segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Do Fundo do Baú (O Trem)

Numa época em que para se tirar uma grande produção do papel era necessário um árduo trabalho cênico, engenhosidade técnica e uma considerável dose de coragem, John Frankenheimer testou os limites da velha Hollywood no grandioso O Trem (1964). Convocado às pressas para substituir o antigo comandante do longa, o importante Arthur Penn (Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas), o diretor norte-americano resolveu fazer do seu jeito, exigiu o corte final do filme, um novo roteiro, um orçamento dobrado, o seu nome no título original e uma Ferrari como pagamento. Mesmo diante dos inúmeros obstáculos, as locações na Normandia logo se tornaram um agente complicador, Frankenheimer resolveu prezar pelo realismo, pelo virtuosismo estético e pela imponência da ação ao construir um épico de guerra de proporções ainda hoje espantosas. Fazendo um magnífico uso dos elementos práticos, entre eles as gigantescas locomotivas e os velozes caças, o realizador nos brinda com sequências de tirar o fôlego, capturadas com brilhantismo através dos seus expressivos enquadramentos e dos seus inventivos takes aéreos. Por trás de tamanho preciosismo técnico, porém, existe uma trama sólida e contundente, uma jornada de obsessão e dor protagonizada pelos excelentes Burt Lancaster e Paul Scofield.



Baseado no conto Le Front De L'Art, de Rose Valland, o roteiro de Franklin Coen e Frank Davis volta à Segunda Guerra para narrar a perigosa ação de um grupo de rebeldes que se ergueram contra os alemães na tentativa de impedir que clássicas pinturas fossem "sequestradas" pelos nazistas. Apesar do foco estar na ação propriamente dita, o argumento é impecável ao expor as incoerências por trás destas missões, se esquivando dos clichês altruístas ao enfatizar os perigos enfrentados pelos franceses durante este doloroso período. Ainda que a marcante trilha sonora de Maurice Jarre (Lawrence da Arábia) dê acordes heroicos ao longa, Frankenheimer não poupa o espectador ao revelar as trágicas consequências em torno dos atos dos sabotadores, colocando o dedo na ferida ao questionar o quão válido era o sacrifício de inocentes diante de um objetivo aparentemente tão supérfluo. 


Na trama, ciente da iminente invasão dos Aliados, o coronel Von Waldheim (Scofield) reúne a sua inestimável coleção de quadros e decide mandá-los para Alemanha num trem. Apaixonado pelas artes, ele usa o seu poder de influência e convence o seu superior a liberar uma viagem em meio à caótica fuga da França. O oficial da SS, porém, não contava que o seu caminho fosse cruzar com o do íntegro Labiche (Lancaster), um inspetor do sistema férreo ligado à resistência. Após uma série de missões quase suicidas, o esgotado homem é pego de surpresa quando o líder da resistência (Paul Bonifas) sugere que o fragilizado grupo impedisse que o trem com as obras de arte deixasse a França. Inicialmente errático quanto ao objetivo, Labiche se vê obrigado a entrar na missão após uma dura perda, criando uma nociva rixa com o gélido alemão.


Apesar da enxuta quantidade de diálogos, O Trem é inesperadamente profundo ao construir o obcecado duelo entre os multidimensionais Von Waldheim e Labiche. Reconhecido pelos seus trabalhos mais voltados para o cinema de ação, John Frankenheimer esbanja inspiração ao explorar o gradativo clima de tensão envolvendo a missão dos resistentes, criando uma polarização que só potencializa o suspense em torno do jogo de gato e rato férreo idealizado pelo roteiro. Mesmo em lados opostos, os dois compartilham de sentimentos semelhantes,  um misto de integridade, vaidade e obsessão, ingredientes que são habilmente trabalhados até o corajoso clímax. Somado a isso, Frankenheimer mostra inspiração ao traduzir o estado de espírito dos personagens através dos seus refinados enquadramentos, fazendo um excelente uso dos primeiros planos ao realçar a expressão dos personagens e as transformações impostas por esta devastadora rixa. 


Neste sentido, aliás, é preciso elogiar também as primorosas atuações da dupla Burt Lancaster e Paul Scofield. Longe do perfil heroico, o primeiro cria um rebelde errático, um homem abalado que é “empurrado” para uma nova missão pelos seus parceiros de resistência. Responsável pelas principais mudanças na produção do longa, Lancaster exigiu que a produção ganhasse ares mais grandiosos, indo de encontro a proposta intimista defendida por Arthur Penn, o que se revelou um acerto inquestionável. Com um tipo ainda mais complexo em mãos, Paul Scofield mostra comedimento ao criar um antagonista vil e singular. Uma figura imponente e ameaçadora que expõe as suas fragilidades à medida que se vê desafiado por um rival à sua altura. Ainda sobre o elenco, enquanto Jeanne Moreau ganha um merecido destaque com a destemida Christine, a dupla Michel Simon e Albert Rémy adiciona uma dose de energia ao abraçar a bravura dos sabotadores Papa Boule e Didont.


O grande diferencial de O Trem, no entanto, reside no seu apuro estético e na verossimilhança defendida pelo longa. Apoiado pela estilosa fotografia em preto e branco da dupla Jean Tournier e Walter Wottitz, impecável ao trabalhar com a luz e as sombras nos iluminados takes noturnos, John Frankenheimer é inicialmente primoroso ao utilizar as surradas paisagens da Normandia. Numa proposta completamente à frente do seu tempo, o realizador norte-americano esbanjou virtuosismo técnico ao investir tanto em extraordinárias tomadas aéreas, quanto em expansivos planos conjuntos, permitindo que o espectador enxergue o todo em torno das grandiosas sequências de ação. A cena em que Lancaster atinge o topo de uma montanha é fantástica e sintetiza a obstinação do personagem em torno dos seus objetivos. Melhor ainda, aliás, é a sagacidade do realizador ao utilizar os cenários reais. Com o aval das autoridades e dos especialistas franceses, Frankenheimer usou explosivo para dinamitar uma antiga instalação férrea, o que explica o espantoso senso de realismo em torno deste momento. O que falar, então, da incrível cena de perseguição envolvendo um caça e uma locomotiva, um daqueles takes sufocantes que só um mestre na arte do CGI é capaz de recriar nos dias de hoje. Na verdade, ao utilizar elementos práticos, incluindo trens e aviões, Frankenheimer adiciona um inestimável peso às explosivas cenas de ação. Num todo, aliás, o diretor é cuidadoso ao reproduzir o 'modus operandi' dos maquinistas, dando uma bem vinda ênfase a situações aparentemente sem grande importância, entre elas a simples construção de uma peça ou a reconstrução de um trilho destruído.


Contando ainda com uma envolvente montagem, impecável ao arquitetar o suspense em torno da perseguição, e com uma detalhista direção de arte, os uniformes e as construções só ampliam o senso de imersão do longa, O Trem é um épico de guerra poderoso que alia narrativa e visual numa experiência absolutamente única. Com coragem para oferecer aquilo que o recente Caçadores de Obras-Primas (2014) não conseguiu, John Frankenheimer se esquiva dos clichês artísticos ao defender a vida e ao destacar a incoerência por trás da derradeira missão deste grupo de rebeldes. 

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