terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Uma Aventura Lego

Um inspirado exemplo de como se criar um filme a partir de um brinquedo

É muito bom saber que numa época de jogos extremamente realistas, em que as crianças já nascem praticamente conectadas a Iphone’s, X-Box e Playstation's, um brinquedo criado na década de 1950 segue com um lugarzinho guardado no coração do seu público alvo. Ainda que não tenha a mesma simples funcionalidade das décadas de 1980 e 1990, atualmente ela já invadiu também o universos dos games, o tradicional Lego segue sendo um alternativa rentável junto ao público infantil. Uma grande prova é a realização de Uma Aventura Lego, longa de animação que dá vida ao mágico universo criado pelo dinamarquês Ole Kirk Christiansen. Sem se preocupar somente em aumentar o número de vendas dos seus produtos, o novo lançamento do estúdio Warner aposta na tentativa de recriar o fantástico mundo que este passatempo acabou criando ao longo das últimas décadas. Explorando carismáticos personagens, uma série de referências ao universo pop e a visualmente expressiva animação computadorizada, Lego surpreende por conseguir aliar características que agradem a todos os públicos. Um mistura perspicaz de humor infantil, ação desenfreada e um sensível roteiro.



O curioso é que numa primeira analise, o roteiro assinado pela dupla de diretores Christopher Miller e Phil Lord poderia parecer inocente e simplório. Inclusive, os primeiros minutos da projeção deixam essa impressão. No entanto, apesar de ser um trabalho voltado ao público infantil, e de não fugir destas características, a trama é apresentada sob um interessante contexto. Principalmente por não fugir a característica básica do brinquedo: a possibilidade de criação de inúmeras coisas. Em cima desta premissa básica, Uma Aventura Lego narra a história do simpático Emmet, um operário solitário que segue uma rotina de vida pacata. Seguindo todas as instruções dadas pelo Presidente Negócios (Will Ferrel), uma espécie de governador do mundo Lego, Emmet alimenta o grande sonho de construir amizades. O que Emmet não sabia, no entanto, era que ao achar uma misteriosa peça de plástico, ele passaria a se tornar o símbolo de uma resistência. Um lendário "mestre construtor", capaz de impedir o nefasto plano criado pelo Presidente Negócios. Contando com a ajuda da rebelde Mega Estilo (Elizabeth Banks) e do mentor Vitruvius (Morgam Freeman), Emmet parte numa jornada de descobertas, encontrando novos mundos, amigos e gigantescos desafios. Incluindo ai, a briga pelo seu lugar no espaço.


Em cima desta premissa, Uma Aventura Lego acerta ao não se resumir as interessantes lições de moral que o roteiro destaca. Apesar do início frenético, a dupla Miller e Lord deixa claro aonde a história quer chegar. Toda a apresentação do pacato Emmet, com sua rotina regrada, os mesmos programas, as mesmas músicas, as mesmas roupas, remetem a uma contextualizada análise social. Pregando a criatividade e a originalidade, o longa é inteligente ao incorporar a principal essência do brinquedo à trama. Em uma sociedade onde o poder de criação foi inibido por uma figura autoritária, o grande diferencial dos tais "mestre construtores" acabava sendo a capacidade de criar objetos através das peças lego. Além de ser uma forma genial de captar as características do brinquedo, essa opção acaba sendo muito bem utilizada no desenvolvimento de uma inspirada e emocionante reviravolta da trama. Uma sacada inteligente, que eleva toda a mensagem por trás desta despretensiosa animação. O grande mérito do filme, no entanto, é a forma como ele se torna atrativo tanto para os mais novos, como também para os adultos de plantão. Aos pequenos, Lego apresenta o seu mágico e colorido universo, explorando piadas extremamente acessíveis e um ritmo acelerado marcado pelas empolgantes cenas de ação. Já aos adultos, sobram inúmeras referencias à cultura pop, a maioria delas hilárias e criativas. Sem querer revelar muito, o Batman dublado - no original - por Will Arnett é um dos personagens mais divertidos feitos ultimamente.


Por falar nos personagens, o ritmo frenético da trama é muito bem desenvolvido pelo time de animadores. Explorando a mecânica característica deste brinquedo, que tradicionalmente possuía pouca mobilidade, a animação apresentada é empolgante. Todo o universo Lego criado digitalmente impressiona, remetendo diretamente a várias fases deste passatempo infantil. Prezando pela estética deste clássico, o cenário urbano construído acaba funcionando muito bem nas aceleradas perseguições com os carrinhos e aeronaves Lego. Quem nunca brincou disso? Melhor ainda é o clima road-movie que Uma Aventura Lego constrói. Como se não bastasse o complexo cenário urbano, o longa apresenta outras criativas paisagens, como uma realista réplica do Velho-Oeste, uma perseguição em pleno oceano e um hipercolorido mundo positivista. O mais interessante, porém, é como a equipe de animação conseguiu passar carisma aos personagens. Além das excelentes caracterizações, o filme apresenta personagens expressivos e altamente divertidos. O policial duas caras, remetendo aos bonecos dupla-faces, é sensacional. O tom pacato de Emmet também funciona muito bem, assim como a recriação dos clássicos e reconhecidos personagens da cultura pop.


Apostando também num bem utilizado 3-D, que não se resume a jogar peças na cara do espectador, Uma Aventura Lego é, desde já, umas das grande surpresa de 2014. Um longa de aparência despretensiosa, com um humor bastante inocente, mas extremamente agradável as crianças e aos adultos. Apresentando interessantes e sinceras lições de moral, a obra acerta em cheio ao manter a essência deste tradicional brinquedo. A capacidade de criar, de ser original e de dar vida as suas principais ideias. Sejam elas geniais, como as do criador da Lego Ole Kirk Christiansen, ou então as simples, como as do nosso herói Emmet. O mais importante é criar, e principalmente, se divertir. Diversão que, aliás, Lego segue nos proporcionando, agora, como longa-metragem animado.


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