segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

As Sufragistas

Carey Mulligan dita o tom deste contundente grito de igualdade

Inspirado em fatos, As Sufragistas foge do lugar comum ao transformar um poderoso relato histórico numa mensagem de igualdade atual e infelizmente necessária. Sob a batuta nervosa da diretora Sarah Gravon, impecável ao escancarar a covardia e o sacrifício por trás da luta pelo direito ao voto feminino no início do século XX, o longa tira proveito deste cenário naturalmente opressor para dialogar com temas e situações ainda hoje em evidência. Através de uma personagem nada idealista, interpretada com maestria por Carey Mulligan, Gravon é habilidosa ao questionar o papel da mulher na sociedade, levantando uma bandeira contra a violência, o assédio e a desvalorização profissional em pleno século XXI. No momento em que se volta para os tipos masculinos, no entanto, a película não mostra a mesma inspiração, perdendo parte da sua força ao fazer do maniqueísmo um aliado totalmente dispensável.


Fiel à estrutura clássica do gênero, o linear argumento assinado por Abi Morgan (do igualmente histórico A Dama de Ferro) narra a jornada de Maud (Carey Mulligan), uma mãe da família pacata que trabalhava duro para ganhar a vida. Ao lado do marido Sonny (Ben Whishaw), ela sobrevivia com bem pouco, impossibilitando qualquer tipo de luxo para o seu pequeno filho George. Sem qualquer tipo de formação política, a jovem lavadeira é surpreendida por um agressivo protesto feminino, tendo um primeiro contato com o movimento sufragista liderado pela popular Emmeline Pankhurst (Meryl Streep). Cansada da opressão social imposta pelos homens, ela é atraída pela agitação feminista, sendo convencida pelas experientes Violet (Anne-Marie Duff, numa atuação intensa) e Edith (Helena Bonham Carter, irretocável) a participar de algumas reuniões. Inicialmente relutante, Maud é sugada para o "olho do furacão" quando, num momento de adversidade, é escolhida às pressas para representar as mulheres num depoimento diante do parlamento. O que era para ser uma ação isolada, no entanto, logo se transforma numa atitude perigosa, principalmente quando ela entra na mira do inspetor Arthur (Brendan Gleeson), um obstinado oficial disposto a tudo para acabar com o movimento.


Narrativamente convencional, As Sufragistas ganha uma roupagem bem mais interessante nas mãos de Sarah Gravon. Adotando um bem-vindo tom sóbrio, o que mantém a película distante dos perigosos melodramas, a britânica demonstra categoria ao reproduzir com intimismo os revoltantes relatos por trás desta luta pelo direito ao voto. Com a sua câmera em mãos, Gravon opta por nos colocar no centro dos protestos, capturando com extremo zelo tanto a expressão das suas comandadas, quanto a violência enfrentada pelas mulheres durante este período. No meio de tamanha hostilidade, porém, a diretora em nenhum momento banaliza o sofrimento das sufragistas. Por diversas vezes, inclusive, tal qual as suas personagens, Gravon desvia o foco\olhar nas sequências mais duras, evitando a todo custo o choque gratuito. Responsável por injetar uma considerável dose de tensão a trama, vide a angustiante sequência do turfe, a realizadora é igualmente precisa ao introduzir a paternalista sociedade britânica do início do século XX. Tirando um enorme proveito da objetividade do argumento, que funciona à contento ao longo das ágeis 1 h e 40 min de projeção, Gravon é concisa ao evidenciar não só a submissão feminina perante a figura masculina, como também a passividade das próprias mulheres diante deste cenário, revelando com contundência o preço que as insurgentes precisavam pagar ao assumirem esta postura.


Nada, no entanto, funciona melhor que o arco da pacata e fictícia Maud. Numa opção intuitiva, a partir desta personagem inocente e inicialmente apolítica conhecemos a árdua realidade da mulher britânica, compreendendo gradativamente os motivos que às levaram a este movimento. Nas entrelinhas, aliás, é neste ponto que Sarah Gravon dialoga com alguns dos problemas ainda hoje enfrentados pelas mulheres, numa urgente mensagem de alerta aos seus espectadores. Interpretada com absoluta perícia pela talentosa Carey Mulligan, a jovem Maud cresce em cena com enorme maturidade, tornando crível o misto de dor e esperança da sua personagem. Indo da frágil a obstinada com total credibilidade, Mulligan se revela uma espécie de símbolo nas mãos de Gravon, ganhando um destaque até maior do que as reconhecidas Edith Ellyn, guiada com excelência pela talentosa Helena Boham Carter, e a líder das sufragistas Emmeline Pankhurst. Esta última, inclusive, surge apenas uma vez em cena, num discurso inflamado conduzido de maneira correta pela multipremiada Meryl Streep. Uma opção interessante e absolutamente criteriosa, já que o longa parece muito mais interessado em valorizar o teor social por trás dos fatos, do que propriamente as questões políticas.


Por outro lado, inegavelmente maniqueísta quanto aos homens, o roteiro derrapa ao não se aprofundar nas nuances dos tipos masculinos. Pintados ora como assediadores repulsivos, ora como frouxos resignados, os protagonistas se revelam rasos e unidimensionais, reduzindo o impacto deste verossímil relato. A exceção fica para o determinado Inspetor Arthur Steed, numa intensa atuação de Brendan Gleeson. Mesmo sendo o pivô de algumas das atitudes mais violentas do longa, cabe ao oficial o olhar mais humano sobre a postura das rebeldes, amenizando de certa forma esta abordagem generalista no que diz respeito aos demais personagens masculinos. A respeitosa relação entre Arthur e Maud, aliás, rende alguns dos melhores diálogos da trama, valorizada pelo texto da roteirista Abi Morgan. Desta forma, com mais altos do que baixo, As Sufragistas mostra o seu valor ao promover um honesto grito de liberdade feminino. Contando ainda com a soturna fotografia Eduard Grau (Enterrado Vivo) e com a detalhista direção de arte de Jonathan Houlding (Mr. Holmes) e Choi Ho Man (Ricardo III), Sarah Gravon consegue criar uma atmosfera completamente hostil, reproduzindo uma pequena e dolorosa parte das agruras experimentadas por estas valentes mulheres.

2 comentários:

Samara Hartt da Fonte Hirose disse...

Legal a sua crítica! Me pareceu bem completa. Quero muito assistir a esse filme. Vou assistir e ver se os personagens masculinos são rasos assim como você disse. Acho que depois vou escrever uma crítica dele no meu blog também (no qual não escrevo só sobre filmes, mas sobre livros, receitas e em breve séries também ^^)
Se puder dá uma passadinha lá: www.blogdasamarahartt.blogspot.com
Beijos!

thicarvalho disse...

Valeu Samara. Obrigado pela visita. Vou olhar sim. Sucesso.

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