sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Festival do Rio (Mommy)


O amor e o seu fardo

Vencedor do prêmio do Júri no Festival de Cannes, Mommy marca a volta do jovem diretor, roteirista e produtor Xavier Dolan aos dramas familiares. Utilizando parte de sua problemática experiência na relação com a própria família, temática recorrente na já destacável filmografia do realizador de 25 anos, o canadense aposta numa fábula futurística para comover através da angustiante relação entre um adolescente de temperamento instável e a sua imatura mãe. Demonstrando perícia ao conduzir essa complexa relação, repleta de agressões e afeto, Dolan comprova o seu talento num longa vigoroso, marcado por intensas atuações e soluções narrativas extremamente originais.

A começar pelas opções envolvendo o aspecto da tela. Optando por uma fotografia incomum, que remete aos populares vídeos feitos para o Instagram, Dolan utiliza o formato 1:1 para aguçar a imersão do espectador nos sentimentos e nas ações dos seus personagens. Ao mesmo tempo em que expande a tela para ressaltar os momentos mais otimistas, onde os protagonistas parecem enxergar novos horizontes, o jovem realizador usa - na maior parte do tempo - uma moldura fechada, verticalizada, aumentando a sensação de claustrofobia em meio a imprevisível relação entre mãe e filho. Se passando num Canadá futurista, onde os pais poderiam abrir mão do cuidado de seus filhos e entrega-los ao Estado, o problemático Steve (Antoine-Olivier Pilon) parece querer seguir esse caminho.


Com nítidos distúrbios mentais, o hiperativo adolescente é expulso de um internato após atear fogo na cafeteria do local, ferindo gravemente uma pessoa. Sem ter a quem recorrer, já que o agressivo garoto havia esgotado todas as suas alternativas, a imatura Diane (Anne Dorval) resolve tentar criar o filho com as próprias mãos. Vivendo uma grave crise financeira desde a morte do marido, Die se mostra completamente impotente diante o temperamento explosivo de Steve, que mescla rompantes de fúria a demonstrações de afeto. A rotina dos dois começa a mudar, no entanto, quando a sua vizinha Kyla (Suzanne Clément) decide oferecer auxílio na criação do jovem. Disposta a retomar a sua carreira como professora, após um misterioso passado, a tímida e insegura mulher inicia assim um grande vinculo com essa desajustada família, oferecendo uma última alternativa na tentativa de socializar o rebelde Steve.


Por mais que esse argumento, também assinado por Dolan, deixe uma impressão pouco original, o realizador foge do lugar comum ao conceber a inusitada ligação entre Die e Steve. Apostando na latente química dos dois, numa relação nada ortodoxa, o canadense constrói uma narrativa fluída, que diverte, incomoda e impressiona com a mesma naturalidade. Se aproveitando dos diálogos quase adolescentes entre mãe e filho, repleto de xingamentos, deboches e piadas, Dolan mostra equilíbrio ao flutuar dos momentos mais carregados para os mais singelos. Sem qualquer tipo de concessão, ao mesmo tempo em que faz um carinho no público com cativantes sequências, principalmente em função do carisma de seus personagens, o diretor choca o espectador com soluções contundentes e totalmente condizentes a personalidade dos envolvidos. Ainda que se passe num cotexto futurístico, o que rende uma pertinente crítica social no último ato, o diretor evidencia com destreza os fatos que potencializaram as instabilidades mentais do jovem, discutindo nas entrelinhas temas como a morte precoce do pai, a falta de comando da impulsiva Die e a necessidade dele em se tornar a figura masculina dentro desta família.


Nada disso, no entanto, supera a estupenda atuação do trio de protagonistas. Explorando com intensidade as nuances de Steve, o carismático Antoine-Olivier Pilon conquista pouco a pouco o espectador. Apesar dos seus rompantes de raiva, das muitas ofensas e da conduta quase antissocial, Antonie evidencia com habilidade as fragilidades, o bom humor e a vontade do personagem em levar uma vida normal. Com destaque para a relação superprotetora com a mãe, numa estupenda atuação de Anne Dorval (Amores Imaginários). Presente em quatro dos seis longas dirigidos por Dolan, a atriz demonstra uma grande jovialidade em cena, indo da vulnerável a independente de forma impecável. O seu desempenho no clímax, aliás, é um dos mais devastadores que pude assistir neste ano. Fecha esse trio a intensa Suzanne Clément (Mistérios e Pecados), responsável por algumas das melhores sequências do longa. Voltando também a atuar com o jovem diretor, Clément impressiona não só por sua angustiante gagueira, mas pela energia com que vai de uma professora contida à uma mulher capaz de domar o - até então - indomável temperamento de Steve. Uma pena que o passado como professora, e os motivos do possivelmente traumático afastamento dela, tenham sido abordados de forma tão superficial pelo roteiro.


Utilizando a eclética trilha sonora de forma invejável, com uma belíssima integração entre as letras e as ações dos personagens, Xavier Dolan se apropria das canções como um sagaz complemento de suas próprias cenas. Sem dúvida alguma, a cereja no bolo deste comovente trabalho, capaz de render sequências como a explosiva cena do Karaokê, ao som de Andrea Bocelli, ou o avassalador desfecho, no ritmo de Lana del Rey. Representante do Canadá na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Mommy é muito mais do que um trabalho repleto de recursos e escolhas originais. Na verdade, Dolan nos apresenta um relato incontestável sobre o fardo do amor materno, incluindo os sonhos, as desilusões e as dolorosas decisões por trás deste sentimento.

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