domingo, 3 de julho de 2016

Do Fundo do Baú (O Franco Atirador)

Um dos grandes nomes da Nova Hollywood, movimento cinematográfico setentista que revelou "craques" do nível de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian de Palma e George Lucas, o diretor Michael Cimino (O Último Golpe, O Portal do Paraíso) faleceu neste sábado (02), aos 77 anos. Dono de uma filmografia enxuta, mas expressiva, o realizador norte-americano alcançou o estrelato no aclamado e definitivo O Franco Atirador. Neste poderoso drama de guerra, Cimino destaca o impacto do Vietnã na vida de um grupo de amigos, escancarando os traumas impostos por um conflito deste porte. Com uma narrativa fria, porém intensa, o filme é uma grande obra de arte, um trabalho pesado, violento, marcado pelo primoroso elenco, pelo intimista argumento e por devastadoras sequências. 


Lançado no ano de 1978, O Franco Atirador é impressionantemente frio ao revelar as consequências da tão contestada Guerra do Vietnã. Sob a contundente batuta de Michael Cimino, o longa de quase três horas de duração é um retrato fiel e vigoroso sobre a jornada de um grupo de amigos atormentados pelos fantasmas deste conflito. Vivendo em uma pacata cidade do interior, os inseparáveis Michael (Robert De Niro), Nick (Christopher Walken) e Steven (John Savage) levavam uma vida simples e bastante feliz. Operários numa fábrica no Sul na Pensilvânia, o trio tem a sua rotina alterada no momento em que decide se alistar para a Guerra do Vietnã. Dispostos a aproveitar os últimos momentos antes do embarque, enquanto Steven resolve se casar com a sua amada namorada, Nick e Michael disputavam veladamente o amor da bela Linda (Meryl Streep). À medida que o dia do alistamento se aproxima, no entanto, o grupo passa a sofrer a pressão do conflito, sem saber que o pós-guerra seria bem mais doloroso do que eles podiam esperar.


Com argumento assinado pelo próprio Cimino, O Franco Atirador é dividido em três atos distintos e totalmente contrastantes. Para destacar como era a rotina deste grupo de amigos, e porque não da cidade como um todo, ao longo da primeira hora o diretor esbanja sutileza ao evidenciar a união entre os futuros soldados. Impulsionado pelas grandes seleções, as cenas fluem com naturalidade e química invejável, fazendo com que o espectador sinta realmente o quão próximos eram os amigos. Baseando-se em um roteiro dinâmico, por um momento os diálogos conseguem se destacar pelo bom-humor e pelo naturalismo. Além disto, o diretor faz um excelente uso da fotografia de Vilmos Zsigmond (Contatos Imediatos de Terceiro Grau), exaltando em takes excelentes a beleza natural desta pacata cidade. Na verdade, a intenção é transformar a cidade em uma espécie de representação do paraíso, uma antítese do cenário que eles estavam prestes a encarar, preparando o espectador para um grande choque de realidade.


Ao final desta hora, de maneira repentina e explosiva, o filme deixa a cidade e já mostra os três em batalha no Vietnã. O longa, que até o momento era leve e fluía com serenidade, passa por uma grande mudança de tom. A paisagem fria e bela é substituída pelas cores quentes do Vietnã. Neste momento, Cimino começa a trabalhar o trauma da guerra. Sem querer revelar muito, as cenas neste período são extremamente impactantes e realistas, destacando as torturas físicas e emocionais experimentadas pelo trio de soldados durante este doloroso conflito. O foco, no entanto, não é a guerra em si, mas as suas consequências. Após um segundo ato mais incisivo, a película deixa o conflito e mostra a tentativa dos três de se reabilitar dentro da pacata vida da cidade. Numa sacada de mestre, apesar deste retorno ao cenário inicial, a atmosfera já não é mais a mesma. As belezas campestres ainda estão lá, mas o ambiente se torna mais pálido, nebuloso. A felicidade do primeiro ato desaparece quase que por completo, sendo substituída por uma forte carga dramática. É neste último ato, aliás, que o realizador exibe um ponto de vista mais contestador e anti-bélico, uma mensagem extrema e naturalmente pessimista. Vide a devastadora cena final, onde, apesar de estarem reunidos, é perceptível a mudança do clima entre os amigos.


Se o roteiro e a direção são excelentes, o elenco é de tirar o chapéu. Robert De Niro (Taxi Driver), em uma de suas melhores interpretações, Christopher Walken (Anjos Rebeldes), idem, e John Cazalle (O Poderoso Chefão), entregam brilhantes atuações. Meryl Streep (Kramer vs Kramer), também tem um atuação sensacional, num papel menor, mas importantíssimo. A presença da atriz, aliás, extrapolou os limites cênicos e chegou aos bastidores do filme. Com uma doença terminal, John Cazalle, o então marido de Streep, iria ser substituído pelos produtores, que temiam que ele não conseguisse chegar ao fim das filmagens. Ciente desta informação, a premiada atriz bateu o pé e afirmou que também deixaria a película caso o seu esposo fosse dispensado. Com esta imposição o estúdio cedeu e Cazzale concluiu as gravações. Infelizmente, ainda em 78, o ator faleceu aos 42 anos, deixando personagens marcantes, como o inesquecível Fredo Corleone, em O Poderoso Chefão.

Michael Cimino e Robert De Niro
Com uma abordagem pessimista, cenas de impacto visual gritante e uma narrativa longa, mas intensa, O Franco Atirador se revela um relato incisivo sobre o impacto da Guerra do Vietnã. Ao acompanhar o antes, o durante e o depois de um grande conflito sob um prisma extremamente intimista, Michael Cimino esbanja o seu reconhecido talento ao construir um drama melancólico, chocante e acima de tudo surpreendente. Vencedor de cinco prêmios do Oscar, incluindo os de Melhor Filme e Melhor Direção, o longa merece figurar entre os mais poderosos relatos envolvendo um tema frequentemente abordado em Hollywood. 

2 comentários:

Hugo disse...

Um dos grandes filmes da história do cinema.

Michael Cimino deixou uma filmografia pequena, apenas sete longas, mas todos marcantes.

Abraço

thicarvalho disse...

Realmente Hugo, um dos grandes filmes sobre a Guerra do Vietnã. Grande Abs.

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