sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Lenda de Tarzan

Mesmo com problemas, longa apresenta uma releitura que funciona

Longe de ser um filme memorável, A Lenda de Tarzan foge do lugar comum ao apresentar uma interessante releitura envolvendo os clássicos contos do escritor Edgar Rice Burroughs. Dirigido pelo competente David Yates (Harry Potter e a Ordem da Fênix), o longa alimenta um inegável ineditismo ao tomar como ponto de partida o desfecho da história original, mostrando o destino deste icônico personagem no período pós-ressocialização. Numa sacada realmente criativa, o realizador inglês propõe uma bem vinda inversão ao desvendar a essência selvagem do agora polido protagonista, encontrando no "bombado" Alexander Skarsgård o talento necessário para tornar crível o misto de nobreza e ferocidade do novo Tarzan. Na ânsia de atualizar este popular conto, no entanto, Yates se rende a um datado tom aventureiro, reduzindo alguns conflitos mais íntimos em prol das escapistas sequências de ação e do apressado clímax. Ainda assim, apesar do potencial dramático desperdiçado, A Lenda de Tarzan funciona enquanto entretenimento, impulsionado pelo carismático elenco, pela detalhista direção de arte e pelos inúmeros predicados digitais.



Na trama, oito anos após voltar para casa, o popular "sobrevivente" John Clayton (Skarsgård) levava uma vida tranquila ao lado da sua esposa Jane (Margot Robbie). Adaptado a rotina Londrina, o Lorde de Greystoke é surpreendido ao receber um convite do Parlamento Britânico para revisitar o seu antigo lar, a selva do Congo, à pedido do rei belga Leopoldo II. Temendo ser utilizado como instrumento de publicidade pelo colonizador, John recusa num primeiro momento, mas muda de opinião ao conhecer George (Samuel L. Jackson), um emissário norte-americano que revela a ação opressora deste monarca. Em solo africano, John, Jane e George são pegos de surpresa pelo ardiloso Léon (Christopher Waltz), um homem vil disposto a tudo para se apossar dos diamantes de um amargurado chefe tribal (Djimon Hounsou). Separado do seu grande amor, John decide revisitar o seu passado ao iniciar a caça deste violento colono, sem saber que estava prestes a reencontrar alguns velhos fantasmas da sua infância selvagem.


Apesar do teor aventureiro, o argumento assinado por Adam Cozad e Craig Brewer se esforça para adicionar elementos mais sólidos a esta adaptação. Numa opção ousada, os roteiristas misturam realidade e ficção ao abordar a questão da escravidão no Congo, resgatando figuras históricas, como o ativista racial George Washington Williams e o colono Léon Rom, ao compor um cenário inicialmente tenso e ameaçador. Mesmo sob um inusitado viés comercial, David Yates é sutil ao traduzir o drama das tribos africanas e ao criticar a ação opressora dos governantes belgas, permitindo que o público crie uma conexão emocional mais sincera com o longa. Além disso, os dois personagens injetam um pouco mais de peso e senso de urgência à trama, enriquecendo a nova jornada do altruísta Tarzan. Impecável ao encontrar um contexto mais humano, o realizador é igualmente habilidoso ao introduzir e desenvolver o casal John e Jane. Por mais que o foco esteja no período pós-ressocialização, Yates se vê obrigado a revisitar o passado selvagem do protagonista, mas o faz de maneira breve e criteriosa. Através de uma narrativa não linear, o diretor britânico costura passado e presente com fluidez, permitindo que os reveladores flashbacks ganhem forma sem atrapalhar o andamento da película. Neste sentido, aliás, é interessante ver o zelo de Yates ao investigar a conexão dos protagonistas com a vida selvagem, a relação de respeito entre Tarzan e os animais, tornando as atitudes do odioso Léon naturalmente devastadoras aos olhos do casal.


Quando decide enveredar para a aventura familiar, no entanto, A Lenda de Tarzan perde parte da sua essência. Yates se rende a uma série de envelhecidos clichês, esvaziando alguns dos mais intensos conflitos em prol de soluções genéricas e\ou aceleradas. A começar pela mudança de rumo do promissor George Washington. Inicialmente 'bad-ass' e enigmático, o sagaz emissário se torna um deslocado alívio cômico, um personagem cujo passado poderia ter sido bem melhor aproveitado. Além disso, a interferência deste tipo civilizado no ambiente selvagem soa forçada, uma opção incoerente com a proposta realística defendida pelo longa. O mesmo, aliás, acontece com o arco protagonizado pelo chefe Mbonga. Apesar do visual marcante e da intensa atuação de Djimon Hounson, a rixa afetiva entre o líder tribal e o rei da selva é desenvolvida com extremo descuido, rendendo apenas um par de boas cenas e um apressado arremate. Nenhum destes equívocos, porém, incomoda tanto quanto as soluções convenientes apresentadas no ato final. De uma hora para outra a floresta fica pequena demais, os personagens se cruzam de maneira pouco provável, o animalesco Tarzan se transforma numa figura quase super heroica. Se num primeiro momento a sua relação com os animais é crível e sentimental, no último ato o personagem se transforma numa espécie terrestre de Aquamen, uma figura capaz de organizar um exército de animais com apenas um grito e salvar o dia sem qualquer tipo de dificuldade. Exageros que, inegavelmente, reduzem o impacto do esquecível clímax e o peso do até então inventivo argumento.


Menos mal que, apesar da perceptível queda de qualidade, o elenco corresponde as expectativas e faz o desastrado último ato funcionar. No seu primeiro grande blockbuster em Hollywood, o versátil Alexander Skarsgård mostra categoria ao absorver a inversão defendida pela continuação. Com uma imponente presença física, o ator sueco flutua do polido ao brutal com absoluta naturalidade, nos fazendo crer que o novo Tarzan é parte integrante deste ambiente selvagem. No mesmo nível do seu parceiro de cena, a radiante Margot Robbie evita os clichês da "dama indefesa" ao criar uma Jane mais rebelde e atual. Numa das boas sacadas do roteiro, a sua personagem também cresceu na floresta, dando a atriz australiana a possibilidade de criar um tipo mais arisco e independente. Mesmo separados durante boa parte da película, a química entre Robbie e Skarsgard funciona a contento, permitindo que a dupla construa uma história de amor sincera e cativante. Além deles, acostumado aos perfis vilanescos, Christopher Waltz não encontra dificuldade para criar uma figura fria e explosiva. Mesmo com um tipo unidimensional em mãos, o ator austríaco esbanja categoria ao compor as sequências mais ameaçadoras, principalmente os provocadores diálogos com a sequestrada Jane, transformando o seu Léon Rom num dos pontos altos da película. Por fim, mesmo subaproveitado, o versátil Samuel L. Jackson adiciona uma generosa dose de humor ao longa. Dono de um carisma natural, o experiente ator rouba a cena sempre que está nela e entrega o personagem mais legal desta adaptação.


Narrativamente oscilante, A Lenda de Tarzan é bem melhor resolvido no que diz respeito aos efeitos digitais. No seu primeiro grande trabalho fora do ambiente de Hogwarts, David Yates mostra categoria ao reproduzir o visual dos personagens animalescos, respeitando as noções de escala, a mobilidade das espécies e a verossimilhança física ao recriar elementos da fauna africana, entre eles os macacos, os felinos e os elefantes. Disposto a ampliar a aura realística, o realizador surpreende ao adotar um tom levemente sombrio nos momentos mais desumanos, fazendo um excelente uso dos contrastes criados pelo diretor de fotografia Henry Braham (Flyboys). Desta forma, enquanto nas cenas mais densas ele investe numa palheta azulada, realçando elemento como a névoa e a chuva, nas sequências mais aventureiras o realizador aposta num tom mais quente, adicionando uma considerável dose de leveza aos takes mais ensolarados. Além disso, por mais que não sejam inovadoras, as cenas de ação são ágeis e divertidas, a maioria delas incrementadas pela entrega física de Skarsgård e pelo afiado senso de humor de Jackson. Em algumas destas sequências, no entanto, é possível perceber a artificialidade do CGI, principalmente na interação entre os personagens humanos e os coloridos cenários digitais. Deslizes que devem saltar aos olhos daqueles que pagaram pelo dispensável 3-D.


Com mais altos do que baixos, A Lenda de Tarzan se arrisca ao propor uma abordagem vistosa e inventiva sobre a clássica criação do escritor Edgar Rice Burroughs. Ainda que se renda aos exageros dentro do escapista último ato, David Yates encontra um motivo válido para resgatar este icônico personagem, adicionando alguns perspicazes ingredientes históricos ao propor uma releitura integradora e absolutamente respeitosa. Uma mensagem que poderia ecoar ainda mais alto se não fossem os oscilantes trinta minutos finais.

2 comentários:

Hugo disse...

Eu imaginava que seria uma bomba, mas pelas críticas aparentemente resultou em filme divertido.

Abraço

thicarvalho disse...

É mais ou menos isso Hugo. Vale como entretenimento. Abs.

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