quarta-feira, 21 de junho de 2017

Baywatch: S.O.S Malibu

Humor com curvas

Sejamos bem sinceros. Reconhecida pelo "bailar" de corpos esculturais e pela inquestionável pobreza narrativa, a popular S.O.S Malibu era, já na época do seu lançamento, uma série com bem pouco a oferecer. Com David Hasselhoff e Pamela Anderson entre os protagonistas, o longínquo seriado noventista sobre um intrépido grupo de salva-vidas permaneceu no imaginário pop graças - basicamente - aos atributos físicos do elenco e a 'vibe' descolada\ensolarada proposta pelo show. Uma carência de conteúdo que, diga-se de passagem, explica muito dos problemas da versão "hollywoodiana" de Baywatch, um remake descerebrado que se sustenta no talento cômico da dupla Dwayne Johnson e Zac Efron. Embora acerte ao abraçar o tom satírico, a única alternativa viável para a "adaptação" do raso produto original, o longa dirigido por Seth Gordon (do divertido Quero Matar meu Chefe) vacila ao se levar exageradamente a sério, ao buscar um frágil equilíbrio entre a zoação e a reverência, realçando o aspecto mais brega da série ao investir num argumento genérico e rocambolesco. Uma misturada irregular que, beldades à parte, encontra o seu rumo no momento em que decide rir do material fonte e da ridícula relação entre um salva-vidas superprotetor e um problemático ex-medalhista olímpico.



Com roteiro assinado por Damian Shannon e Mark Swift, é inegável que Baywatch mira no elogiado remake da série Anjos da Lei (2012). O tom paródico está aqui, assim como uma carismática dupla de protagonistas e as bem humoradas sequências de ação. O problema é que, diferente do inteligente longa estrelado por Channing Tatum e Jonah Hill, a comédia protagonizada por Johnson e Efron não tem a coragem necessária para romper com o passado da série. Por mais que o humor "moleque" dê uma aura particular ao remake, o diretor Seth Gordon se vê preso a alguns dos maiores clichês da série, entre eles o incessante "uso" dos atributos físicos dos personagens, a fragilidade narrativa e o completo distanciamento da realidade, levantando uma série de dúvidas acerca das intenções do reboot. Num primeiro momento, por exemplo, a película parece querer zoar a estrutura original, rir do processo de treinamento da rejuvenescida turma de socorristas, da chegada de um novo e convencido integrante, o ex-medalhista olímpico Matt Brody, e da onipresença do 'badass' Mitch Buchannon. Enquanto se concentra na exótica interação entre os salva-vidas e nas divertidas sequências de resgate, S.O.S Malibu se sustenta com energia, impulsionado pelo afiado tempo de comédia da dupla Efron\Johnson e por algumas boas sacadas em torno dos rasos coadjuvantes. Embora o trio C.J (Kelly Rohrbach, um mero objeto nas mãos de Gordon), Ronnie (Jon Bass, esforçado) e Summer (Alexandra Daddario, à vontade em cena) seja explorado com obviedade, o roteiro consegue estreitar os laços entre os personagens sem perder a piada, o que fica bem claro na "ofensiva" relação entre Mitch e Brody.


Não demora muito, porém, para o tom reverencial ganhar forma. E os problemas narrativos se tornarem mais evidentes. Por mais paradoxal que possa parecer, Baywatch desanda no momento em que começa a soar como um episódio de Baywatch. Na ânsia de trazer a ação para o centro da trama, Seth Gordon investe numa antagonista clichê, a caricata traficante Victoria Leeds (Priyanka Chopra, subaproveitada), e num arco preguiçoso envolvendo a aparição de uma perigosa droga. Em dúvidas sobre qual caminho seguir, o realizador até tenta expor o lado mais ridículo por trás da investigação dos salva-vidas. O policial interpretado pelo promissor Yahya Abdul-Mateen II (o futuro Arraia Negra de Aquamen), inclusive, surge como a irônica voz de bom senso e ganha um bem vindo espaço dentro da trama. Com o avançar da trama, entretanto, a sátira perde força diante da subtrama policial. Embora renda alguns bons momentos cômicos, a sequência do necrotério, por exemplo, consegue realçar o melhor da dinâmica entre os personagens, o longa se perde na transição para o último ato, o que explica a grosseira queda no nível das piadas e a escassez cômica do genérico clímax. Num todo, aliás, o humor se mostra um tanto quanto irregular, indo das hilárias referências ao passado 'teen' de Zac às constrangedoras gags físicas com nítida inconsistência. Um deslize que, neste caso, é amenizado pela dedicação dos protagonistas. Um dos astros mais bem pagos de Hollywood, Dwayne Johnson "salva" o remake do completo fracasso, mostrando que sabe rir de si mesmo ao criar um protagonista simpático e idealista. No mesmo nível do seu parceiro de cena, Zac Efron se despede de vez do rótulo de galã ao encarar um convencido e estúpido ex-nadador. Com um visual "monstruoso" e um ótimo 'timing', o ator cativa ao criar um tipo realmente engraçado, um homem no fundo do poço obrigado a rever os seus conceitos em busca de um novo rumo para a sua vida.


Entre a sátira e a reverência, Baywatch: S.O.S Malibu é uma comédia oscilante que derrapa nas suas próprias curvas. E não, eu não estou me referindo ao possível sexismo quanto a exibição da "beleza" feminina. Por mais que os populares takes em câmera lenta sejam recorrentes, Seth Gordon é sagaz ao tornar a exposição o mais igualitária e respeitosa possível, impedindo que o longa se sustente no seu forte 'sex appeal'. Na verdade, apesar dos evidentes predicados técnicos da película, vide a eclética trilha sonora e a radiante fotografia praiana de Eric Steelberg (Juno), o realizador falha ao construir um remake sem identidade própria, desperdiçando o potencial "zueiro" da trama ao se preocupar relutantemente com o passado da datada série noventista. Um zelo que, aqui, soa tão artificial quanto o rosto "esticado" da antiga musa Pamela Anderson.

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