quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Com Amor, Van Gogh

Um retrato narrativamente simples, mas visualmente magistral sobre um verdadeiro gênio das pinturas 

Vincent Van Gogh, assim como muitos grandes realizadores da sua geração, faleceu sem experimentar a aclamação das suas obras. Reconhecido tanto pelo seu virtuosismo plástico, quanto pela sua instabilidade emocional, um dos maiores nomes do pós-impressionismo se tornou uma figura fascinante aos olhos do meio artístico, um homem dono de uma particular história de vida que, com o triunfo dos seus quadros, ganhou postumamente o prestígio que apenas poucos souberam valorizar em vida. Um status icônico revigorado por títulos como o precioso Com Amor, Van Gogh. Numa proposta ambiciosa, o longa dirigido pela dupla Dorota Kobiela e Hugh Welchman decide recontar os nebulosos últimos meses de vida do pintor usando os seus próprios traços e a sua vibrante palheta de cores. Fazendo um magnífico uso da rotoscopia, uma técnica de animação "onde um modelo humano é filmado ou fotografado em sequência e o desenho é feito com base nessa captura", a dupla reconstrói alguma das principais obras de Van Gogh enquanto traduz a sua deterioração emocional, flertando com elementos do cinema 'noir' ao tentar pintar um retrato íntimo sobre o devotado pintor. Um relato visualmente magistral, mas com falhas, principalmente quando o assunto é a maneira simplificada com que o roteiro “disseca” esta complexa persona. 


Na verdade, Com Amor, Van Gogh é o tipo de filme que pede uma análise fragmentada. Quando o assunto é o aspecto narrativo, o longa peca pela simplicidade ao capturar a inquietude deste gênio da arte moderna. Inspirado em fatos, o roteiro assinado pela dupla de realizadores, ao lado de Jacek Dehnel, opta por recontar a história do pintor holandês em terceira pessoa, uma sacada promissora se não fosse a redundância com que os fatos são apresentados. Usando relatos de amigos e cartas assinadas pelo próprio artista, o argumento passeia com pressa por algumas importantes fases da vida de Van Gogh, uma abordagem impessoal (e requentada) que prejudica a (re)construção deste importante perfil. Embora os principais fatos estejam lá, Kobiela e Welchman oferecem o bastante apenas para uma visão parcial sobre os conflitos do artista, se distanciando dos temas mais espinhosos em prol de um suspense (ao menos revelador) em torno da causa da morte de Vincent. Por mais que o flerte com o teor investigativo do cinema 'noir' imprima originalidade a narrativa, principalmente pela sagacidade do roteiro em nos colocar no centro da trama e nos associar a curiosa figura do protagonista, a película patina no que diz respeito ao desenvolvimento das questões mais íntimas. Passagens como a conhecida automutilação do pintor, por exemplo, são reduzidas devido a falta de contundência dos diretores em capturar o destrutivo processo de criação de Van Gogh, a sua devoção à arte e a sua obstinada\obsessiva busca pela perfeição. Um 'modus operandi' perigoso que, diga-se de passagem, é exposto com intensidade no excelente Sede de Viver (1956), uma cinebiografia intimista (e narrativamente superior) estrelada pelo legendário Kirk Douglas. 


Por outro lado, Dorota Kobiela e Hugh Welchman acertam ao exaltar o vanguardismo de Van Gogh já na sua fase “desconhecida”. Fazendo um competente uso do recurso da narração, a dupla é cuidadosa ao mostrar a admiração\reconhecimento daqueles que o cercavam, ao reforçar o forte elo entre ele e seus amigos. Num recorte ágil e envolvente, o argumento é bem melhor resolvido quando o assunto é o profissional Van Gogh, um artista virtuoso que tem a sua dedicação explorada ao longo das fluídas 1 h e 35 min de projeção. Na trama, Com Amor, Van Gogh segue os passos de Armand Roulin (Douglas Booth), um jovem que, a pedido do seu pai e grande amigo de Vincent, o bondoso Joseph Roulin (Chris O'Dowd), é recrutado para levar uma carta póstuma do pintor ao seu tão estimado irmão. Chegando lá, porém, ele descobre a morte de Teo Van Gogh. Sem ter a quem recorrer, Armand decide tentar encontrar um novo destinatário para a carta. Ao longo do processo, porém, ele se vê cada vez mais ligado a figura do artista, iniciando uma espécie de investigação particular para tentar entender os motivos por trás de uma morte repentina e mal explicada. 


Irregular enquanto estudo de personagem, Com Amor, Van Gogh presta uma homenagem à altura do legado do pintor quando o assunto é o aspecto visual. Num trabalho quase artesanal, Dorota Kobiela e Hugh Welchman contaram com uma equipe de 100 animadores para imprimir em tela as cores, a textura a óleo e a estética impressionista dos traços do artista, um trabalho de uma delicadeza rara que realmente transforma esta cinebiografia. Com ousadia e virtuosismo técnico, a dupla de realizadores encanta ao recriar algumas das suas principais obras, preenchendo o filme com planos vibrantes e minuciosos. Assim como o pintor, eles se concentram na expressão dos seus “modelos”, tirando o máximo dos coadjuvantes ao capturar a beleza por trás da rotina, por trás do bucólico. Mais do que simplesmente reconstruir algumas das mais populares pinturas de Van Gogh, a dupla de diretores o faz com enorme fluidez, tornando tudo magnificamente reconhecível aos olhos do público. Enquadramentos, cores, figurinos, formas, personagens, tudo remete à obra do holandês, tamanho o nível de detalhismo dos animadores na reprodução das cenas do cotidiano capturadas pelos pincéis de Vincent. 


É interessante ver, aliás, o esmero dos realizadores não só na “conversão” do 2-D para o 3-D, como também injeção de mobilidade aos quadros, um processo original que ajuda a realçar o charme da película. A sequência da chuva, em especial, é de uma beleza ímpar. Nem só de paisagens ensolaradas, entretanto, vive o longa. Numa sacada inteligente, Kobiela e Welchman elevam o nível de realismo durante os intensos flashbacks, defendendo um viés sombrio ao apostar pesado no preto e branco, na falta de luminosidade e nos traços mais realísticos. Um contraste marcante que, embalado pela delicada trilha sonora de Clint Mansell, só ajuda a potencializar o fator dramático do longa e a exuberância visual da obra de Vincent Van Gogh.

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