sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Anomalisa

A crise de um homem comum

Responsável pelos celebrados Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o cultuado roteirista (e diretor) Charlie Kaufman volta a analisar o comportamento humano com sensibilidade no curioso Anomalisa. Numa animação voltada ao público adulto, o que propriamente não chega a ser uma novidade, o realizador flerta com o genial ao dialogar com temas e situações completamente recorrentes, investigando o reflexo de uma crise emocional na rotina de um homem comum. Transformando o stop-motion num instrumento fértil para a sua história, Kaufman brinca com os paradoxos ao questionar de maneira honesta e contemplativa os dilemas afetivos do seu complexo protagonista, presenteando os fãs do gênero com um trabalho esteticamente primoroso. Narrativamente, no entanto, o longa tem os seus problemas, a maioria deles relacionados ao ritmo lento e ao apressado último ato, reduzindo o impacto deste inteligente relato sobre o perigo da alienação social.


Evitando o tom pretensioso, o argumento assinado por Kaufman não parece ter a intenção de propor uma análise sobre o rumo dos relacionamentos atuais. Na verdade, numa opção nada generalista, o roteirista transforma o seu protagonista numa espécie de para-raios de alguns dos mais comuns problemas modernos, investigando a partir dele o impacto de uma crise sentimental na vida de uma pessoa comum. Através de uma narrativa nada condescendente, Anomalisa conta a história do apático Michael (voz de David Thewlis), um escritor motivacional (que bela sacada!) britânico erradicado nos EUA. Depressivo, ele não enxergava mais qualquer tipo de beleza ao seu redor, mostrando um evidente desconforto com a sua previsível rotina. Casado e pai de um filho, Michael é convidado para dar uma palestra em uma cidade próxima. Neste mesmo lugar, há uma década, ele havia vivido um breve romance, daqueles que ainda ecoava na sua cabeça. Entediado no quarto do hotel, o escritor resolve marcar um repentino encontro com esta mulher, mas as coisas não saem como esperado. Num acaso do destino, no entanto, ele é atraído por uma voz no corredor. Instigado, Michael conhece a carismática Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), uma atendente de telemarketing fã do seu livro, encontrando nela a paixão que aparentemente tanto lhe fazia falta.


Simples e objetivo, Anomalisa esbanja humanidade ao analisar os conflitos do instável Michael. Criando uma identificação inicial com o espectador, o longa flerta com temas espinhosos, abordando com maturidade os motivos que levaram o protagonista a uma repentina relação extraconjugal. Cuidadoso ao desvendar as nuances desta inerte figura, Kaufman mostra inspiração ao proteger alguns dos segredos em torno da persona do escritor, dando ao público a possibilidade de construir as suas próprias impressões sobre as atitudes do personagem. Na ânsia de ressaltar o vazio existencial em torno dele, no entanto, o realizador se rende a um primeiro ato longo e vagaroso, acompanhando com frieza a chegada do palestrante a soturna e solitária cidade de Connecticut. Um cenário estranho e inicialmente nada atraente, mas que aos poucos se transforma num terreno promissor para as inventivas soluções estéticas adotadas por Kaufman. À medida que a cativante Lisa entre em cena, porém, a película ganha um novo ritmo. Radiante e bem humorada, a personagem traz vida não só para a rotina do escritor, mas também para o filme como um todo, mostrando o melhor e o pior por trás do complexado protagonista. Através de um texto ágil, profundo e revelador, a relação entre os dois flui com naturalidade, potencializada por sequências singelas e intimistas. Vide a cena em que a ótima Jennifer Jason Leigh solta a voz e interpreta com doçura a libertadora canção "Girls Just Want To Have Fun".


No que diz respeito ao stop-motion, aliás, Kaufman e o seu parceiro Duke Johnson mostram inspiração ao capturar as expressões deste casal. Valorizando elementos com a textura da pele e o brilho dos olhos, a dupla de realizadores alcança um nível de realismo impressionante nos intimistas 'close-ups', traduzindo a humanidade dos dois personagens com absurda perícia. Isso sem falar do detalhismo na concepção do cenário hoteleiro, naturalmente impessoal e opressor, e na autoral iluminação das cenas, fundamental na ampliação dos sentimentos do escritor. Por outro lado, numa opção no mínimo curiosa, Anomalisa cultiva um proposital artificialismo quando se trata do rosto e da mobilidade dos personagens. Na verdade, muito mais do que uma contrastante solução visual, esta aparência sintética se torna um elemento poderoso nas mãos do diretor. Sem querer revelar muito, a maneira encontrada por ele para evidenciar a apatia social de Michael é brilhante (e faz todo o sentido), ampliando a sensação de desconforto (agora propositalmente) ao longo da trama. Méritos que precisam ser divididos com o ator Tom Noonan, que, numa sacada genial, empresta a sua voz para todos os personagens coadjuvantes, num trabalho de dublagem único e original. No momento em que tudo parecia se encaixar, porém, o apressado último ato joga um balde de água fria no espectador. Ainda que o interessante 'plot twist' seja pertinente, principalmente pela franqueza com que desmonta (literalmente) o seu protagonista, as consequências deste repentino caso de amor são desenvolvidas de maneira breve e superficial. Pra piorar, a adorável Lisa é praticamente esquecida dentro do clímax, tendo a sua presença desastradamente reduzida.


Discorrendo sobre a crise afetiva de um homem comum, Anomalisa confunde maturidade com resignação ao reduzir à "anomalia" do apático escritor a maioria das suas respostas. Tecnicamente irretocável, a charmosa animação é excessivamente contemplativa ao arrematar a jornada do melancólico Michael, decepcionando àqueles que esperavam um algo a mais dentro de uma obra esteticamente tão ousada e refinada. Em outras palavras, ainda que dialogue com universais dilemas urbanos, como a solidão, a depressão e o distanciamento emocional, Kaufman parece se esquivar de uma análise mais enfática, ou talvez mais crítica, entregando um desfecho humano, mas vazio, tal qual o seu instigante protagonista.


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