terça-feira, 19 de julho de 2016

Cinemaniac Indica (D.U.F.F)

Descolada, divertida e despretensiosa, D.U.F.F é uma comédia-romântica que funciona. Inspirado nos clássicos oitentistas de John Hughes, a mente por trás dos populares Gatinhas e Gatões (1984), Clube dos Cinco (1985) e A Garota de Rosa Shocking (1986), o longa dirigido por Ari Sandel atualiza os conflitos do universo 'high school' ao acompanhar as desventuras sentimentais de uma carismática adolescente em crise. Mesmo previsível e recheado de clichês, D.U.F.F cativa ao brincar com os dilemas sociais enfrentados por uma geração conectada via internet, encontrando no talento da talentosa Mae Whitman o misto de ingenuidade e personalidade necessários para dar corpo a esta apaixonante protagonista. 


Sem tempo a perder, o argumento assinado por Josh A. Cagan é habilidoso ao ressaltar as particularidades do atual cenário 'high-school'. Mesmo fiel aos mais requentados arquétipos do gênero, temos novamente a princesinha mimada, o atleta popular, o músico atraente e a nerd simpática, o longa transforma o ambiente escolar num espaço mais plural e hospitaleiro. Inserida neste contexto, a jovem Bianca levava uma ofuscada rotina ao lado das suas belas e fieis amigas Casey (Bianca A. Santos) e Jess (Skyler Samuels). Inicialmente conformada com este panorama, a atrapalhada adolescente entra em colapso quando o seu vizinho Wesley (Robbie Amell) revela que ela poderia ser uma DUFF, no jargão escolar a menina feia, gorda e acessível do seu grupo. Revoltada com este status, Bianca resolve abrir mão das suas amizades e buscar luz própria, iniciando assim uma desastrada e auto afirmativa jornada de descobertas. 


Leve e bem humorado, D.U.F.F investe numa abordagem descolada ao traduzir a crise de identidade da adorável Bianca. Com uma montagem ágil, refinadas referências à cultura pop, elementos gráficos espertos e criativas soluções estéticas, Ari Sandel adiciona um bem-vindo frescor a uma trama nitidamente requentada, principalmente quando valoriza elementos como o ciberbullying, o universo das sub-celebridades da web e as mudanças no status-quo do ambiente escolar. Mesmo trabalhando com alguns elementos genéricos, entre eles a vilanesca patricinha e a previsível reviravolta amorosa, o argumento foge do lugar comum ao investigar a intimidade da complexa protagonista, uma personagem aparentemente independente, feliz com o seu corpo, mas que entra em parafuso no momento em que se vê obrigada a conviver com o fantasma deste rótulo. A partir dos dilemas sentimentais da jovem Bianca, o realizador é habilidoso ao levantar uma bandeira em prol da valorização das diferenças, colocando em cheque alguns dos mais nocivos e enraizados padrões sociais. 

Além disso, ainda que se concentre na cativante Bianca, a relação de amizade entre ela e o popular Wesley se revela um dos pontos altos da película. Impulsionado pela química entre os dois protagonistas, a troca de experiência entre eles rende uma série de hilárias situações e diálogos extremamente naturais. Neste sentido, aliás, é preciso elogiar a performance de Mae Whitman (As Vantagens de Ser Invisível). Dona de um invejável carisma, a atriz de 28 anos (isso mesmo) mostra tranquilidade ao absorver o misto de insegurança e rebeldia da sua adolescente personagem, funcionando tanto nas sequências mais sentimentais, como também nos momentos mais cômicos. No mesmo nível da sua parceira de cena, o promissor Robbie Amell (da série Flash) adiciona humanidade ao popular Wesley Rush, criando um personagem sincero, divertido e repleto de personalidade. O mesmo, porém, não podemos dizer da insossa Bella Thorne, inexpressiva como a vilanesca aspirante à sub-celebridade Madison Morgan. 


Mesmo diante de alguns problemas narrativos, a amizade entre Bianca e as populares Casey e Jess, por exemplo, é inexplicavelmente subaproveitada, D.U.F.F acerta ao atualizar o cenário 'high school' numa comédia romântica inteligente, simpática e absolutamente divertida.  Contando com um elenco de apoio estrelar, com destaque para os experientes Ken Jeong (Se Beber, Não Case), Romany Malco (O Virgem de Quarenta Anos) e Allison Janney (A Espiã que Sabia de Menos), Ari Sandel cumpre a sua missão ao deixar uma pueril e descontraída mensagem em prol da pluralidade e da personalidade. 

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