terça-feira, 12 de abril de 2016

A Senhora da Van

Maggie Smith dá um verdadeiro show nesta carismática adaptação 

Leve, criativa e corajosa, A Senhora da Van é mais uma daquelas preciosas produções que vez ou outra surgem diretamente da "Terra da Rainha". Inspirado numa "história em grande parte verídica", o diretor Nicholas Hytner (As Bruxas de Salém) surpreende ao investir em um relato narrativamente ousado, mostrando categoria ao adaptar a simpática peça autobiográfica do escritor Alan Bennett. Com um argumento ágil e refinado em mãos, o realizador abraça a linguagem teatral ao narrar a inusitada amizade entre uma indomável moradora de rua e um bondoso dramaturgo, equilibrando a comédia, o drama e uma pitada de suspense ao desvendar os segredos por trás desta misteriosa protagonista. O resultado é uma mistura imprevisível e naturalmente divertida. Um longa que, mesmo diante do afiado senso de humor inglês e do inesperado teor metalinguístico, atinge o seu ápice na estupenda atuação de Maggie Smith. Uma atriz que, do alto dos seus 81 anos, mostra fôlego de sobra ao nos brindar com uma personagem caótica e radiante.




Com roteiro assinado pelo próprio Alan Bennett, A Senhora da Van se esquiva dos melodramas ao construir esta revigorante história de amizade. Como um bom representante do cinema britânico, o longa foge do lugar comum ao abrir mão do sentimentalismo barato, adotando um tom sóbrio que só acrescenta mais peso a esta sincera e excêntrica relação. Trocando as lágrimas forçadas pela sarcástica veia cômica, Nicholas Hytner acompanha a rotina do solitário Alan Bennett (Alex Jennings), um escritor bem sucedido que levava uma vida confortável em um requintado bairro londrino. Isso até conhecer a incorrigível Mary Shepherd (Maggie Smith), uma senhora ranzinza que após um evento traumático resolveu viver em uma van. Dona de hábitos nada higiênicos, a idosa era um incomodo constante para os moradores da região, principalmente quando estacionava o seu veículo\casa na frente das residências dos seus "vizinhos". Intrigado com a presença desta curiosa figura, Alan era o único que parecia realmente ser solidário com a moradora de rua, a ajudando sempre que preciso. Disposto a desvendar os mistérios em torno do passado de Mary, o dramaturgo resolve oferecer a garagem da sua casa como um estacionamento fixo para a van dela. Mesmo incomodado com as manias e a insanidade da idosa, Alan passa a enxergar nela a inspiração para a sua próxima criação, iniciando uma poderosa relação de companheirismo e troca de experiências.


Sucesso nos teatros britânicos, A Senhora da Van ganha uma releitura altamente criativa nas mãos de Nicholas Hytner. Amparado pela força do texto do autor Alan Bennett, ora rebuscado e teatral, ora sensível e objetivo, o diretor é sagaz ao proteger os segredos por trás da instigante protagonista, investindo numa abordagem metalinguística ao narrar a "investigação" do escritor durante a realização da peça que deu origem ao filme. Através de um recorte corajoso, o argumento acompanha não só a intimista história de amizade entre Alan e Mary, como também o processo de criação do autor durante a produção da obra, mostrando com comedimento e bom humor o impacto desta exótica relação na rotina dos personagens. E isso sem descaracteriza-los por um segundo sequer. Ainda que o filme atinja o seu ápice quando se volta para o nebuloso passado de Mary, é interessante ver como Hytner consegue fazer com que os dois protagonistas funcionem tanto separadamente, quanto em conjunto, revelando pouco a pouco os motivos que os levaram as suas respectivas condições. Além disso, apesar da premissa em si não soar tão inovadora, o roteiro aposta em particulares soluções narrativas, adicionando uma série de camadas a esta aparentemente despretensiosa comédia britânica. Sem querer contar muito, a maneira com que o longa separa o Alan escritor do Alan personagem é brilhante, uma sacada original e coerente com a proposta do longa.


Nada, no entanto, supera a primorosa atuação da veterana Maggie Smith. Com um vigor impressionante, a atriz abraça com rara categoria as nuances da complexa Mary, criando uma personagem totalmente imprevisível aos olhos do público. Indo da ranzinza à afetuosa, da insanidade à lucidez, do exagero à sutileza, Smith esbanja expressividade ao traduzir o turbilhão de emoções enfrentados pela moradora de rua, nos presenteando com uma performance sarcástica. Quando necessário, porém, a atriz interioriza os dramas da sua complexa protagonista com enorme sensibilidade, dando ao diretor a possibilidade de criar cenas ternas e comoventes. Dividindo a tela com Smith, Alex Jennings (A Rainha) convence ao criar um tipo gentil e reservado. Contrastando com a instabilidade de Mary, Alan surge como um individuo contido e generoso, um homem "encantado" por esta figura pouco ortodoxa. Apesar da racionalidade do escritor, Jennings absorve a frieza dele com absoluta humanidade, permitindo que o seu personagem dialogue com sentimentos mais sinceros durante a convivência com a sua indomável "vizinha". A química entre os dois, aliás, se revela um dos pontos altos do longa, numa relação que só evolui ao longo dos envolventes 100 minutos de projeção. Além de Smith e Jennings, Hytner conta ainda um experiente elenco de apoio, turbinado por nomes como os de Jim Broadbent (A Viagem), Roger Allam (V de Vingança) e Frances de la Tour (A Invenção de Hugo Cabret). Todos em personagens pequenos, mas que de alguma forma contribuem para o impecável andamento da trama. 



Por mais que o humor tipicamente britânico possa parecer incômodo aos olhos espectador mais desavisado, A Senhora da Van adota uma abordagem irreverente ao construir uma adorável história de amizade. Mesmo com alguns pequenos deslizes, a maioria deles envolvendo a superficial relação entre Alan e a sua enferma mãe, Nicholas Hytner arrisca ao entregar um clímax totalmente "fora da caixinha", um arremate à altura da sua fantástica personagem. Na verdade, ao abraçar a piração em torno dos relatos do escritor, o diretor inglês eleva consideravelmente o nível da película, brincando com as nossas expectativas ao embarcar numa mudança de rumo ousada e cheia de vida. Um desfecho único para uma produção que cisma em não se render as fórmulas fáceis.

2 comentários:

Hugo disse...

Está na lista para conferir.

Abraço

thicarvalho disse...

Me surpreendeu Hugo. Já esperava algo de bom, mas nem tanto. Valeu pela visita. Abs.

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