quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

De Batman a Birdman, Michael Keaton entra no caminho das grandes premiações


Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia ou Musical e indicado ao Oscar de Melhor Ator, Michael Keaton parece ter encontrando em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) o caminho para as grandes premiações. Escolhido a dedo pelo diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu, que inclusive já veio a público diversas vezes para confirmar que o longa sequer sairia do papel em caso de recusa do ator, ele reconquistou Hollywood através de um personagem que dialoga diretamente com os altos e baixos de sua obra. Reconhecido pelos fãs como o Batman de Tim Burton, Keaton, num daqueles casos em que a arte parece imitar a vida, ganha uma nova chance para brilhar ao interpretar um ator decadente que convive com a sombra de um super-herói do passado. Aproveitando a estreia de Birdman, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (29), conheça as muitas facetas da carreira deste versátil ator.
Keaton em seu primeiro grande papel.
Aos 63 anos, o norte-americano Michael Keaton viveu as muitas nuances em torno do sucesso. Antes de se destacar em algumas séries de TV, o ator chegou a ser manobrista e garçom. As coisas, no entanto, começaram a mudar com o bom desempenho na comédia Dona de Casa por Acaso (1983), onde estrelou um roteiro do ainda novato John Hughes. Apesar das poucas expectativas da Universal, o longa faturou mais de US$ 64 milhões em solo norte-americano, tornando Michael Keaton uma realidade dentro do gênero, e permitindo que John Hughes assinasse o primeiro grande contrato com o estúdio. Empurrado por este trabalho, Keaton seguiu se destacando dentro da comédia através de longas de menor impacto como Johnny, O Gângster (1984), Fábrica de Loucuras (1986), no seu segundo trabalho com o diretor Ron Howard, Encontro Fatal (1986) e no questionado Os Trapaceiros da Loto (1987). Porém, quando esta fase cômica parecia perto de ruir, Keaton alcançaria o verdadeiro sucesso comercial ao iniciar uma improvável parceria com o diretor Tim Burton. 

O voo do Homem Morcego

Batman e Beetlejuice:  os personagens da vida de Keaton?
No primeiro expressivo trabalho deste gótico realizador, que curiosamente havia se destacado com o inocente As Grandes Aventuras de Pee-Wee, o ator ganhou um dos personagens mais importantes de sua carreira em Os Fantasmas se Divertem (1988). Interpretando o ácido, desbocado e irreverente Beetlejuice, um sarcástico fantasma que expulsava os vivos de suas casas, Michael Keaton comprovou aos críticos que poderia ser muito mais do que um representante das comédias convencionais. Embalado pelos US$ 73 milhões nas bilheterias norte-americanas, um valor elevado para um longa recheado de humor negro, esta corrosiva atuação o conduziu ao personagem de sua vida em Batman (1989). Numa escolha altamente polêmica, que levou os produtores da Warner e os fãs mais histéricos a se posicionarem contra a opção de Tim Burton, Keaton deixou para trás o passado nas comédias e a aparente fragilidade física para compor um dos melhores Batman's que o cinema já viu. Conseguindo reproduzir o verdadeiro lado obscuro do Homem-Morcego, o ator se tornou um dos principais trunfos desta sombria versão cinematográfica, que faturou mais de US$ 411 milhões nas bilheterias internacionais. O estrelato finalmente havia batido à sua porta. 
Michael Keaton se arrisca no drama em Minha Vida.
Prova disso é que Michael Keaton voltaria a brilhar como o herói da DC em Batman: O Retorno (1992). Novamente sob o comando de Tim Burton, a continuação faturou mais de US$ 266 milhões em todo mundo, consolidando o seu status de astro hollywoodiano. Com a sua carreira em um novo patamar, Keaton passaria a arriscar voos mais altos. Ao mesmo tempo em que seguiu se dedicando ao gênero que o consagrou, nas comédias O Jornal (1994), novamente sob o comando de Ron Howard, Apenas Bons Amigos (1994) e Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias (1996), o ator mostrou a sua versatilidade em outros gêneros, estrelando o elogiado drama Minha Vida (1993), o thriller Jackie Brown (1997) e o suspense Medidas Desesperadas (1998). Curiosamente, apesar de ter uma década de noventa bastante participativa, com algumas boas bilheteria e filmes regulares, Keaton não conseguiu repetir em nenhum momento o sucesso de Batman ou Os Fantasmas se Divertem, iniciando assim a vertiginosa queda de prestígio de sua carreira.

De super-herói à "escada" de adolescentes em ascensão

Keaton no suspense Vozes do Além.
Após os fracassos de Medidas Desesperadas (1998), que conseguiu modestos US$ 13 milhões, e da aventura infantil Uma Noite Mágica (1998), que custou US$ 80 milhões e faturou somente US$ 34 milhões, Michael Keaton perdeu espaço nas grandes produções. Em meio a pequenos filmes, como A Um Passo da Glória (2000) e Armadilha Internacional (2003), o ator só voltaria a ser elogiado no telefilme da HBO Ao Vivo de Bagdá, conseguindo uma indicação ao Globo de Ouro como Melhor Ator em Minissérie ou Filme pra TV. Esse sopro de esperança, no entanto, não teve consequências mais diretas nos próximos trabalhos. Aproveitando o sucesso de longas como O Chamado e O Grito, Keaton tentou a sorte no suspense paranormal em Vozes do Além (2005). Apesar do filme ter conseguido um bom desempenho nas bilheterias, faturando mais de US$ 91 milhões em todo mundo, os críticos pegaram pesado com o longa que teve 8% de aprovação no respeitado site Rotten Tomatoes.


Com poucos papéis de destaque à disposição, Michael Keaton acabou aceitando alguns personagens que serviram de suporte para estrelas adolescentes em ascensão. Foi assim em A Filha do Presidente (2004), onde viveu o pai de Katie Holmes, no divertido Herbie: Meu Fusca Turbinado (2005), em que contracenou com a garota problema Lindsey Lohan, e no inexpressivo Recém-Formada (2009), dividindo a tela com a jovem Alexis Bledel. Pra piorar, Keaton obteve ainda um péssimo resultado na sua única investida como diretor no drama Má Companhia (2008). Como se não bastasse a irrisória bilheteria, o longa conseguiu pouco mais de US$ 345 mil nos EUA, o processo de pós-produção foi cercado de polêmicas. Acusado de ir pescar durante o processo de edição, Keaton e os produtores teriam entrado em consenso com relação a qualidade duvidosa da primeira versão. O ator até se ofereceu para conduzir uma segunda montagem, mas os produtores se anteciparam e chamaram o roteirista para desenvolver a sua própria versão. Irritado, ele se afastou da produção e exigiu que o seu corte final fosse o apresentado no Festival de Sundance, o que acabou acontecendo. Em 2013, no entanto, este imbróglio voltou aos noticiários quando a produtora Merry Gentleman LLC resolveu processar o ator. Acusando Keaton de falta de comprometimento, a empresa busca na justiça o ressarcimento pelo fracasso comercial deste longa.

Trabalhos na dublagem e o dedo de um brasileiro contribuem nesta volta por cima

Gary Oldman e Michael Keaton roubam a cena em Robocop.
Em meio a esses problemas e trabalhos em pequenas produções, Michael Keaton só voltaria a se destacar nos grandes filmes emprestando a sua voz para personagens animados. Foi assim em Carros (2006), onde dublou o personagem Chick Hiks, e no ótimo Toy Story 3, em que emprestou a sua voz ao afetado e interessante Ken (2010). Apesar de também ter se destacado como coadjuvante na comédia Os Outros Caras (2010), foi somente no ano passado que a carreira de Michael Keaton voltaria a ser redescoberta. Contando com a ajuda do diretor brasileiro José Padilha, o ator iniciou o ano em grande estilo ao roubar a cena em Robocop (2014). Nesta nova versão do clássico cibernético do holandês Paul Verhoeven, Keaton ganhou muitos elogios ao dar vida a uma espécie de sátira do inventor e empresário Steve Jobs.

Keaton celebra a vitória no Globo de Ouro. (Foto: Getty Images)
Porém, foi mesmo através de Birdman que o ator voltaria de vez ao caminho das grandes premiações. Elogiado desde a primeira exibição no Festival de Veneza em 2014, onde foi aclamado pela crítica especializadas, Michael Keaton encontrou no decadente e egocêntrico astro Rigan Thomson o papel que lhe renderia uma série de prêmios e nomeações, incluindo a vitória no Globo de Ouro, e as indicações ao Oscar, ao BAFTA e ao SAG AWARDS. Um personagem feito à medida para o competente Michael Keaton, que após viver sob a inevitável sombra do Homem Morcego, ganhou no Homem-Pássaro uma chance de conseguir dar um novo voo rumo aos holofotes de Hollywood. 

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