sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Franco-Atirador

Talentos desperdiçados

Procurando repetir as fórmulas que o consagraram com o envolvente Busca Implacável (2008), o competente diretor Pierre Morel atesta em O Franco-Atirador que um raio dificilmente cai duas vezes num mesmo lugar. Voltando a atividade após um hiato de quase quatro anos, tempo em que se dedicou a produção e direção na TV, o realizador francês se esforça para fazer com o astro Sean Penn (Milk) o exitoso caminho que já havia trilhado com Liam Neeson, introduzindo um experiente ator dramático no vigoroso universo do cinema de ação. Enquanto Neeson aproveitou como poucos a (ótima) chance que teve, se tornando um dos principais nomes do gênero na atualidade, Penn parece não ter tido a mesma sorte e vê o seu bom desempenho ficar comprometido neste problemático thriller. Por mais que Morel mostre mais uma vez categoria ao construir intensas cenas de ação, dando ao ator americano a chance de surpreender com uma impecável entrega física, o oscilante argumento realmente não funciona como deveria, pecando ao abrir mão de uma interessante premissa para se concentrar numa condescendente jornada de redenção em meio a um insosso triângulo amoroso.


Se distanciando da simplicidade de 'Busca Implacável', que conquistou o público ao narrar a desesperada busca de um pai pelo paradeiro de sua filha sequestrada, Pierre Morel trabalha aqui com uma trama aparentemente mais elaborada. Inspirado no romance policial "The Prone Gunman", do escritor Jean-Patrick Manchette, o roteiro assinado por Don MacPherson, Pete Travis e Sean Penn tenta criar um promissor clima de conspiração envolvendo as grandes corporações, e a influência voraz das mineradoras na violenta realidade do Congo. Na trama, após se envolver num assassinato de um governante local, o mercenário Terrier (Sean Penn) é obrigado a deixar o país às pressas sem se despedir de sua namorada, a médica humanitária Annie (Jasmine Trinca). Contando com o duvidoso apoio de Felix (Javier Badem), um dos seus superiores em solo africano, o atirador viaja à Inglaterra acreditando que ele poderia dar total apoio a sua mulher. Oito anos se passam e Terrier volta ao Congo com a intenção de se redimir. Sem qualquer tipo de contato com Annie, ele se torna uma espécie de supervisor de obras, gerenciando uma escavação que poderia levar água para as regiões mais secas. Ainda abalado pelas trágicas consequências do seu crime, Terrier entra novamente em contato com o seu nefasto passado quando um grupo rebelde tenta assassina-lo. Acreditando que esta seria um morte encomendada, ele parte para a Europa para encontrar o verdadeiro mandante, entrando assim num feroz jogo de gato e rato envolvendo um traidor e a empresa para qual prestava os seus "serviços".


Ainda que as primeiras cenas deixem uma impressão realmente positiva, acompanhando os dilemas de Terrier neste cenário marcado pela violência e pelo conflito civil, pouco a pouco o roteiro abre mão deste contexto sócio-político para se concentrar numa requentada e convencional jornada de redenção. Por mais que Sean Penn se esforce para dar alguma intensidade ao seu personagem, o argumento não parece muito disposto em explorar os seus traumas, pecando pela forma superficial com que destaca os reflexos do assassinato na vida do atirador. Em meio a soluções completamente ilógicas, vai entender porque em oito anos ele não deu sequer um telefonema para o seu grande amor, um dos primeiros pecados do longa fica pela falta de empatia do protagonista. Na verdade, mesmo sabendo que Terrier não tinha a exata noção do seu alvo na fatídica missão, fica difícil se identificar com um mercenário enviado para a África para treinar os sanguinários rebeldes e matar em nome das grandes mineradoras. Pra piorar, na tentativa de humaniza-lo, a trama se escora em clichês absolutamente baratos, apostando numa misteriosa doença que - sem querer revelar muito - acaba sendo utilizada de maneira extremamente conveniente dentro da trama. Nenhum destes problemas, no entanto, incomoda tanto quanto a subserviência da protagonista vivida por Jasmine Trinca. Dando vida ao tipo "donzela indefesa", a atriz não tem lá grande função na trama, rendendo alguns momentos difíceis de digerir. O diálogo em que a sua personagem explica o que a levou a se casar com Felix, por exemplo, chega a ser constrangedor. Para uma humanitária, aliás, Annie aceita surpreendentemente bem a "profissão" do seu amor.


Por falar nela, apesar do aparente senso de urgência envolvendo a busca pelo mandante desta "queima de arquivo", o argumento abre generosas brechas para explorar o forçado triângulo amoroso entre Terrier, Annie e Felix. Ainda que esta relação culmine num dos melhores momentos do longa, a impressão que fica é que o trio não funciona, quebrando em muitos momentos o ritmo da história. Menos mal que a atuação de Javier Badem é um dos pontos altos da película, principalmente pela forma como o ator consegue capturar a aura ambígua deste personagem. Por outro lado, apesar dos altos e baixos da trama, Pierre Morel mostra categoria ao conceber as impactantes cenas de ação, realizando um longa tecnicamente bem resolvido. Tirando um belo proveito da entrega física de Penn, que oscila habilmente entre o fragilizado e o letal, as sequências são ágeis, brutais e muito bem filmadas, evidenciando a competência do realizador francês no gênero. Méritos que, diga-se de passagem, precisam ser divididos com a bela fotografia do espanhol Flavio Martínez Labiano (Desconhecido), que capricha nas cores ao acompanhar as viagens de Terrier pela Europa. Tendo em mãos um problemático roteiro, Morel faz o possível para tirar o máximo de seus atores, o que se torna evidente no tenso clímax. Ainda assim, mesmo com este nítido esforço, ele não consegue impedir que nomes como os de Idris Elba e Ray Winstone sejam subaproveitados pela trama.


Falhando na tentativa de criar um novo anti-herói, que aqui ganha contornos excessivamente indulgentes e um senso de justiça questionável, O Franco-Atirador peca pela completa falta de ousadia. Abrindo mão das engajadas discussões politicas e da dramaticidade sugerida nas primeiras cenas, o longa prefere seguir por um lugar comum, se mantendo fiel aos mais incoerentes clichês do gênero. Mesmo não sendo uma perda de tempo, já que as boas cenas de ação e o competente time de atores funcionam a contento, a impressão que fica com o subir dos créditos é que o talento de nomes como os de Sean Penn, Idris Elba, Javier Badem e do próprio Pierre Morel acabam desperdiçados num thriller de ação previsível, desequilibrado e, acima de tudo, sem alma.


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