sexta-feira, 1 de julho de 2016

Procurando Dory

Uma aposta segura e cativante

Nadando em águas bem mais tranquilas, Procurando Dory cativa ao resgatar alguns dos principais elementos que consagram o popular primeiro longa. Novamente dirigida por Andrew Stanton (Procurando Nemo, Wall-E), a animação se revela uma aventura doce, tocante e bem humorada, uma continuação à altura do original no que diz respeito aos carismáticos personagens, ao fascinante cenário marítimo e ao visual absolutamente primoroso. Apesar da proposta narrativa mais segura, a nova aposta da Pixar se esquiva das fórmulas fáceis ao voltar os seus holofotes para a esquecida Dory, encontrando na sua incomoda deficiência o fator humano que geralmente diferenciam as produções deste aclamado estúdio. Em outras palavras, ao dar a esta adorável peixinha um merecido protagonismo, Stanton transforma esta inofensiva sequência numa revigorante e familiar jornada de autoafirmação. 


Numa análise mais superficial, Procurando Dory segue basicamente a estrutura narrativa do seu antecessor. Assim como no original, temos novamente um personagem perdido, a busca pelo ente querido, uma aventureira jornada de superação e uma série de expressivos coadjuvantes. Em suma, uma proposta simples e eficaz. Quando olhamos sob um ponto de vista mais aprofundado, no entanto, percebemos que o argumento assinado pelo próprio Andrew Stanton, ao lado de Victoria Strouse, revela uma série de novidades. Ao contrário do primeiro longa, um 'road movie' subaquático recheado de pequenas descobertas, a continuação se passa em sua maioria num cenário mais específico, o Centro de Reabilitação da Vida Marinha. Além disso, ainda que figuras como Marlin e Nemo tenham uma evidente importância dentro da trama, o argumento opta por um estudo de personagem mais individual, uma abordagem centrada nos dilemas enfrentados pela otimista Dory. Neste sentido, aliás, é interessante ver como o roteiro sugere também uma ligeira inversão de papéis em relação ao original, já que nesta continuação é a filha que precisa encarar o mar aberto à procura dos seus pais. 


Em meio às significativas mudanças, Andrew Stanton é habilidoso ao introduzir a aventura "solo" de Dory. Antes mesmo dos créditos iniciais, o realizador não só situa o público no que diz respeito a origem da personagem, como também cria uma conexão com os episódios do longa anterior, atraindo instantaneamente a atenção do espectador para as crises de amnésia da peixinha. Mesmo mantendo o seu reconhecido bom humor e otimismo, Stanton impede que a deficiência da protagonista se torne um mero alívio cômico, realçando de maneira mais tristonha o impacto desta dolorosa doença na sua rotina. Impecável ao nos aproximar dos dilemas de Dory, o roteiro esbanja sensibilidade ao desenvolver a sua jornada, permitindo que a personagem ganhe nuances mais complexas a partir do momento em que se vê obrigada a enfrentar sozinha as suas próprias limitações. Deste arco, inclusive, nasce uma oportuna mensagem de confiança envolvendo os portadores de problemas físicos e\ou mentais, uma lição que atesta o lema "continue a nadar". Melhor ainda, porém, é a maneira com que Stanton acompanha a obstinada busca da peixinha pelos seus pais. Fazendo um excelente uso do recurso do flashback, talvez o grande diferencial narrativo desta continuação, o diretor costura passado e presente com absoluto equilíbrio, utilizando os lampejos de memória da personagem com naturalidade e inteligência. Sem querer revelar muito, a partir destas repentinas lembranças Dory passa a redescobrir a sua própria história, o que dá completo sentido ao título do filme. 


Nos momentos em que poderia cruzar a barreira da genialidade, no entanto, Procurando Dory prefere seguir um caminho mais seguro. Num dos pontos altos do longa, por exemplo, Andrew Santon surpreende ao investir numa dramática reviravolta, colocando a protagonista numa situação angustiante e desoladora. Não demora muito, porém, para o roteiro se render a uma solução tenra, familiar e pouco ambiciosa, preparando o terreno para o escapista do último ato. Somado a isso, na ânsia de se aprofundar nos conflitos da adorável Dory, o argumento encontra dificuldades para dar importância aos demais personagens. Por mais que a superprotetora relação entre Marlin e Nemo siga cativando, a dupla de peixinhos protagoniza uma subtrama ingênua e requentada, um arco que funciona graças ao humor afiado do pai e ao inesgotável carisma do pequeno filho. Assim como os dois, aliás, os novos coadjuvantes são divertidos, agradáveis, mas dependem excessivamente da protagonista para brilhar. Desta forma, enquanto a baleia Destiny se torna uma peça chave para algumas das sequências mais aceleradas, o beluga Bailey rouba a cena com o seu jeitão temeroso e pouco confiante. Por outro lado, único personagem à altura de Dory, o fantástico polvo Hank se revela um dos grandes acertos desta continuação. Ranzinza e fujão, o octópode protagoniza uma sincera e contrastante amizade com a peixinha azul, arrancando uma série de risadas ao se tornar o "transporte" de Dory dentro do centro de reabilitação. 


Narrativamente sólido, Procurando Dory nos oferece um espetáculo visual fascinante. Num trabalho virtuoso, Andrew Stanton mantém a qualidade do original ao reproduzir a imensidão do oceano, construindo um cenário rico, ultra colorido e naturalmente atraente. Apesar do tom cartunesco, o realizador mostra inspiração ao prezar pela verossimilhança, se preocupando com detalhes como as noções de escala, a iluminação e a aparência da água. À medida que os peixes deixam o recife, as paisagens se tornam mais nebulosas, os animais mais assustadores, os protagonistas cada vez menores. Nas entrelinhas, inclusive, é possível perceber uma crítica mais sutil a poluição, já que por diversas vezes nos deparamos com objetos sucateados e locais mais sujos. Além disso, o Centro de Reabilitação da Vida Marinha rende uma série de novas possibilidades ao diretor, permitindo que ele passeie por novos ambientes aquáticos com criatividade e inspiração. Sem querer revelar muito, a sequência envolvendo a fuga de um espaço infantil é tensa e bem montada, assim como a perseguição antagonizada por um iluminado polvo. Nenhum destes momentos, no entanto, superam a incômoda crise de nervos da simpática Dory, um take intimista e esteticamente denso. E como se não bastasse isso, os novos personagens são dinâmicos e expressivos, com destaque para a aparência camuflável de Hank, para a movimentação desastrada de Destiny e para a fofura da pequena Dory. Quando a trama invade a superfície, no entanto, Stanton se arrisca ao abraçar o absurdo. Mesmo não respeitando os padrões biológicos dos animais, o que poderia ter se tornado um problema, as cenas acima do mar são ágeis e divertidíssimas, culminando num clímax exagerado, empolgante e curiosamente inesperado. 


Ainda que alguns dos alívios cômicos não se revelem tão eficazes, as cenas de bullying envolvendo um abobalhado leão marinho não me pareceram compatíveis com a proposta integradora do longa, Procurando Dory comprova os motivos que transformaram esta cativante peixinha numa das personagens mais populares do gênero. Leve e inofensiva, a continuação mantém o padrão de qualidade da Pixar ao enxergar nesta admirável protagonista a riqueza e a complexidade necessárias para guiar uma aventura deste porte, resgatando alguns dos elementos mais icônicos do original (o "baleiês" é explicado) ao acompanhar a jornada de descobertas desta esquecida e obstinada peixinha. Méritos para Andrew Stanton que, ao ir além do pano de fundo familiar, foge do lugar comum ao abordar a temática da deficiência sob um prisma honesto, afirmativo e extremamente atual. 



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