quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cinemaniac Indica (Dhanak)

Como é bom poder ter acesso à diferentes culturas, a filmes realizados do outro lado do mundo, com apenas um clique no mouse. Sentar no meu sofá numa noite de sábado aparentemente insossa e me surpreender com uma singela e cativante produção de "Bollywood", a Hollywood da Índia. Doce, sincero e absolutamente fraterno, Dhanak é um sopro de luz no concorrido e globalizado mercado cinematográfico atual. No embalo do adorável casal de protagonistas mirim, o longa dirigido por Nagesh Kukunoor (Laços) se revela um 'road trip' leve e otimista, uma película marcada pela estupenda fotografia, pela inebriante trilha sonora e pela explosão de cores com que descortina os singulares costumes indianos.



Com simplicidade, ternura e um afiado senso de humor, o argumento assinado pelo próprio Nagesh Kukunoor é encantador ao acompanhar a obstinada jornada dos órfãos Chotu (Krrish Chhabria) e Pari (Hetal Gada). Sob os cuidados dos tios após a morte dos seus pais, a responsável irmã mais velha se viu com a obrigação de cuidar do espevitado caçula, principalmente após a repentina cegueira dele. Apaixonados pelo mundo do cinema, os dois enfrentavam as barreiras impostas pela deficiência com alto astral e companheirismo. Tudo muda, porém, quando a ranzinza tia resolve colocar Pari para trabalhar na lavoura, a distanciando da rotina escolar e por consequência do seu querido irmão. Disposta a mudar este panorama e cumprir uma velha promessa de infância, ela decide fugir de casa ao lado de Chotu para encontrar o astro Shah Rukh Khan, uma engajada estrela de ‘Bollywood’ que tinha condições de custear o tratamento do menino. Movidos pela coragem e pela esperança, os dois colocam o pé na estrada e iniciam uma desgastante viagem pelo deserto indiano à procura da ajuda que mudar as suas respectivas vidas de uma vez por todas. 


Mais do que uma otimista comédia musical, Dhanak fascina ao se revelar uma sensível e verdadeira ode ao amor. Sem nunca parecer piegas, o diretor Nagesh Kukunoor abraça a atmosfera 'feel good' ao realçar não só a comovente relação fraternal entre os irmãos, como também o amor dos órfãos pelo cinema, pelas amizades construídas ao longo da viagem e pelos próprios costumes indianos. Fazendo um excelente uso dos elementos mais culturais, entre eles a explosão de cores, a apetitosa culinária e os ricos figurinos, o realizador é habilidoso ao utilizar este cenário lúdico em prol do desenvolvimento dos dois protagonistas, permitindo que o público crie uma sincera conexão com eles ao desvendar os seus mais íntimos medos e frustrações. Bastam duas ou três cenas para o espectador enxergar o forte companheirismo entre os dois personagens, o que se torna decisivo para o excelente andamento da película. Não se engane, porém, com a aparência melosa do longa. Impulsionado pela naturalidade do texto, Kukunoor arranca sinceras risadas ao reproduzir as tradicionais birras entre os irmãos, se esquivando do coitadismo ao brincar, até mesmo, com deficiência visual de Chotu e com o seu divertido temperamento irritadiço.


Além disso, o realizador é igualmente cuidadoso ao introduzir o carismático elenco de apoio. No melhor estilo 'road movie', os marcantes personagens secundários surgem em cena para adicionar mais ritmo e substância à trama, cruzando o caminho dos irmãos de forma harmoniosa e totalmente coerente com a proposta do argumento. Sem querer revelar muito, o nível de afeto mostrado numa vibrante festa de casamento é contagiante, assim como na silenciosa passagem envolvendo um motorista nada convencional. Melhor ainda, aliás, é a criatividade de Nagesh Kukunoor ao enfatizar a ameaça em torno dos jovens. Numa sacada perspicaz, o diretor indiano opta por associar o perigo a elementos mais urbanos, se distanciando da estética fabulesca ao mostrar os riscos da vida moderna. O que mais me chamou a atenção, porém, é o elevado nível técnico desta produção 'bollywoodiana'. Como se não bastasse a fascinante trilha sonora, que embala a trajetória dos irmãos com energia e sensibilidade, o longa nos brinda com uma radiante fotografia desértica, um trabalho virtuoso capaz de absorver os contrastes, as cores e a grandiosidade das paisagens com extremo refinamento. Por diversas vezes, inclusive, me peguei impressionado pelos expressivos enquadramentos de Kukunoor, um exercício estético digno de qualquer grande película hollywoodiana.


Guiado com destreza pelos cativantes Krrish Chhabria e Hetal Gada, que, em duas performances genuinamente infantis, traduzem com naturalidade o misto de ingenuidade, empolgação e receio dos seus personagens, Dhanak é uma pérola singela que merece ser descoberta. Um filme apaixonante que, numa análise primária, conquista ao tecer um cativante relato sobre o amor entre dois irmãos. Quando analisado sob um prisma mais amplo, porém, é possível perceber também que o longa promove uma preciosa exaltação ao mundo mágico do cinema, reverenciado em sua mais pura essência a partir da fértil imaginação infantil.

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