quinta-feira, 4 de maio de 2017

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Os monstros da vida real

Entre o lúdico e o realista, Sete Minutos Depois da Meia Noite é uma verdadeira pérola, uma fábula corajosa sobre um dos momentos mais difíceis da nossa existência: a hora de dar adeus. Conduzido com extrema delicadeza pelo talentoso J.A Bayona (O Impossível, O Orfanato), o longa fascina ao desvendar os conflitos do pequeno protagonista sob um prisma denso e extremamente humano, fazendo um primoroso uso do teor fantástico ao expor a sua dor diante de uma situação tão devastadora. Através de diálogos intimistas e carregados de simbolismo, o realizador espanhol se esquiva do viés moralista presente no gênero ao reverenciar a natureza humana, as nossas imperfeições, frustrações e os mais enraizados medos. O resultado é um relato universal e comovente, uma obra que, ao abraçar a multidimensionalidade dos seus personagens, mostra propriedade ao revelar o quão árduo e particular é o processo de aceitação em torno da iminente perda de um ente querido. 



Inspirado no livro A Monster Calls, do escritor Patrick Ness, Sete Minutos Depois da Meia Noite é inicialmente irretocável ao estabelecer o peso de uma doença terminal na rotina de uma família comum. Sem nunca apelar para o sentimentalismo, o roteiro assinado pelo próprio escritor é cuidadoso ao introduzir as nuances mais pessoais dos seus personagens, ao expor a maneira com que cada um deles lidava com a situação, indo além das aparências ao traduzir a dor, a solidão e a sensação de desamparo presente neste cenário desolador. Fazendo um elegante uso da linguagem subjetiva, J.A Bayona esbanja contundência ao traduzir o distanciamento entre os protagonistas, ao justificar as suas reações mais humanas e inconsequentes, encantando ao conseguir extrair a beleza por trás da mais profunda tristeza. Não se engane, portanto, com o viés fantástico presente na obra. A magia, aqui, está no amadurecimento dos personagens, na maneira com que eles se insurgem corajosamente contra este monstro da vida real.


Na trama, obrigado a conviver com um turbilhão de emoções, o precoce Conor (Lewis MacDougall) parecia estar próximo do seu limite. Além de lidar com a agressiva doença da sua querida mãe (Felicity Jones), ele sofria com a distância do ausente pai (Tobey Kebbell, preciso), com a frieza da sua rígida avó (Sigourney Weaver, ótima) e com os constantes ataques dos seus ignorantes colegas de classe. Sofrendo com recorrentes pesadelos, Conor é surpreendido com a visita de uma imponente árvore, uma criatura assustadora que resolve lhe contar três histórias. Inicialmente relutante, o jovem decide aceitar esta repentina oferta, sem saber que a criatura iria obriga-lo a enfrentar os seus temores mais íntimos.


Com pleno controle criativo sobre a sua obra, J.A Bayona é zeloso ao construir o elo familiar entre os personagens. Indo de encontro aos títulos mais convencionais, o realizador consegue extrair o máximo de sentimento não só dos breves e afetuosos momentos conjuntos, como também das subjetivas sequências solitárias, expondo a faceta humana dos protagonistas sem precisar apelar para soluções óbvias e redundantes. Ciente da universalidade do tema proposto, o diretor preenche as brechas emocionais com momentos silenciosos, com bisbilhotadas reveladoras, permitindo que o público crie uma gradativa conexão com o cenário apresentado. Com apenas uma simples reação, por exemplo, ele desconstrói a figura da avó, mostrando que existia um coração por trás de tamanho pragmatismo. Sob um prisma intimista e inocente, Bayona é igualmente sutil ao descortinar os segredos em torno da condição da adoentada mãe, ao revelar aquilo que o jovem Conor parecia não querer aceitar\enxergar, tornando o processo de amadurecimento do personagem extremamente harmonioso aos olhos do espectador.


O grande diferencial de Sete Minutos Depois da Meia Noite, porém, reside notoriamente no seu instigante teor fantástico. Impecável ao estabelecer o misto de rebeldia, tristeza e solidão do protagonista, J.A Bayona é inventivo ao explorar o viés fabulesco, ao transitar entre a magia e a realidade, elevando o nível da película ao falar sobre a morte dentro de um contexto tão honesto e maduro. Com um senso de moral bem particular, o realizador testa as nossas expectativas ao realçar a multidimensionalidade por trás dos três simbólicos contos, exaltando as imperfeições humanas sem esquecer de criar um paralelo com os anseios do jovem. Na verdade, além de se conectarem perfeitamente com a jornada de Conor, as passagens ampliam o escopo da trama ao transitar por temas como o medo do desconhecido, o isolamento social e a perda da fé. Esta última, aliás, rende uma reflexão no mínimo corajosa envolvendo a banalização da crença. Amparado pelos profundos diálogos e pelos artísticos trechos animados, a franca relação entre o garoto e a criatura cresce consistentemente até o emocionante clímax, potencializada pelos magníficos efeitos visuais, pela imponente dublagem do astro Liam Neeson e pela delicada trilha sonora de Fernando Velázquez (Mama).


Contando ainda com a vigorosa fotografia fria de Oscar Faura (O Orfanato), Sete Minutos Depois da Meia Noite é também um filme tecnicamente irretocável. Como se não bastasse o esmero no que diz respeito às noções de escala, J.A Bayona investe numa direção elegante e intimista, realçando o aspecto subjetivo da película ao valorizar a expressão do elenco, os íntimos planos fechados e as inventivas transições de cena.  Somado a isso, o espanhol é virtuoso ao narrar os fatos sempre sob a perspectiva de Connor, realçando a fragilidade do jovem diante deste cenário desolador ao posicionar a sua câmera geralmente na altura do personagem. Uma sacada de mestre, principalmente nos imersivos planos médios. 


Em suma, mesmo com deslizes, a maioria deles envolvendo os pequenos problemas de ritmo e o subaproveitado arco paterno, Sete Minutos Depois da Meia-Noite bebe da fonte de sucessos como O Labirinto do Fauno ao dialogar com temas tão reais dentro de um contexto mágico e poeticamente triste. Apesar da aparência genérica do enredo, J.A Bayona brilha ao buscar uma estreita conexão com os sentimentos apresentados em cena, encontrando nas extraordinárias performances da dupla Lewis MacDougall (magnífico) e Felicity Jones (comovente) o vínculo necessário para nos fazer experimentar a dor por trás desta batalha pela vida. Sem querer revelar muito, a sequência em que a consciente mãe tenta isentar o imaturo filho de qualquer tipo de remorso futuro é poderosa, uma cena única dentro de um filme raro. 

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