quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A Juventude

A velhice enquanto estado de espírito

Um daqueles projetos que exigem do seu público o tal "gosto adquirido", A Juventude é um relato poético e de extrema beleza sobre a complexa missão que é envelhecer. Assim como no seu último grande trabalho, o extraordinário A Grande Beleza (2014), o reflexivo diretor Paolo Sorretino encara a velhice como um estado de espírito ao reproduzir a melancólica rotina de um grupo de idosos em um paradisíaco spa. Numa opção propositalmente contraditória, o realizador italiano utiliza este particular ponto de vista ao arquitetar uma afiada crítica direcionada às novas gerações, um relato precioso e humano sobre a maneira com que lidamos com os nossos sentimentos. Através de diálogos sinceros e sequências recheadas de simbolismo, Sorretino nos presenteia com instigantes personagens, personas multidimensionais que enchem a tela de energia e cinismo ao falar, dentre outras coisas, sobre o amor, as memórias, a decadência, os intelectuais e as extravagâncias do meio artístico. Em alguns momentos, porém, Sorrentino se embebeda da sua própria poesia visual e esbarra num pretensiosismo errático que reduz o senso de universalidade da película. Por outro lado, capitaneado pelo intenso Michael Caine, o elenco sintetiza as emoções presentes no longa com extraordinária simplicidade, impedindo que a trama recaia no intelectualismo barato que os protagonistas parecem tanto repudiar.



Com roteiro assinado pelo próprio Paolo Sorrentino, A Juventude acompanha a apática rotina de Fred Ballinger (Michael Caine), um maestro respeitado e aposentado que decidiu tirar uma temporada de férias num luxuoso spa suíço. Ao contrário do seu fiel amigo Mick Boye (Harvey Keitel), um veterano diretor que resolveu aproveitar o ambiente paradisíaco para terminar o script do seu mais novo filme, o ex-músico já não encarava a sua vida com o mesmo vigor, com a mesma paixão. Os sentimentos, segundo ele, eram considerados supérfluos. Nem mesmo um repentino convite da Rainha da Inglaterra parecia seduzi-lo mais. A sua contemplativa rotina, porém, é "atrapalhada" pela chegada da sua filha e assistente Lena (Rachel Weisz), uma mulher de meia idade abalada com a notícia que o seu marido (Ed Stoppard) iria troca-la por uma extravagante cantora pop (Paloma Faith). Ao perceber os dilemas da sua herdeira, Fred passa a refletir sobre o seu passado, erros e frustrações, encontrando no convívio com os demais hóspedes deste resort, entre eles uma estrela de Hollywood blasé (Paul Dano, excelente), um ex-jogador fisicamente deteriorado (Roly Serrano) e uma solitária massagista (Luna Zimic Mijovic), o incentivo necessário para repensar o rumo da sua existência.


Com personagens tão ricos em mãos, Paolo Sorrentino é impecável ao estabelecer os dilemas de Fred e Mike. Enquanto o primeiro, desgostoso com a sua vida, resolveu aceitar a apaticamente a sua velhice, o segundo, um entusiasta das suas emoções, trabalhava ativamente na produção do seu filme testamento, a obra que iria redimir a sua carreira. A partir destes cativantes protagonistas, o realizador brilha ao discorrer sobre a terceira idade, sobre o envelhecimento, realçando a decadência, a frustração e o peso das memórias sob um ponto de vista poético e melancólico. Assim como em A Grande Beleza, Sorretino fala com sensibilidade através das suas imagens, utilizando o luxuoso cenário como uma ferramenta de contrastes. Num ritmo suave e naturalista, o diretor nos faz enxergar o vazio da rotina dos hóspedes, o excesso de tempo e a ausência de espontaneidade. Com preciosos enquadramentos e um excepcional trabalho na composição de cenas, Sorrentino utiliza os coadjuvantes como uma espécie de moldura para a sua obra de arte, como elementos simbólicos que só acrescentam peso a algumas das sequências. Melhor ainda, aliás, é a forma elegante com que ele explora o recurso da nudez. Sem um pingo de pudor, o diretor utiliza a natureza física para realçar os contrastes, brincar com os dualismos presentes na trama, um recurso estético que, potencializado pela exuberante fotografia bucólica de Luca Bigazzi, adiciona um irresistível ar pitoresco ao longa.


O mais legal, porém, é a sagacidade do roteiro ao tratar a velhice\juventude como um estado do espírito. Após estabelecer os anseios e desilusões da dupla de protagonistas no envolvente primeiro ato, Paolo Sorrentino adiciona uma dose de cinismo à trama ao mostrar que não é preciso estar na terceira idade para experimentar os complexos sentimentos de Fred e Mick. Numa sacada de mestre, o argumento utiliza o arco dos personagens mais jovens como um interessante contraponto, um instrumento para que possamos entender os motivos que levaram os veteranos artistas às suas respectivas situações. Da crise matrimonial da insegura Lena, por exemplo, nasce um interessante paralelo com o passado do maestro e a sua problemática relação com a sua esposa. Através deles, Sorrentino aponta a sua mira não só para o comportamento errático dos mais jovens, como também para alguns dos conflitos mais íntimos dos protagonistas, a maioria deles envolvendo temas como o amor, a amizade, a solidão e a traição. Além disso, o realizador é igualmente perspicaz ao capturar a expressão geralmente confusa das figuras mais jovens do elenco, utilizando a sua câmera sempre atenta para realçar, dentre outras coisas, o olhar de desejo de uma solitária massagista, as feições gélidas de uma "descartável" garota de programa ou o semblante pálido dos apáticos funcionários.



E os questionamentos não param por ai. É quando se volta para os bastidores de Hollywood, inclusive, que o roteiro constrói a sua crítica mais contundente. Além de expor a frivolidade, o intelectualismo e a vaidade do meio artístico, Paolo Sorrentino escancara a queda de prestígio e o jogo de influências nos bastidores da indústria do Cinema, um tema atraente que ganha contornos impactantes com a entrada da personagem interpretada pela incrível Jane Fonda. Num todo, aliás, os conflitos entre os antagônicos protagonistas são bem desenvolvidos, construídos com base em diálogos francos e memoráveis. Sem querer revelar muito, a explanação sobre a velhice defendida por Mick é excepcional, tal qual o incisivo monólogo protagonizado por uma reprimida Rachel Weisz. No meio do caminho, no entanto, o diretor italiano pesa a mão ao investir nos presunçosos takes metafóricos. Embora flerte com o genial em alguns momentos, vide a epifania cinematográfica de Mick, Sorrentino esvazia parte dos arcos secundários em prol destas soluções esteticamente refinadas, mas vagas e pretensiosas. Ainda que divirtam inicialmente, os interlúdios envolvendo um ex-jogador argentino, numa clara alusão ao astro Diego Maradona, soam repetitivos e desconexos da realidade, assim como a pequena passagem sobre um monge budista. Menos mal que, mesmo diante dos altos e baixos do frouxo último ato, o realizador mostra inspiração ao arrematar a jornada de Fred e Mick, num clímax profundo e coerente com o comedimento emocional defendido pela película.


Contando ainda com algumas surpreendentes personagens de apoio, entre elas a sagaz Miss Universo interpretada pela estonteante modelo Madalina Diana Ghenea e a exótica estrela pop vivida pela cantora Paloma Faith, A Juventude esconde na sua aparente complexidade um relato simples sobre a maneira com que andamos encarando as nossas vidas. Embalado pela provocante trilha sonora de David Lang, Paolo Sorrentino utiliza o vazio para questionar o vazio, numa obra irônica que traz em sua essência uma mensagem delicada e inteligente. O resultado é um drama existencial que, apesar do ritmo claudicante e do inegável pretensiosismo, encontra na entrosada relação de amizade protagonizada pelos excelentes Michael Caine e Harvey Keitel a maturidade necessária para refletir sobre os inúmeros temas levantados ao longo da película. 


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