sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Doutor Estranho

Uma experiência visual vibrante e inédita para os padrões Marvel Studios

Após apresentar o seu fértil universo espacial no irreverente Guardiões da Galáxia (2014), a Marvel Studios tinha um último grande desafio cinematográfico pela frente: introduzir o complexo e peculiar cenário místico idealizado por Stan Lee e Steve Dikto. Pois bem, missão cumprida. Longe de ser "apenas" mais um filme de origem, Doutor Estranho fascina ao colocar o seu virtuosismo estético em prol da narrativa numa aventura completa e dinâmica. Mesmo com tantos termos, personagens e conceitos em mãos, o diretor Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose) mostra um invejável poder de síntese ao estabelecer tanto a jornada do egocêntrico super-herói, quanto o seu mundo de artefatos e encantamentos, popularizando a mitologia deste valioso protagonista com fluidez e riqueza de detalhes. Impulsionado pela poderosa atuação de Benedict Cumberbatch, que, assim como Robert Downey Jr. em Homem de Ferro, enche a tela de personalidade com o seu Stephen Strange, Derrickson brilha ao capturar a aura lisérgica dos quadrinhos, equilibrando grandiosidade, bom humor e perícia técnica ao nos brindar com uma série de espantosas soluções visuais. Dito isso, embora fiel ao tom descompromissado da franquia, Doutor Estranho eleva o patamar criativo das produções Marvel ao se revelar um triunfo estético empolgante e completamente imersivo.


Com argumento assinado pelo próprio Scott Derrickson, ao lado de Jon Spaihts e C. Robert Cargill, Doutor Estranho não se faz de rogado ao buscar inspiração no melhor filme de origem da Marvel Studios, o aclamado Homem de Ferro (2008). Ciente das semelhanças entre as jornadas dos arrogantes Tony Stark e Stephen Strange, o trio faz um bem feito dever de casa ao resgatar a sagacidade do primeiro longa, passeando por temas mais densos sem abrir mão do tom descompromissado que guia esta rentável franquia. Não se engane, porém, com a aparente similaridade entre os arcos dos dois super-heróis. Enquanto Tony só assume o seu lado mais heroico ao perceber as consequências das suas armamentistas criações, Strange já escondia no seu inflado ego um altruísmo velado, uma vontade de salvar vidas que é explorada com personalidade ao longo da história. Na trama, vítima de um grave acidente, o confiante neurocirurgião entra em desespero ao perceber que perdeu os movimentos das suas perfeccionistas mãos. Após uma série de frustradas tentativas de tratamento, ele resolve reunir os seus últimos recursos e partir para Catmandu, no Nepal, em busca do templo de Kamar-Taj, um lugar misterioso liderado pela mística Anciã (Tilda Swinton). Inicialmente errático quanto aos ensinamentos da mentora, Stephen coloca as suas científicas crenças em cheque ao se deparar com o mundo mágico apresentado por ela, uma realidade multidimensional inimaginável e recheada de possibilidades. Ao lado do fiel Mordo (Chiwetel Ejiofor) e do turrão Wong (Benedict Wong), Stephen resolve "devorar" os livros e os conselhos da Anciã em busca da tão esperada cura, sem saber que estava prestes a encontrar uma nova maneira de salvar vidas.


No que diz respeito ao aspecto narrativo, Doutor Estranho segue uma estrutura bem familiar aos demais filmes de origem da Marvel Studios. Com leveza, bom humor e segurança, Scott Derrickson é particularmente cuidadoso ao introduzir a figura do neurocirurgião, a sua ácida personalidade e os dolorosos obstáculos enfrentados por ele, permitindo que o público enxergue a sua faceta mais humana ao desconstruí-lo durante o envolvente primeiro ato. Além disso, o realizador mostra uma bem vinda preocupação ao construir a sincera relação entre os personagens. Apesar da vocação escapista do roteiro, Derrickson é habilidoso ao realçar os conflitos mais íntimos entre os protagonistas, adicionando peso à trama ao impedir que o longa gire excessivamente em torno do processo de aprendizado de Stephen Strange. Sem querer revelar muito, o espaço dado a nebulosa figura da Anciã é decisivo para o excelente andamento da película, principalmente quando o diretor decide explorar as incoerências por trás da sua existência. Na verdade, ainda que pontualmente, é interessante ver o roteiro fugir do lugar comum ao levantar questões éticas em torno dos atos altruístas dos heróis, destacando as perigosas consequências por trás do uso inadvertido dos poderes místicos. Deste tema, inclusive, nasce a sólida motivação do fanático Kaecilius (Mads Mikkelsen), um vilão interessante, bem arquitetado, mas que (novamente) carece de personalidade e imponência. Mesmo assim, a sequência de apresentação do antagonista é primorosa, a mais incrível cena de abertura já apresentada pelo estúdio.


Fazendo ainda um equilibrado uso dos hilários alívios cômicos, que, apesar de marcarem uma constante presença na trama, dão o espaço necessário para os momentos mais densos, Scott Derrickson mostra um impressionante poder de síntese ao introduzir o vasto universo místico da Marvel. Em pouco menos de duas horas de projeção, o argumento estabelece com fluidez não só os termos e artefatos mágicos, incluindo a impagável Capa da Levitação, como também os multiversos, a dimensão negra e os complexos conceitos envolvendo a relação entre o tempo e o espaço. Sem apelar para o didatismo exagerado, as lições da fantástica Anciã são ágeis e instigantes, amparadas pelos expositivos efeitos visuais e pelos competentes diálogos. A existencial conversa entre aluno e mentora, por exemplo, é de uma beleza ímpar, uma cena profunda e preciosa que está entre os melhores momentos do longa. O grande trunfo de Doutor Estranho, porém, reside no seu inquestionável virtuosismo estético. Diante das elevadas expectativas, Derrickson faz um primoroso uso das realidades místicas ao entregar algumas das mais espantosas e criativas sequências de ação da franquia. Distorcendo as noções de física, escala e perspectiva dentro do universo espelhado, o realizador desmonta e inverte os cenários com absurda perícia técnica, dando um indescritível refinamento às expressivas (e diurnas) cenas de luta. Com um afiado senso de humor, o realizador arranca também honestas risadas ao brincar com a dificuldade de movimentação de Stephen dentro deste espaço extremamente mutável, um ambiente incrementado pela engenhosa fotografia de Ben Davis (Guardiões da Galáxia), pelo imersivo 3-D e pelo magnífico CGI.


Sem medo de soar extravagante, Scott Derrickson é igualmente inventivo ao capturar a aura lisérgica dos quadrinhos. Como se não bastasse o cuidado ao manter os incríveis maneirismos gestuais dos personagens, o realizador mostra sutileza estética ao reproduzir as reluzentes magias, preenchendo a tela com lúdicos traços geométricos em forma de escudos, círculos, chicotes e portais interdimensionais. Por falar neles, as surtadas viagens psicodélicas guiadas pela Anciã são sensacionais, assim como as divertidas cenas no plano espiritual e o grandioso cenário em neon do diplomático clímax. Melhor ainda, aliás, é o caminho encontrado por Strange para salvar o dia, uma solução narrativa inteligente, original e coerente com a perspicácia do protagonista. Por fim, Benedict Cumberbatch está para o Doutor Estranho, assim como Robert Downey Jr. está para o Homem de Ferro. Completamente à vontade em cena, o ator britânico absorve com rara categoria o misto de altruísmo, vaidade e inteligência do super-herói, criando uma figura corajosa de fácil conexão com o grande público.


Apesar do foco estar no seu afiado senso de humor, quando necessário Cumberbatch consegue traduzir também a dor e a obstinação do médico, realçando nuances que o próprio roteiro não parecia muito interessado em explorar. No mesmo nível do seu parceiro de set, a fascinante Tilda Swinton rouba a cena com a sábia Anciã. Impecável ao capturar os mistérios em torno da personagem, a atriz se esquiva dos clichês ao criar uma mentora prática e magnética, uma figura 'bad-ass' que causa um inegável frisson sempre que surge em cena. Indo de encontro à persona insubordinada de Strange, Chiwetel Ejiofor é sutil ao abraçar o senso de integridade do seu Modor, um tipo fiel às suas crenças que reluta em "quebrar" as leis da natureza. Além deles, enquanto Mads Mikkelsen convence ao capturar o fanatismo do seu Kaecelius, os espirituosos Benedict Wong e Rachel McAdams garantem boas risadas mesmo na pele dos subaproveitados Wong e Christine.


Com um elenco de fazer inveja a qualquer grande produção do Oscar, Doutor Estranho é uma aventura eficaz que alcança um patamar superior graças ao seu fantástico apuro visual. No embalo da sensível trilha sonora de Michael Giacchino, impecável ao acompanhar o estado de espírito do protagonista, Scott Derrickson é habilidoso ao transitar pela ação, pela comédia e pelo drama com enorme dinamismo, absorvendo a vasta mitologia mística idealizada por Lee e Ditko com leveza e propriedade. Mesmo diante de algumas soluções inegavelmente convenientes, o processo de aprendizado de super-herói, por exemplo, se revela um tanto quanto acelerado, o realizador constrói uma película narrativamente redonda, bem resolvida, que realmente ousa ao oferecer uma experiência estética autoral, lisérgica e totalmente inédita dentro do vasto universo cinematográfico da Marvel Studios.

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