segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cinemaniac Indica (Refém da Paixão)


Uma mulher depressiva, um filho solitário, um fugitivo misterioso. Em torno deste trio de personagens nasce Refém da Paixão, um romance com toques de suspense que envolve pela forma sutil e inocente com que constrói esta improvável história de amor. Narrado sob o ponto de vista de um afetuoso jovem, o diretor Jason Reitman (Juno) deixa as suas tramas 'indie' de lado e mostra maturidade ao desenvolver uma trama recheada de questões mais profundas. Demonstrando habilidade ao manter o clima de mistério em torno desta relação, com direito a reviravoltas bem construídas e personagens multidimensionais, o longa encontra nas naturais atuações de Josh Brolin, de Kate Winslet e do jovem Gattlin Griffith a força necessária para trazer veracidade a uma trama naturalmente reflexiva e sentimental.

Lidando com temas como a separação, a traição, a depressão e a solidão, o argumento assinado pelo próprio Reitman, inspirado na obra de Joyce Maynard, é competente ao se aprofundar nestas questões sem perder o foco central da trama: os reflexos de uma vida marcada por tragédias. Se esforçando para manter os segredos por trás dos personagens, somos então apresentando ao jovem Harry (Griffith), um adolescente inteligente que passou a ser o "homem" da casa após os pais se separarem. Principal alicerce da mãe, a sofrida e reclusa Adele (Winslet), Harry se esforça para fazer o papel de "marido", tentando trazer alguma felicidade a ela. Aproveitando o feriado do Dia do Trabalho, mãe e filho vão ao supermercado para fazer as compras do mês. Lá, eles acabam esbarrando no misterioso Frank (Brolin), um fugitivo ferido que pede "ajuda" aos dois. Temendo que ele pudesse machuca-los, Adele decide leva-lo para sua casa e cuidar dos seus ferimentos. Pouco a pouco, no entanto, o medo vai se tornando afeto, principalmente quando Frank se revela um zeloso e respeitável homem. Temendo que a policia o encontre, Adele e Frank iniciam uma relação que viria a mudar não só a rotina dos dois, mas principalmente a vida de Harry.


Trabalhando muito bem com a figura do narrador, neste caso o adulto Harry (Tobey Maguire), Reitman recorre a uma bem sucedida atmosfera pueril ao desenvolver este romance sob um ponto de vista infantil. Numa espécie distorcida de conto de fadas, onde o "príncipe" e a "princesa" carregam sentimentos completamente humanos, o realizador não tem pressa para revelar os motivos que levaram Adele e Frank as suas situações. Através de bem aplicadas doses de tensão, o argumento gradativamente revela as camadas destes dois personagens, encontrando em eficientes flashbacks e no poder de sugestão uma alternativa eficaz de manter o espectador sempre a espera de uma nova informação. Em meio a conflitos tão intensos, no entanto, é interessante ver como este caso ganha contornos incompreendidos na visão do jovem Harry, trazendo uma incompatível amenidade e doçura para esta passional relação. Numa vibrante atuação, Gattlin Griffith (A Troca) traz uma incrível energia à trama, interpretando um pré-adolescente ávido por respostas para os seus medos e inseguranças. Um desempenho que contrasta impecavelmente com a densidade do casal vivido por Kate Winslet e Josh Brolin. Enquanto Brolin brilha ao construir um tipo cheio de nuances, daqueles que provocam as mais diversas sensações, Winslet desfila o seu talento ao dar vida a uma mulher machucada pelo tempo. Sempre magnética, mesmo numa personagem castigada pelo sofrimento, ela se torna a força motora do longa, comovendo pela forma intensa com que passeia pelas oscilações emocionais de sua Adele.


Ainda que peque pelo final exageradamente condescendente, que parece não combinar muito com os espinhosos dois primeiros atos e com o avassalador clímax, Refém da Paixão (que péssimo título) impressiona pela forma singela com que desenvolve esta relação repleta de pré-conceitos e cicatrizes mal curadas. Se apoiando na capacidade do elenco, que conta ainda com nomes como os de Clark Gregg (o agente Coulson de Os Vingadores) e J.K Simmons (o temido maestro de Whiplash), e na caprichada direção de arte, que transporta o espectador para um caloroso verão da década de 1980, Jason Reitman mostra estofo para explorar temas mais sérios, construindo um fugaz e aparentemente utópico caso de amor movido pelas trágicas experiências deste casal. 

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