terça-feira, 8 de março de 2016

Furiosa, Rey, Carol e as incríveis personagens que roubaram a cena em 2015


O ano de 2015 foi extremamente fértil para as mulheres no cinema. No ápice de um luta pela equiparação salarial dentro de Hollywood, a indústria do entretenimento parece estar decidida a finalmente ouvir os anseios do público feminino, abrindo espaço para personagens fortes, independentes e que dialoguem com os anseios de uma nova geração de espectadoras. Ainda que num todo a carência de grandes protagonistas femininas siga evidente, aos poucos começamos a perceber que este cenário pode estar mudando. Na temporada passada, por exemplo, algumas talentosas atrizes foram "premiadas" com papéis inegavelmente importantes, conseguindo destaque não só nas populares comédias e nos romances dramáticos, mas também em explosivos thrillers de ação, em gigantescos blockbusters e em pequenas pérolas da ficção científica. E o melhor. A resposta da crítica e do público - em sua maioria - foi extremamente positiva, mostrando que este pode ser um caminho rentável para a indústria. Em celebração ao Dia Internacional da Mulher, neste especial do Cinemaniac conheça algumas das personagens que roubaram a cena no ano de 2015.

- Anna Morales (O Ano mais Violento)

Interpretada pela talentosíssima Jessica Chastain, Anna é a verdadeira alma do excelente drama O Ano Mais Violento (leia a nossa opinião aqui). Dividindo a tela com o excelente Oscar Isaac, a atriz atrai os holofotes ao dar vida a mulher de um correto empresário hispânico disposto a prosperar num mercado preconceituoso e voraz. Na contramão dos clichês, é da indomável Anna a postura mais agressiva do longa, o que rende discussões poderosas entre marido e mulher. Numa daquelas personagens que merecia maior espaço em cena, a eloquente atriz constrói uma mulher vibrante, dúbia e influente, um tipo raro dentro do cinema atual.

- Ilsa Faust (Missão Impossível: Nação Secreta)



Esqueça os clichês da mocinha indefesa. Primeiro grande blockbuster desta lista, Missão Impossível: Nação Secreta (leia a nossa opinião aqui) nadou contra a corrente que ajudou a construir ao encontrar numa personagem feminina o seu grande diferencial. Na verdade, apesar do carismático Tom Cruise seguir no centro da ação, me arrisco a dizer que a agente Ilsa Faust é o maior trunfo desta bem sucedida continuação. Graças a intensa performance de Rebeca Fergunson, a agente se revela uma personagem independente e naturalmente dúbia, se tornando o pivô de algumas das melhores reviravoltas do roteiro. O resultado foram críticas excelentes e US$ 682 milhões nas bilheterias ao redor do mundo.

- Susan Cooper (A Espiã que sabia de Menos)



Durante anos nos acostumamos a ver as mulheres como símbolos sexuais em filmes de espionagem. Isso é um fato inquestionável. O diretor Paul Feig, no entanto, resolveu mudar este cenário. Ao lado da sua inestimável parceira Melissa McCarthy, o realizador nos brindou com o hilário A Espiã que Sabia de Menos (leia a nossa opinião aqui). Contrariando todos os clichês do gênero, o realizador foge das fórmulas fáceis ao acompanhar a jornada de autoafirmação da pacata Susan Cooper, uma analista da CIA que do "dia para a noite" é a escolhida para assumir uma perigosa missão. Em meio as hilárias piadas, a transformação desta pacata mulher em uma confiante espiã é absolutamente bem conduzida pelo longa, mostrando que um pessoa não deve ser resumida ao peso e a aparência. A "Espiã" se tornou um inesperado sucesso de público e crítica, recebendo, inclusive, duas indicações a o Globo de Ouro 2016.

- Ava (Ex-Machina)



Ao que parece, no entanto, os distribuidores brasileiros ainda não aprenderam a sua lição. Lançado diretamente em DVD no mercado nacional, Ex-Machina (leia a nossa opinião aqui) é uma instigante pérola do cinema Sci-Fi. Com um orçamento enxuto em mãos, o diretor Alex Garland transforma a robótica Ava numa das personagens mais complexas de 2015. Interpretada com maestria pela sensação Alicia Vikander, a inteligência artificial se revela um elemento chave dentro do longa. Através desta sedutora figura, o realizador investiga questões essencialmente humanas, dentre elas a nossa relação com as novas tecnologias, a desumanização do indivíduo e as imperfeições por trás da nossa existência. Isso tudo num suspense elegante e naturalmente feminista.

- Imperatriz Furiosa (Mad Max: Estrada da Fúria)



O que falar de um filme que estreou há tão pouco tempo e eu já considero tanto... Numa daquelas sacadas que só um corajoso realizador poderia ter, o setentão George Miller transformou uma franquia essencialmente masculina numa ode ao feminismo moderno em Mad Max: Estrada da Fúria (leia a nossa opinião aqui). Contrariando o seu próprio título, o quarto capítulo da saga pós-apocalíptica traz a incrível Imperatriz Furiosa como a grande protagonista desta sequência. No embalo da fantástica atuação de Charlize Theron, a comandante se revela a força motora do longa ao "sequestrar" as escravas sexuais do nefasto Imortan Joe e livra-las da sua tirania. Esbanjando energia, a atriz sul-africana abre mão da sua reconhecida beleza para dar corpo e voz a uma personagem indispensável, um elemento revolucionário dentro de uma franquia tão bem estabelecida.

- Katniss Everdeen (Jogos Vorazes: A Esperança - O Final)



Apesar de quase colocar tudo a perder na dispensável sequência final, um equívoco narrativo - diga-se de passagem - já presente na obra original, a franquia Jogos Vorazes (leia a nossa opinião aqui) transformou a jovem Katniss Everdeen numa das maiores heroínas da nova geração dentro da cultura pop. Independente, indomável, mas absolutamente humana, a rebelde interpretada por Jennifer Lawrence se tornou um daqueles símbolos de resistência e que merecem ser cultivados. Me arrisco a dizer que se Katniss é o símbolo da revolução criada por Suzanne Collins, Jennifer Lawrence é a verdadeira força motora desta franquia cinematográfica.

- Jéssica e Val (Que Horas ela Volta?)



É com orgulho que temos uma representante nacional nesta lista. Aclamado pela crítica mundial, Que Horas ela Volta? (leia a nossa opinião aqui) coloca em cheque alguns dos estigmas mais enraizados do nosso país ao narrar a jornada da indômita Jéssica e da carismática Val. Ao contrário da sua mãe, uma mulher nordestina que desembarcou na cidade grande para trabalhar como doméstica em uma casa de classe média\alta, Jéssica chega a SP disposta a prestar um concorrido vestibular para uma grande instituição pública. Recusando o estereótipo do "filho da empregada", a jovem acaba causando um verdadeiro rebuliço ao questionar a submissa postura de Val em relação aos seus patrões. Com três grandes personagens femininas, Jéssica ganha um aura atual nas mãos da expressiva Camila Márdila, um tipo que faz de tudo para renegar o "coitadismo" e superar "na marra" o impacto da desigualdade social na sua formação. Isso sem falar da brilhante atuação de Regina Casé, impecável ao compor uma personagem que pouco a pouco vai se deparando com uma nova realidade. Um belíssimo trabalho da diretora Anna Muylaert.

- Brooke (Mistress America)



Responsável por algumas das personagens femininas mais interessantes do cinema independente norte-americano, a cativante Greta Gerwig se torna uma espécie de "heroína hipster" no adorável Mistress America (leia a nossa opinião aqui). Na pele da alto astral Brooke, a atriz encarna uma mulher que não parece disposta a ceder às pressões sociais, renegando os clichês em torno da chegada da maturidade. Reluzente em cena, a atual musa do cinema 'indie' esbanja magnetismo ao construir uma personagem de aparência indômita, cheia de ideias e opiniões, mas que gradativamente revela as suas fragilidades. Um tipo humano que, através do seu vago discurso idealista, revela um pouco das agruras da complexa nova geração.

- Nelly  (Phoenix)



Essa é uma daquelas pérolas que merecem ser descobertas. Num drama com toques de suspense, a talentosa Nina Hoss entrega uma das melhores performances do ano ao interpretar uma devastada sobrevivente do holocausto. Em Phoenix (leia a nossa opinião aqui) a atriz interpreta Nelly, uma mulher desfigurada que, após uma cirurgia de reconstrução da face, resolve se reaproximar do ex-marido na tentativa de descobrir quem a entregou aos nazistas. Numa analogia envolvendo o mito da ave Fênix, Nelly renasce das cinzas à medida que se reaproxima do seu velho passado, reencontrando tanto a sua própria identidade, quanto a força necessária para encontrar as respostas para as suas perguntas. Por mais devastadoras que elas possam ser. Um filmaço.

- Kate (Sicario: Terra de Ninguém)



Destemida e incorruptível, Kate Macer se revela o grande símbolo do crítico e contundente  Sicario: Terra de Ninguém (leia a nossa opinião aqui). Numa personagem repleta de boas intenções, a magnética Emily Blunt enche a tela de emoção ao traduzir as nuances de uma idealista agente do FBI disposta a tudo para colocar fim a um poderoso chefão do narcotráfico mexicano. Indo da destemida à incapaz com extrema naturalidade, a atriz é habilidosa ao tirar proveito das nuances possibilitadas pelo roteiro, acrescentando uma incrível dose de humanidade a sua Kate. Sem querer revelar muito,  a desconstrução física e emocional da sua personagem é digna de aplausos, principalmente pela maneira com que o diretor Dennis Villeneuve (Suspeitos) desenvolve a  a crise ética da agente diante desta nebulosa missão.

- Maud Watts (As Sufragistas)



Inspirado em fatos, As Sufragistas (leia a nossa opinião aqui) foge do lugar comum ao transformar um poderoso relato histórico numa mensagem de igualdade atual e infelizmente necessária. A partir do inicialmente apolítico ponto de vista de Maud Watts, um trabalhadora esforçada que faz de tudo para ajudar o marido na criação do seu amado filho, conhecemos a árdua realidade da mulher britânica, compreendendo gradativamente os motivos que às levaram ao movimento feminista. Interpretada com absoluta perícia pela talentosa Carey Mulligan, a jovem  cresce em cena com enorme maturidade, tornando crível o misto de dor e esperança da sua personagem. Indo da frágil a obstinada com total credibilidade, Mulligan se revela uma espécie de símbolo nas mãos de Gravon, uma personagem melhor que o próprio filme. Até porque, na ânsia de ressaltar a opressão masculina, o longa se rende a soluções maniqueístas que reduzem o impacto deste relato histórico.

- Joy Magnano (Joy: O Nome do Sucesso)



Numa daquelas incríveis histórias reais, Joy: O Nome do Sucesso (leia a nossa opinião aqui) encontra na versatilidade de Jennifer Lawrence o misto de emoções necessário para narrar a jornada da inventora Joy Magnano. Apesar das críticas envolvendo a escalação da atriz, considerada jovem demais para dar vida a uma mãe de três filhos, Lawrence se torna fundamental para o êxito do longa. Numa das melhores interpretações da sua carreira, ela "engole" as nuances da indomável Joy, revelando de maneira nada panfletária a postura feminista da sua personagem. Uma negociante brilhante e absolutamente indomável. Convincente ao mostrar que por trás da aparente vulnerabilidade de Joy existe uma figura determinada e persuasiva, Jennifer Lawrence troca o grito pelo diálogo, o choro compulsivo pela lágrima solitária, o rompante de fúria pela ameaça silenciosa, comprovando o quão frutífera pode ser a parceria com David O. Russel.

- Carol Aird (Carol)

Inspirado no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith, Carol (leia a nossa opinião aqui) volta ao passado para mostrar uma história de amor e intolerância que ainda hoje se revela extremamente pertinente. Através da elegante Carol Aird, uma mulher à frente do seu tempo, nos deparamos com o preconceito da sociedade da época ao acompanhar a relação entre ela e a tímida Theresa (Rooney Mara). Reconhecida por dar vida a tipos naturalmente refinados, Cate Blanchett entrega uma das performances mais complexas da sua elogiada filmografia, passeando com maturidade pelo turbilhão de situações enfrentadas por Carol. Numa figura completamente independente, a experiente atriz hipnotiza seja como uma apaixonante mulher inebriada por um repentino caso de amor, seja como uma devastada mãe obrigada a conviver com as consequências dos seus sentimentos.

- Joy (O Quarto de Jack)



Inspirado no 'best-seller' da escritora Emma Donoghue, O Quarto de Jack (leia a nossa opinião aqui) se esquiva por completo dos melodramas ao adaptar uma premissa ao mesmo tempo dolorosa e reconfortante. Sem recorrer aos clichês do tema, o longa dirigido por Lenny Abrahamson é sensível ao reproduzir um nefasto episódio na vida de de Joy, uma jovem mantida em cativeiro ao lado do seu carismático filho. Indo da esperançosa à devastada com suavidade, a vencedora do Oscar Brie Larson esbanja elegância ao expor as nuances da complexa Joy, escondendo no seu traumatizado olhar uma gama de sentimentos difícil de se resumir em palavras. Um relato surpreendente e desconfortavelmente encantador sobre uma mãe que, na tentativa de impedir que o seu filho experimentasse os horrores deste episódio, transformou o seu cativeiro num lugar mágico e único no mundo.

- Joanna Hoffman (Steve Jobs)



Na cinebiografia mais completa sobre o icônico Steve Jobs (leia a nossa opinião aqui), quem acabou roubando a cena foi a atriz Kate Winslet e a sua influente personagem Joana Hoffman. Apontada como a única capaz de "domar" o temperamento de Jobs, a assistente ganha uma interpretação impecável nas mãos da sempre cuidadosa atriz britânica. Esbanjando uma invejável química com Michael Fassbender, Winslet desfila o seu reconhecido talento ao interpretar uma mulher forte, independente e inesperadamente divertida. Com um afiado senso de humor, a relação de confidência entre ela e Jobs se torna um dos pontos altos da película, principalmente pela capacidade de Boyle em deixar os seus comandados à vontade em cena. É através dela que, aliás, nascem as discussões mais reveladoras sobre Jobs, o que comprova a importância desta eloquente personagem.

- Gerda Wegener (A Garota Dinamarquesa)



A "verdadeira" Garota Dinamarquesa (leia a nossa opinião aqui), Alicia Vikander reproduz com absurda dignidade o misto de emoções enfrentados pela pintora Gerda Wegener. Uma mulher casada que, após uma inesperada revelação, vê a sua rotina ruir no momento em que o seu marido e companheiro Einar Wegener resolve se submeter a um cirurgia de troca de gênero. Brilhante ao traduzir a dor sentida pela sua personagem, a vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante interioriza com enorme categoria o sofrimento enfrentado pela pintora, nos brindando com uma performance humana e naturalmente encantadora. Na verdade, antes mesmo da aparição de Lili Elbe, Gerda já se revelava um dos principais elementos do filme, principalmente pela sua postura moderna e completamente independente.

- Rey (Star Wars: O Despertar da Força)



E por fim chegamos a ela. Talvez a grande sensação de 2015, a indomável Rey se transformou naturalmente num dos principais trunfos do estrondoso Star Wars: O Despertar da Força (leia a nossa opinião aqui).  Numa sacada de mestre da Disney, o misto de reboot e refilmagem fez da talentosa Daisy Ridley a sua grande protagonista, dando a esta incrível personagem um "poder" poucas vezes visto dentro de uma franquia deste porte. Ainda que a inesquecível Princesa Leia (Carrie Fisher) já tivesse um reconhecido papel de destaque dentro da franquia, só agora um tipo feminino realmente assumiu o controle da situação. Completamente destemida, a jovem sucateira é a personagem que tem o melhor desenvolvimento dentro do Episódio VII, crescendo assustadoramente ao longo das envolventes 2 h e 15 min de projeção. Dando vida a uma figura inicialmente dócil, a carismática Ridley exibe enorme expressividade ao acompanhar a evolução da sua Rey, entregando uma performance arrebatadora dentro do excelente clímax.

- Menções Honrosas: 


Minnie (Diário de Uma Adolescente), Diggy (Dope), Eilis Lacey (Brooklyn) e Ricki (Ricki and The Flash).

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