sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Quarteto Fantástico

Jovem e talentoso elenco eleva o nível deste problemático reboot


Recorrendo mais uma vez ao tom introdutório, o que inesperadamente não se revela um grande problema, o novo Quarteto Fantástico esbarra nas suas próprias e confusas intenções. Abraçando num primeiro momento a atmosfera Sci-Fi por trás da formação deste icônico supergrupo da Marvel, que ganha corpo de maneira soturna e completamente distante da rasa primeira adaptação de 2005, o longa dirigido por Josh Trank (Poder sem Limites) se rende pouco a pouco às mais batidas fórmulas do gênero, sofrendo uma abrupta mudança de tom ao tentar valorizar a aventura em detrimento dos interessantes dilemas propostos. O resultado é um longa que falha justamente no seu ápice, oferecendo um clímax preguiçoso, sequências de ação genéricas e efeitos especiais que verdadeiramente funcionam na fantástica caracterização do quarteto. Ainda assim, apesar da nítida "crise de personalidade" do argumento, o reboot é certeiro na escalação do elenco, encontrando no jovem e talentoso time de atores o seu mais precioso trunfo.

Convivendo com muitos problemas durante a complicada fase de pós-produção do longa, já que a Fox teria torcido o nariz para a primeira versão da película e exigido algumas refilmagens, Josh Trank parece ter perdido as rédeas do seu próprio filme. Trazendo consigo o rótulo de promessa pelo original Poder Sem Limites (2012), um título de médio orçamento que de forma realística acompanha a jornada de três jovens e a descoberta dos seus incríveis poderes, o realizador até tem a liberdade para reproduzir aqui a funcional atmosfera densa e sombria do seu primeiro trabalho. Evitando exaltar os superpoderes dos protagonistas, que nesta adaptação se mostram mais uma punição do que uma dádiva, Trank é igualmente habilidoso ao dar uma pegada mais intimista ao longa, se aprofundando nas nuances dos personagens e construindo com naturalidade a relação entre eles. O grande espaço dado ao desenvolvimento dos super-heróis, no entanto, logo se reflete no andamento da trama, que evidentemente promete bem mais do que cumpre ao se render a aventura somente no problemático último ato. Na verdade, por mais que a ação não tenha que ser necessariamente o carro chefe em um filme do gênero, o fato é que o longa não consegue explorar com destreza o lado mais heroico do quarteto, descartando por completo os alívios cômicos e o otimismo das HQ's de Stan Lee e Jack Kirby.


Com roteiro assinado pelo diretor, ao lado Simon Kinberg e Jeremy Slater, o novo Quarteto se inicia no ano de 2007, quando os ainda jovens Reed (Miles Teller) e Ben (Jamie Bell) criam uma máquina capaz de transportar objetos para uma realidade alternativa. O tempo passa os dois crescem e logo Reed chama a atenção do Dr. Storm (Reg E. Cathey), um cientista bem sucedido que encontra na invenção a chave para a sua grande obra. Trabalhando agora ao lado dos irmãos adotivos Sue (Kate Mara) e Johnny (Michael B. Jordan), e do gênio indomável Victor Von Doom (Toby Kebbell), Reed e o grupo fazem a tão cobiçada viagem para outra realidade. As coisas, porém, não saem como o esperado e os cinco são acometidos por uma estranha energia, passando por uma série de indesejadas mutações genéticas. Agora nas mãos dos militares, que se interessaram na possibilidade de explorar as novas e estranhas condições do grupo para fins bélicos, Johnny, Sue, Reed e Ben terão que deixar as diferenças de lado e se unir para não só encontrar uma forma de recuperarem as suas respectivas vidas, mas também de lutar contra uma enorme e nem tão desconhecida ameaça que está por vir.


Mesmo dando preferência ao elo de amizade entre Ben e Reed, que surgem ainda pequenos em cena numa sequência cativante, o argumento é ágil ao introduzir - mais uma vez - os cinco cientistas. Tirando um belo proveito da química entre os protagonistas, Trank evita banalizar as rixas entre eles, os integrando naturalmente durante um primeiro ato recheado de questões tecnológicas e de discussões mais intimas. Por mais que o roteiro não prime pelos bons diálogos, principalmente no que diz respeito as clichês lições familiares defendidas pela previsível figura do mentor, o realizador explora com fluidez a dinâmica ligação entre eles, destacando com leveza as crises de ciúme, os duelos de egos, as expectativas e as frustrações em torno destes jovens cientistas. Situações que crescem nas mãos do talentosíssimo elenco, capitaneado pelos expressivos Milles Teller, Jamie Bell e Michael B. Jordan. Ainda que a bela Kate Mara não comprometa, entregando uma performance segura como a inteligente Mulher Invisível, Teller convence ao reproduzir a integridade do Sr. Fantástico, Jordan é certeiro ao capturar o espírito indomável do Tocha Humana e Bell se revela a surpresa do longa ao se aprofundar com rara intensidade na reprimida figura do Coisa. Toda esta cuidadosa construção, no entanto, é destruída pela falta de tato do roteiro ao colocar o supergrupo em prática. Numa forçada mudança de ritmo, as aguardadas sequências de ação atropelam por completo estes dilemas mais íntimos e as questões envolvendo o pano de fundo bélico, oferecendo respostas superficiais, nada inspiradas e um clímax realmente decepcionante.


Frustração que se inicia com a unidimensional presença do antagonista Destino. Se enquanto "humano" Von Doom desponta como um dos personagens mais interessantes da película, flertando até mesmo com algumas reflexões existenciais, o seu alter ego vilanesco é raso e brota em cena sem qualquer tipo de motivação. Por mais que o competente ator Toby Kebbell (Planeta dos Macacos: O Confronto) se esforce, e que o visual dark do seu personagem funcione a contento, o vilão surge tardiamente em cena, com o intuito básico de destruir o mundo, tendo pouquíssimo tempo para ser minimamente desenvolvido. Pra piorar, as tão esperadas sequências de ação não são nada originais e pouco empolgantes, se distanciando por completo do padrão estabelecido pelas últimas produções do universo Marvel na Fox. Ainda que o visual do quarteto mereça elogios, com destaque para a elasticidade do Sr. Fantástico e para a aparência rochosa do Coisa, as cenas acontecem num ambiente escuro e são previsíveis, subaproveitando a dinâmica do supergrupo em batalha. Por outro lado, o diretor merece elogios pela maneira com que flerta com o suspense ao introduzir os superpoderes do grupo, criando algumas sequências realmente sombrias. Na mais impactante delas, após dar as caras em cena, Dr. Destino desfila os seus nefastos poderes nos corredores do QG em que o quarteto era "aprisionado". Apesar destes méritos, a impressão que fica é que com um orçamento quase dez vezes menor, Josh Trank conseguiu fazer muito mais na produção dos efeitos digitais em Poder Sem Limites. A critério de comparação, enquanto o seu longa de estreia custou cerca de US$ 12 milhões, o reboot teve um custo estimado em US$ 122 milhões.


Oferecendo uma abordagem cientifica para a origem deste clássico supergrupo da Marvel, Josh Trank faz deste Quarteto Fantástico um blockbuster que parece não crer no seu próprio potencial. Se perdendo em uma espécie de "dupla personalidade" narrativa, o realizador até prepara um envolvente terreno, se aprofundando na intimidade destes jovens cientistas e nas suas reações aos "indesejados" superpoderes, mas na hora de se agarrar as suas aparentes convicções o roteiro é "rasgado" em prol de cenas de ação genéricas e das velhas fórmulas do gênero. Em outras palavras, o longa acerta em cheio ao introduzir o quarteto, mas falha feio ao explorar o fantástico. O que, verdade seja dita, se revela um equívoco imperdoável, principalmente num ano em que sucessos como Jurassic World, A Era de Ultron, Velozes e Furiosos 7 e Mad Max - Estrada da Fúria nos levaram a euforia com sequências de ação absolutamente brilhantes.

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