terça-feira, 1 de setembro de 2015

Expresso do Amanhã

Abraçando o surreal, longa é contundente ao criticar as injustiças sociais


Com mais dois anos de atraso em relação a sua estreia na Coreia do Sul, Expresso do Amanhã chega aos cinemas brasileiros pintando um insano, exótico e universal retrato sobre a desigualdade social ao redor do mundo. Levantando reflexivas questões a cerca do abismo que separa ricos e pobres, o criativo diretor Bong Joon-Ho (O Hospedeiro) adota uma pegada surrealista ao mostrar através da divisão estrutural de um trem o impacto das injustiças sociais na rotina de um marginalizado grupo de sobreviventes. Propondo um anárquico e violento duelo de classes em um gélido futuro pós-apocalíptico, o realizador asiático nos convida a embarcar numa viagem tensa, irônica e absolutamente original, criticando a partir de espertas metáforas não só o papel do Estado, como também a nossa própria conduta diante desta alegórica representação da vida em sociedade.


Inspirado na graphic novel francesa "Le Transperceneige", de Jean-Marc Rochette e Jacques Loeb, Bong Joon-Ho esbanja ousadia ao conduzir este estilizado Sci-Fi. Reconhecido pelos instigantes O Hospedeiro (2006) e Mother (2009), o diretor sul-coreano exibe novamente completo domínio criativo sobre a sua produção, flertando de maneira orgânica com a ficção científica, a ação, o suspense, a fantasia e até mesmo com o tom satírico. Valorizando a imprevisibilidade desta premissa, o argumento assinado por Joon-Ho, ao lado de Kelly Masterson, se passa em um futuro não muito distante. Sofrendo com o aquecimento global, os governantes resolveram se unir e lançaram no espaço uma substância que poderia revitalizar o nosso clima. Ao invés de salvar a população, no entanto, o CW7 só acelerou a chegada da era glacial, destruindo a maior parte da vida no nosso planeta. Os poucos sobreviventes encontraram refúgio num expresso chamado Snowpiercer, um trem praticamente indestrutível que vagava ao redor do mundo mantendo vivos os últimos habitantes da Terra. Sob a opressão do sistema de castas, enquanto os mais pobres viviam em condição de miséria no último vagão, sobrevivendo com alimentação escassa e servindo de mão de obra, os mais ricos viviam luxuosamente nos vagões da frente. Indignado com a situação do seu grupo, Curtis (Chris Evans) resolve se erguer contra esta estrutura social. Ao lado do seu mentor Gilliam (John Hurt), do fiel Edgar (Jamie Bell), da corajosa Tanya (Octavia Spencer) e de um surtado ex-chefe de segurança (Kang-ho Song), o rebelde fará de tudo para reorganizar o equilíbrio desta locomotiva, nem que para isso precise chegar ao primeiro vagão e acabar com a tirânica liderança de Wilford (Ed Harris). 


Visualmente irretocável, Expresso do Amanhã é magistral ao pincelar esta fábula sobre o modo de vida em sociedade. Através de protagonistas complexos, que se revelam gradativamente durante esta brutal "ascensão" social, Bong Joon-Ho é perspicaz ao valorizar o senso estético, sem deixar de lado as questões narrativas. Mantendo o espectador sempre instigado, a cada vagão "dominado" pelos revolucionários conhecemos um pouco mais da rotina desta máquina, sendo apresentados a cenários primorosamente exóticos, contrastantes e repletos de personalidade. Indo do lixo ao luxo com inspiração, ponto para a caprichada direção de arte e para a excelente fotografia, Joon-Ho recorre a soluções brilhantes, abraçando o surrealismo ao criar espaços como o incrível vagão aquário, o colorido vagão escola e o extravagante vagão boate. Além disso, o realizador sul-coreano carrega também na construção dos excêntricos integrantes da "elite" desta locomotiva, criando tipos como a radiante professora grávida (Alison Pill), a fria assistente de Wilford (Emma Levie) ou asquerosa ministra Mason (Tilda Swinton). Esta última, aliás, graças à magnífica presença de Swinton, entrega algumas sequências impagáveis. Na melhor delas, tal qual uma aeromoça, ela explica gestualmente qual é o lugar dos "miseráveis" dentro do trem. Em meio a cenários originais e interessantes personagens, Joon-Ho é maduro ao se aprofundar nas engajadas questões sociais levantadas pelo precioso argumento. Valorizando a tensão em torno deste "duelo de classes", o realizador é sagaz ao se desvencilhar das bandeiras políticas, criticando a partir desta expressiva alegoria não só as evidentes desigualdades sociais, mas também o papel dos governantes dentro desta realidade, o voraz poder do capital\elite e a inércia da sociedade perante a ineficiência do Estado.


A partir de consistentes metáforas sociais, à medida que os rebeldes vão avançando dentro da composição, o roteiro abre brechas para a reflexão sobre temas como os perigos do assistencialismo, a acomodação social e o processo de manipulação das massas. Vide a lúdica e perturbadora sequência do colégio, em que uma afetada professora ensina aos mais jovens o quão "heroico" e "salvador" é o Sr. Wilford, dando a ele um status quase messiânico. Por outro lado, na ânsia de priorizar a revolução, o longa esbarra em nítidos problemas de acabamento. Entre algumas falhas mais bobas, como os corpos que somem após uma sangrenta luta, ou os "figurantes" que não partem para a briga no clímax, o argumento deixa de responder algumas questões curiosas a cerca deste pitoresco cenário. Além disso, ainda que a mensagem final seja pertinente, o discurso adotado no clímax não é propriamente uma novidade dentro do gênero, rendendo uma breve reviravolta que fica um degrau abaixo dos eletrizantes dois primeiros atos. Nada que atrapalhe o andamento da trama, até porque o diretor sul-coreano compensa esses pequenos deslizes acertando na (des)construção dos protagonistas. Contando com a poderosa atuação de Chris Evans (Capitão América), o seu Curtis está longe de ser o herói previsível que muitos esperavam. Guardando algumas surpresas, principalmente na sua relação com o ótimo Jamie Bell, Evans captura com sinceridade a humanidade do seu personagem, um rebelde errático que parece não aceitar a posição de líder. Quem rouba a cena, no entanto, é o astro asiático Kang-ho Song. Ao lado da jovem Ah-sung Ko, que vive a sua desligada filha Yona, ele tira proveito da versatilidade de Joon-Ho ao dar vida a um tipo viciado que só cresce ao longo da projeção. Os três, inclusive, já haviam trabalhado juntos em O Hospedeiro.


Apresentando uma mistura de gêneros pouco usual para os padrões ocidentais, o longa recorre organicamente tanto a violência 'gore', quanto as ácidas doses de ironia, Expresso do Amanhã funciona seja como uma poderosa crítica social, seja como um tenso Sci-Fi pós-apocalíptico, seja como um entretenimento de altíssima qualidade. Embalado por sufocantes cenas de ação, a caótica sequência na escuridão é digna de aplausos, o sul-coreano Bong Joon-Ho entrega um trabalho genuinamente impressionante, que parece ganhar fôlego a cada novo vagão visitado. Ainda que esbarre em pequenos deslizes, meros detalhes que poderiam ser melhor lapidados, o longa nos faz refletir através de uma viagem rumo à igualdade, pincelando um retrato social distópico, alegórico e aparentemente futurístico, mas que em sua essência se assemelha assustadoramente com as mazelas da nossa realidade.

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