terça-feira, 13 de setembro de 2016

Do Fundo do Baú (Glória Feita de Sangue)

Com o seu reconhecido cinismo, o cultuado Stanley Kubrick levanta uma poderosa bandeira contra a guerra no primoroso Glória Feita de Sangue. Antes de brilhar com os clássicos Spartacus, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Nascido para Matar, o realizador norte-americano realça as incoerências por trás de um conflito bélico ao escancarar os contrastes entre os soldados e os seus superiores. Com Kirk Douglas numa das atuações mais marcantes de sua laureada carreira, Kubrick subverte os longas do gênero ao reduzir a escala do confronto em prol de uma premissa revoltante, contextualizada e absolutamente crítica. 


Apesar dos enxutos noventa minutos de película, Glória Feita de Sangue (que título bem traduzido!) é profundo ao revelar qual é o peso de uma vida nas mãos dos vaidosos e inescrupulosos comandantes de guerra. Inspirado no livro 'Paths of Glory', do escritor Humphrey Cobb, o argumento assinado por Stanley Kubrick, Calder Willingham e Jim Thompson retorna a Primeira Guerra Mundial para acompanhar as desventuras do coronel Dax (Douglas), um oficial respeitoso que liderava o front francês com afinco e bravura. No ápice do confronto, no entanto, este militar é escolhido para liderar uma missão quase suicida contra um destacamento alemão, uma incursão idealizada pelo egocêntrico General Mireau (Adolphe Menjou). Com o insucesso deste confronto, o oficial resolve transformar este episódio num exemplo para toda a tropa e indicia três soldados à pena de morte por covardia no campo de batalha. Indignado com a situação, Dax resolve assumir as rédeas desta batalha judicial, expondo a revoltante realidade por trás deste episódio.


Inicialmente, Glória feita de Sangue parece seguir um rumo mais tradicional dentro do gênero. Ainda que os contrastes entre a guerra encarada no campo e a batalha disputada nos suntuosos quartéis generais sejam evidenciados com maior originalidade, Kubrick expõe a desoladora realidade dos soldados de maneira crua e visceral, investindo num primeiro ato mais sujo e convencional. À medida que o filme deixa as trincheiras e invade o tribunal, no entanto, o longa ganha em intensidade e contexto. Ao reduzir a escala do confronto, Kubrick mostra a sua reconhecida genialidade ao não só escancarar o inescrupuloso jogo de poder liderado pelos generais, como também ao valorizar o peso de uma morte, a dor da injustiça, criando uma linha narrativa mais íntima, profunda e absolutamente crítica.

Símbolo máximo de bravura, o coronel Dax surge em cena para representar o ideal militar, um personagem talhado para expor a vaidade, a hipocrisia e os reais interesses por trás dos conflitos de grande porte. Do alto da sua acidez, Kubrick nos brinda com diálogos absolutamente cínicos, encontrando na rigidez moral do protagonista a tenacidade necessária para construir sequências poderosas e naturalmente revoltantes. Não se engane, porém, com o aparente amargor da película. Quando tudo parecia caminhar para um desfecho desolador, o aclamado diretor surpreende ao investir numa cena final doce e sensível, um arremate que corta o coração ao mostrar que por trás dos números existem homens e que eles são bem mais dignos do que àqueles que os comandam.


Se narrativamente o filme é impecável, esteticamente Stanley Kubrick já dava indícios do seu virtuosismo estético. Mesmo num projeto pequeno, o diretor constrói uma sequência de guerra absolutamente memorável, colocando a sua câmera no "olho do furacão" ao acompanhar a fatídica incursão dos militares franceses. Num movimento de câmera lateral, o popular ‘traveling’, Kubrick cria uma cena memorável, impulsionada pelos incômodos efeitos sonoros e pela vigorosa atuação de Kirk Douglas. Melhor ainda, aliás, são as cenas nas trincheiras. Na melhor delas, o realizador investe num fantástico plano sequência, acompanhando o bizarro contato do General Mireau com os combalidos soldados franceses. Já nas cenas nos casarões dos oficiais, Kubrick faz questão de ressaltar a grandiosidade, o conforto e o distanciamento da realidade em que eles deveriam estar inseridos, criando uma série de contrastes potencializados pela incrível fotografia em preto e branco de Georg Krause. Sem querer revelar muito, a maneira como a dupla captura a luz natural na sequência da confissão é magnífica, um exemplo do apuro estético desta película.


Contando também com um talentoso elenco de apoio, capitaneado por Adolphe Menjou, George Macready e Wayne Morris, Glória Feita de Sangue é uma pérola antibélica que não merece ser esquecida. Apesar do contexto histórico, Stanley Kubrick apresenta uma obra à frente do seu tempo, um relato crítico que se mostra ainda hoje relevante e atual.

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