães multitarefas. Além de cuidar dos seus dois superprotegidos filhos, a precoce Jane (Oona Laurence, olho nesta talentosa pequena atriz) e o acomodado Dylan (Emjay Anthony), ela cozinhava, participava das reuniões escolares e era uma das funcionárias mais importantes de uma descolada empresa de café. A sua exigente rotina, porém, sai de vez dos trilhos no momento em que ela decide expulsar o seu marido de casa após ser vítima de uma traição. Cansada de ser o pilar desta família, Amy decide se erguer contra exploradora rotina, se unindo a desbocada Carla (Kathryn Hahn) e a reprimida Kiki (Kristen Bell) para curtirem a vida como elas mereciam. Os seus "liberais" novos atos, no entanto, logo chamam a atenção da detestável Gwendolyn (Christina Applegate), uma mulher indulgente que liderava com mãos de ferro a associação de mães do colégio que os filhos de Amy estudavam. 


Um besteirol com conteúdo, Perfeita é a Mãe cativa ao propor uma bem vinda sátira envolvendo a figura da mulher neste conservador contexto. Mesmo escrito por dois homens, o argumento é sagaz ao se apropriar de três dos mais enraizados estereótipos maternos, o da mãe independente, o da mãe disfuncional e o da mãe reprimida, os utilizando com irreverência ao longo do envolvente primeiro ato. Mais do que simplesmente introduzir o impagável trio de protagonistas, John Lucas e Scott Moore oferecem o suficiente para que o público possa criar uma sincera conexão com as personagens, arrancando generosas risadas ao explorar tanto as inusitadas diferenças entre elas, quanto a explosão do trio diante da sufocante pressão exercida pelo ambiente idealizado que as cerca. Por mais que esta crítica ganhe corpo numa realidade obviamente exagerada e superficial, é interessante ver o cuidado dos realizadores ao passear com ironia por alguns dilemas extremamente universais. Por trás das piadas sobre pênis circuncidados, sutiãs nada sexys e a infeliz rotina destas mães, o roteiro esconde uma inesperada dose de maturidade ao falar sobre o impacto do divórcio, a acomodação da vida de casado e a questão da igualdade de gênero. 


Em contrapartida, o humor é colocado desastradamente em segundo plano no momento que a trama estabelece estes conflitos mais íntimos. Na ânsia de desenvolver o pano de fundo mais questionador, John Lucas e Scott Moore se rendem a um genérico sentimentalismo familiar, o que fica evidente com a chegada do adocicado último ato. Inicialmente ácidas e sexualizadas, as versáteis gags perdem a ousadia, a cartunesca rixa com a pedante Gwendolyn se torna irrelevante e o longa como um todo perde ritmo. Ainda assim, mesmo excessivamente "bonitinho", o desfecho é condizente com a proposta libertadora do longa. Além disso, esbanjando química em cena, o trio Mila Kunis, Kathryn Hahn e Kristen Bell não deixa a peteca cair e segura as rédeas da trama mesmo nos trechos mais frouxos. Enquanto Kunis se esforça para traduzir o humor físico da sua Amy, Hahn e Bell arrancam risadas mais naturais com as suas respectivas personagens, a sexualizada Carla e a deslocada Kiki. Esta última, inclusive, rouba a cena e protagoniza algumas das melhores piadas do longa. Sem querer revelar muito, a sequência em que Carla e Kiki tentan esclarecer uma dúvida sobre a anatomia masculina é hilária, muito em função da presença de espírito de Kristen Bell. Num todo, porém, Lucas e Moore investem numa direção pouco memorável, um trabalho regular incrementado pelas divertidas sequências em câmera lenta, pelos (geralmente) afiados diálogos e pela antenada trilha sonora pop. 


Mais interessante do que propriamente engraçada, Perfeita é a Mãe é uma sátira atrevida que funciona. Entre altos e baixos, John Lucas e Scott Moore levantam, à sua maneira, uma bem vinda bandeira em prol da igualdade de gênero, encontrando neste irreverente ponto de vista materno os ingredientes necessários para tecer uma descompromissada crítica envolvendo o papel da mulher dentro da nossa sociedade. 

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