segunda-feira, 6 de abril de 2015

Cada um na sua Casa

Adorável do incio ao fim, longa apresenta o universo Sci-Fi para a criançada
Embalado pelos hits da cantora Rihanna, que além da participação na trilha sonora é a dubladora original da vibrante Tip, Cada um na sua Casa é uma daquelas gratas surpresas que os estúdios de animação têm oferecido para o seu público. Se escondendo atrás de uma premissa simples e nitidamente voltada aos mais jovens, com direito a piadas infantis e sinceras lições de moral, a nova aposta da Dreamworks é certeira ao construir uma singela e intergaláctica fábula de aceitação. Demonstrando inspiração ao explorar a dinâmica parceria entre uma humana solitária e um alienígena deslocado, a aventura dirigida por Tim Johnson (Formiguinhaz) conquista não só pelo fantástico aspecto visual, a riqueza de detalhes e cores do chama a atenção, mas também pela criativa reprodução do universo Boov criado pelo escritor Adam Rex. Com destaque máximo para o adorável Oh, uma espécie de Sheldon Cooper amável e espacial.

Ainda que peque pela falta de ousadia narrativa, o leve e bem intencionado argumento se esforça para fugir dos clichês envolvendo a relação entre humanos e alienígenas. Inspirado no livro 'The True Meaning of Smekday', os roteiristas Tom J. Astle e Matt Ember são espertos ao capturarem a essência desta obra infantil, que propõe um divertido cenário ao mostrar a Terra já invadida. Nesta realidade distópica, os humanos foram transferidos para grandes centros de habitação, deixando as suas casas para o grupo de extraterrestres chamados Booves. Liderados pelo extravagante Capitão Smek (Steve Martin), uma espécie de Rei Julian do espaço, esta nação de criaturas fofas se acostumou a fugir pela galáxia, sempre temendo o confronto com os temidos Gorg. Classificando o nosso planeta como o esconderijo perfeito, os Booves passam a ver os seus planos ameaçados quando o extrovertido Oh (Jim Parsons), um alien rejeitado por sua personalidade afetiva, revela por acidente o paradeiro do grupo. Perseguido por sua própria raça, Oh acaba cruzando o caminho da corajosa Tip (Rihanna), uma das poucas humanas que não foram abduzidas. Disposta a reencontrar a sua mãe, que não teve a sua mesma sorte, Tip decide dar uma chance para Oh, iniciando assim uma amizade que passará por muitos altos e baixos.


Através desta premissa quase descompromissada, Cada um na sua Casa é habilidoso ao construir esta relação entre Tip e Oh. Brincando com a adaptação dos alienígenas no nosso planeta, os objetos terráqueos ganham uma engraçada nova função nas mãos dos extra-terrestres, o competente primeiro ato não perde muito tempo com explicações baratas ou introduções exageradas. Em poucas cenas já sabemos o quão frios e medrosos são as coloridas criaturas, e os motivos que levaram Oh a ser tratado com certo desprezo por seus companheiros. Apostando em algumas soluções textuais espertas, as palavras inventadas pelo alien são um prato cheio para a criançada, a grande sacada da trama fica pela dinâmica relação dos protagonistas. Apesar de passarem por situações semelhantes, tanto Oh quanto Tip sofrem com o bulliyng em seus respectivos mundos, as diferentes personalidades dos dois dão um ar todo particular a esta amizade. Contrastando a falta de valentia inerente aos Booves com a perseverança da adolescente, o argumento dá uma sensível guinada no último ato, optando por uma singela mudança de tom ao mostrar que o caminho mais fácil nem sempre é o mais certo. Na verdade, ainda que a trama não pareça muito disposta em se aprofundar nos sentimentos dos personagens, é no carisma destes dois personagens que o longa acaba se apoiando.


A começar pela opção de colocar uma garota negra como a heroína, fato raro dentro da animação. Jogando a palidez das princesas para escanteio, o que não acontecia desde A Princesa e o Sapo (2009), Tim Johnson não se contenta em apresentar uma personagem distante dos padrões étnicos do gênero, fazendo de Tip uma jovem atual e completamente independente. Uma escolha que, diga-se de passagem, é muito bem explorada pela equipe de animadores, que apresenta um belíssimo trabalho na concepção desta personagem. Com destaque para o detalhismo em torno dos cachinhos dela, que ganham movimentos extremamente verossímeis e se tornam um dos traços mais autorais desta animação. Se Tip chama a atenção por sua energia, Oh é um daqueles personagens absolutamente indispensáveis. Disposto a compreender as emoções dos humanos, o alienígena ganha uma identidade realmente atraente, que muito se assemelha ao principal personagem do seu dublador, o hilário Jim Parsons. Assim como o excêntrico Sheldon Cooper da série cômica The Big Bang Theory, Oh coloca as suas vontades em primeiro lugar, tem uma grande dificuldade para entender piadas\expressões, e possui um humor altamente oscilante. O maleável extraterrestre, inclusive, troca de cor a cada emoção sentida, tal qual Sheldon e as suas camisas coloridas. Qualquer semelhança, definitivamente, não é mera coincidência.


Soluções criativas que se repetem no aspecto visual do longa. Apostando em cenários ultra-coloridos, na fofura dos personagens e nos funcionais takes aéreos, a equipe de animadores é virtuosa ao adaptar este universo espetacular para as telonas. Mesmo não se apoiando em empolgantes sequências de ação, a exceção fica pela ótima cena de fuga em Paris, é interessante ver a capacidade do longa em explorar alguns populares elementos do Sci-Fi, utilizando as noções gravitacionais como um aliado poderoso para o bem sucedido 3-D. Evitando se render a figura do antagonista, por si só uma opção corajosa, Cada um na sua Casa é um humano e despretensioso conto sobre a integração cultural. Ainda que se apoie em algumas soluções realmente simplórias, o diretor Tim Johnson se redime no surpreendente último ato, evidenciando os perigos envolvendo questões como o bullying, a parcialidade e o desrespeito à diferença. Uma bela e contextualizada mensagem pra criançada.

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