segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Festival do Rio (Homens, Mulheres e Filhos)


Reitman mostra uma visão pessimista ao destacar a nocividade do atual mundo virtual

Numa época em que o mundo virtual parece cada vez mais presente no nosso dia a dia, Jason Reitman (Juno, Obrigado por Fumar) faz de Homens, Mulheres e Filhos um curioso alerta sobre os perigos da Internet. Explorando com habilidade o senso comum de que estamos "todos conectados", o realizador mostra um pessimismo bem intencionado ao destacar o impacto deste advento na vida atual. Analisando o tema sob várias perspectivas, o longa foge do lugar comum ao dialogar não só com a nova geração de adolescentes, 24 horas ligados através das redes sociais, como também com os mais experientes pais, e os seus temores envolvendo essa tecnologia. Uma abrangente e elaborada opção, que parece diluir a força deste pertinente debate, impedindo que ele alcance a reflexão prometida.

Colocando em xeque o nosso modo de vida, com direito a um curioso tom documental, o roteiro baseado no romance homônimo de Chad Kultgen analisa de forma peculiar a rotina da nova estrutura familiar da classe média norte-americana. Utilizando o subterfúgio da narração, a fria e britânica Emma Thompson faz o dia a dia dos personagens parecer uma espécie de programa do National Geographic, Reitman e o co-roteirista Erin Cressida Wilson mostram através de seis tramas diferentes, que se conectam com naturalidade, os efeitos da internet na vida dos personagens. Concebendo uma colcha de retalhos social, o argumento mostra precisão ao ampliar o lado mais nocivo por trás deste advento, o apresentando como uma espécie de fuga para os problemas da vida real. Se concentrando nas questões sexuais, e na consequente facilidade no acesso a pornografia, os roteiristas abrem espaço para os mais corriqueiros dilemas envolvendo o tema, incluindo o excessivo exibicionismo dos jovens, a busca pela fama instantânea, a traição, os romances não correspondidos, a depressão e a imersão completa no mundo dos jogos virtuais.

Situações como as do casal frustrado Don e Helen (Adam Sandler e Rosemerie DeWitt), que buscam na internet uma forma de conseguirem relações extraconjugais, ou a da promessa de atriz Donna (Judy Greer), que expõe virtualmente as fotos de Hannah (Olivia Crocicchia), sua própria filha, para proporcionar a ela o sucesso que não conseguiu em sua carreira. Enquanto Donna tenta promover, a todo custo, os atributos da filha, a obcecada Patricia (Jennifer Garber), segue o caminho contrário. Uma daquelas mães superprotetoras, ela usa da própria tecnologia para perseguir os passos da filha nas redes sociais, impedindo a jovem Brandy (Kaitlyn Dever) de manter qualquer relação pessoal. Incluindo ai a sua amizade colorida com o afetuoso Tim (Ansel Elgort), um popular aluno que viu a sua vida mudar após ser abandonado pela mãe. Ao lado do zeloso pai Kent (Dean Norris), Tim passa a refletir sobre a sua pseudo-fama como craque do time de futebol americano, abrindo mão de tudo isso para se dedicar a um jogo de RPG online.


Ainda que dialogue com essas duas gerações de forma competente, trazendo à tona um texto ágil e recursos gráficos intuitivos, com destaque para a forma como as redes sociais ganham espaço na tela, Reitman vê o seu trabalho perder força na ânsia de fazer com que as subtramas caminhem juntas até o ápice. Entre soluções rasas e algumas prioridades equivocadas, o roteiro parece pender para as situações mais previsíveis, deixando em segundo plano as interessantes passagens envolvendo a jovem anoréxica Allison (Elena Kampouris), que encontra na internet as receitas para se manter magra e conquistar o garoto mais velho, ou a do viciado em pornografia Chris (Travis Tope), que parece não encontrar o prazer na relação com a bela Hannah. Problemas que, menos mal, não atrapalham o melhor arco do longa: a relação entre Tim e Brandy. Em meio as precisas críticas, é aqui que o diretor consegue concretizar um ponto de vista mais certeiro, destacando com um misto de contundência e sensibilidade as consequências dos problemas "reais" na vida desta juventude cada vez mais virtualizada.


Contando com atuações acima da média, incluindo o contido Adam Sandler, a insana Jennifer Garner, a expansiva Judy Greer e os cativantes Ansel Elgort e Kaitlyn Dever, Homens, Mulheres e Filhos parece não ter peso para se tornar um daqueles longas definitivos sobre as relações virtuais. Por mais que apresente um argumento inventivo, que se desenvolve com categoria através de refinadas doses de humor, o tom alarmista se mostra exageradamente categórico, como se a internet só proporcionasse perigos aos seus usuários. Mensagem que só fica mais evidenciada com o desfecho proposto por Jason Reitman, que usa uma metáfora espacial para tentar associar a vastidão do Universo à nossa insignificância perante o mundo virtual. Uma opinião muito particular, que se não diminui o satisfatório resultado final, pode abreviar o impacto futuro desta obra em meio ao acelerado desenvolvimento das plataformas digitais. Vide o destino de ferramentas antes populares, como o ICQ, o MSN e, mais recentemente, o Orkut.

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