quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Pegando Fogo

Visualmente apetitoso, narrativamente morno

No embalo dos populares reality shows gastronômicos, reconhecidos por seus raivosos Chefs e pelos requintados cardápios, Pegando Fogo surge como uma ritmada "dramédia" que carece daquele raro tempero original. Dirigido pelo competente John Wells, do ácido Álbum de Família, o longa tira o máximo proveito deste pano de fundo culinário ao acompanhar a volta por cima de um instável chefe de cozinha, nos oferecendo uma película visualmente apetitosa, mas narrativamente morna. Atrapalhado pelo exagerado número de personagens, uns desenvolvidos de maneira satisfatória, outros sem qualquer tipo de profundidade, o realizador norte-americano encontra no talentoso elenco, capitaneado pelo carismático Bradley Cooper, o ingrediente que faltava para contornar alguns destes problemas, tornando a jornada de redenção do protagonista honesta e inegavelmente divertida. Ainda assim, a impressão que fica é que a película realmente ganha sabor quando resolve mostrar a feroz rotina de um grupo de cozinheiros dentro de um luxuoso restaurante.


Através de cortes rápidos e da esperta montagem, John Wells nos conduz por um criativo passeio gastronômico ao se concentrar tanto na preparação dos refinados pratos, daqueles de aparência deliciosa, quanto na incansável busca de um Chef pelo tempero perfeito. Disposto a capturar os detalhes culinários, por diversas vezes os ingredientes chegam a dividir o protagonismo com o elenco, Wells é igualmente habilidoso ao reproduzir o clima de tensão nos bastidores de um restaurante de luxo, transformando o ato de cozinhar numa espécie virtuosa e obsessiva de expressão artística. Uma pena que o irregular argumento assinado por Steve Knight não esteja no mesmo nível. Responsável pelo excelente Senhores do Crime (2007), o roteirista tropeça na sua própria megalomania, esvaziando interessantes subtramas ao abrir espaço para tipos dispensáveis em situações mal desenvolvidas. Desta forma, Pegando Fogo narra a história de Adam Jones (Cooper), um talentoso chef de cozinha que decide voltar a Londres após um longo afastamento. Após superar o vício nas drogas e no álcool, ele sonha com a terceira estrela no guia Michelin, um feito que segundo um dos personagens o transformaria no "mestre Yoda das cozinhas". Contando com a ajuda do zeloso Tony (Daniel Brühl), Adam ganha uma nova chance quando um antigo amigo decide o colocar no comando do seu restaurante. Ao lado do seu fiel escudeiro Max (Riccardo Scamarcio), do prodígio David (Sam Keeley), do ex-parceiro Michel (Omar Sy) e da independente Helene (Sienna Miller), o arrogante Chef colocará a sua reputação em cheque ao perceber que o seu retorno não foi tão bem dirigido por velhos conhecidos.


Apesar dos problemas já citados, Pegando Fogo deixa uma excelente impressão durante o envolvente primeiro ato. No melhor estilo filme de assalto, a montagem da equipe de Adam merece elogios, evidenciando o cuidado de John Wells ao introduzir os muitos personagens. Com agilidade e segurança, o diretor os integra naturalmente à trama, revelando através deles informações importantes sobre o passado deste indomável Chef. Equilibrando o início da jornada de redenção do protagonista, com o frenesi em torno da inauguração do restaurante, me arrisco a dizer que a película atinge o seu ápice em sua primeira meia hora, justamente no momento em que Adam explode e revela o quão insuportável pode ser este ambiente de trabalho. Isso porque a partir daí, o argumento nitidamente perde o foco, seguindo um caminho convencional ao explorar não só a aproximação amorosa envolvendo Adam e Helena, mas também as consequências desta volta a velha profissão. Com um exagerado número de coadjuvantes em mãos, Wells não consegue desenvolver todas as subtramas com a mesma convicção, ofuscando algumas situações por si só atraentes. Pra ser bem objetivo, apesar da inegável química entre Bradley Cooper e Sienna Miller, este par romântico não se revela mais divertido do que a curiosa relação do Chef com o fiel Tony (interpretado com espirituosidade por Daniel Brühl), nem mais intenso do que o reencontro com a misteriosa Anne Marie (Alicia Vikander, numa participação pontual), nem mais vibrante do que a rivalidade com o igualmente talentoso Reece (Matthew Rhys). Felizmente, John Wells parece ter percebido isso a tempo, retirando destes três arcos algumas das sequências mais memoráveis do longa. 


Nenhum destes deslizes, porém, incomoda tanto quanto a excessiva condescendência com a egocêntrica figura de Adam. Ainda que Bradley Cooper torne crível o misto de sonho e obsessão do Chef, entregando uma performance sincera e confiante, o seu personagem é exageradamente protegido pelo roteiro, encontrando sempre um ombro amigo nas situações adversas. Até na sequência mais particular do segundo ato, quando uma bem construída reviravolta parecia indicar um desfecho maduro, tudo conspira convenientemente à favor do protagonista, tornando a sua mudança de temperamento repentina e mal desenvolvida. Ao menos a volta por cima de Adam Jones é concluída de maneira mais inspirada, ganhando uma aura inesperadamente singela ao se distanciar - na medida do possível - dos clichês gênero. Funcionando melhor quando revela os bastidores da alta gastronomia, Pegando Fogo cumpre as expectativas ao mostrar a paixão de um homem pela culinária. Mesmo subaproveitando nomes como os de Emma Thompson, Uma Thurman e Lily James, o longa supera os vacilos do roteiro ao nos servir uma mistura de elementos de aparência requentada, mas que ganha um sabor especial graças a condução elegante de John Wells e ao talento de nomes como os de Daniel Brühl, Sienna Miller e Bradley Cooper.

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