sábado, 22 de agosto de 2015

O Pequeno Príncipe

Mais do que uma mera homenagem, longa promove uma encantadora ode à magia da infância

Longe de ser uma adaptação literal da obra de Antoine de Saint-Exupéry, a animação O Pequeno Príncipe cativa ao capturar com criatividade a essência deste clássico conto infantil. Visualmente irretocável, o longa dirigido por Mark Osborne (Kung Fu Panda) é encantador ao abordar de maneira lúdica alguns dos temas mais complexos por trás desta fábula, fazendo com que o livro e a jornada de uma rigorosa garotinha se cruzem numa adorável história de amizade e descobertas. Fiel aos diálogos mais icônicos do texto original, que ganham corpo com sensibilidade e extremo bom gosto, o argumento é habilidoso ao promover um ode à magia da infância, evidenciando através desta nova roupagem as dificuldades em se cultivar a inocência numa realidade cada vez mais cinza e hostil. 
Prestando uma bela homenagem ao trabalho de Saint-Exupéry, o argumento assinado por Irena Brignull (Os Boxtrolls) e Bob Persichetti foge do lugar comum ao inserir a jornada do Pequeno Príncipe num mecânico e pragmático cenário atual. Numa época em que a perda da inocência tem se tornando evidente junto as precoces novas gerações, o longa nos apresenta a uma regrada garotinha (Larissa Manoel, impecável na dublagem brasileira) que parece já ter o seu futuro planejado pela sua controladora mãe. Totalmente dedicada aos estudos e a uma rotina sem qualquer tipo de diversão, a obstinada jovem se mostra disposta a tudo para entrar numa conceituada nova escola. Após uma primeira negativa, a mãe decide se mudar para uma casa próxima a este colégio, fazendo das férias de verão da menina um período de ainda mais estudos para a sua segunda e última chance. Em meio a tamanha organização, no entanto, a jovem acaba conhecendo o seu extrovertido vizinho (num show de dublagem do experiente Marcos Caruso), um aviador idoso que não consegue tolerar o modo de vida da sua nova parceira de bairro. Tentando atrair a atenção da garotinha, ele começa a contar a história da sua vida para ela, mostrando através de personagens como uma raposa solitária, uma orgulhosa rosa e um ingênuo pequeno príncipe a importância de se valorizar o essencial da vida.
Mesmo abraçando com honestidade o ponto de vista lúdico, Mark Osborne é cuidadoso ao se apropriar do aspecto reflexivo por trás deste clássico da literatura infantil. Ainda que de maneira leve e fantástica, o argumento não deixa de abordar algumas das questões mais recorrentes da obra, encontrando na relação entre o idoso e a garotinha o caminho ideal para passear por temas como a amizade, o amadurecimento e até mesmo a morte. Propondo uma perspicaz inversão de lados, enquanto no original o ponto de vista adulto recai sobre o misterioso aviador, nesta nova versão é a rígida jovem que precisa ser cativada pela magia da infância. De longe um dos grandes méritos desta adaptação. Costurando livro e trama de maneira absolutamente fluída, o roteiro cresce à medida que a menina redescobre a diversão através das passagens de O Pequeno Príncipe, que se mostram completamente atemporais ao dialogar com os dilemas em torno da sisuda e inegavelmente atual realidade pintada pelo longa. Em meio a interessante discussão a cerca do que é "essencial" nos dias de hoje, a película revela a sua singeleza ao sair em defesa da valorização da inocência, deixando claro que "o problema não é crescer, é esquecer". Na ânsia de oferecer um produto mais universal, no entanto, o realizador esbarra levemente no condescendente último ato, quando tenta oferecer a versão da garotinha para o destino do pequeno príncipe. De maneira bem menos poética, Osborne se rende a um clímax mais aventureiro, ideal para a criançada de plantão, mas que se distancia da sensibilidade dos dois primeiros atos.
Apesar dos pequenos deslizes em torno desta releitura, que mesmo não sendo tão inspirada é leal a crítica proposta pelos roteiristas, O Pequeno Príncipe realmente encanta por seu extraordinário senso estético. Recheado de soluções criativas, Mark Osborne é habilidoso ao trabalhar tanto com a expressiva técnica do Stop-Motion, quanto com a animação digital, diferenciando com extremo bom gosto as passagens do livro da jornada da simpática garotinha. Com uma bela paleta de cores, o realizador é criativo ao pintar num primeiro momento um universo formal, rigoroso, onde um bairro mais parece uma espécie de engrenagem, repleta de casas simétricas, cinzas e movimentos repetitivos. Numa das melhores sequências do longa, a adorável jovem pega a sua bicicleta e corre pela chuva neste cenário nitidamente nebuloso, comprovando a delicadeza de Osborne ao explorar os momentos mais densos do roteiro. Impecável ao conceber esta objetiva versão da nossa realidade, a equipe de animação é igualmente brilhante ao reproduzir a ingenuidade deste celebrado conto, criando um contraste admiravelmente orgânico. Apostando agora em paisagens coloridas e em personagens visualmente carismáticos, cada um dos elementos da obra de Saint-Exupéry ganha corpo de maneira irretocável, numa versão particular, mas extremamente fiel aos traços originais. Com movimentos caprichados e uma presença naturalmente magnética, personagens como o pequeno príncipe, a rosa, a serpente e a raposa só trazem mais peso ao filme, reproduzindo com enorme dignidade trechos do poderoso texto do escritor francês. Vale destacar, aliás, que o último ato é visualmente magnífico, nos levando a uma visão mais dark e pessimista de um mundo corrompido pela ganância e sem o brilho da infância.
Trazendo frescor a obra original ao escalar uma garotinha como a personagem central, no livro cabe a rosa a missão de ser a única protagonista feminina, O Pequeno Príncipe resgata com extrema sutileza a essência do conto, absorvendo com leveza as mais preciosas lições do aviador Saint-Exupéry. Contando com a aprovação da família do escritor francês, a animação dirigida por Mark Osborne comove ao trazer para a nossa realidade esta cativante história, nos inspirando ao abraçar a fantasia e mostrar a importância de se valorizar aquilo que é realmente essencial dentro das nossas vidas. Uma mensagem deixada há mais de sete décadas, durante um grande conflito mundial, mas que ainda hoje funciona como uma palavra de alerta e esperança para todas as gerações.

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