quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Homem Irracional

Entre o suspense e o humor negro, longa filosofa sobre os dilemas da vida moderna

Passeando pelos gêneros com a sua usual habilidade, Woody Allen volta a flertar com o suspense no interessante Homem Irracional. Após o denso Crimes e Pecados (1989) e o impecável Match Point: Ponto Final (2005), o experiente realizador nova-iorquino encara esta nova empreitada no segmento com um pouco mais de leveza, desfilando uma dose de humor negro ao filosofar sobre os dilemas da vida moderna através de um professor universitário em crise existencial. Buscando referência em clássicos como "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski, o longa emplaca verdadeiramente quando adota uma abordagem mais objetiva, evidenciando o abismo de possibilidades que separa a teoria da prática. Nada, no entanto, supera as excelentes atuações de Joaquin Phoenix e Emma Stone, de longe os maiores acertos desta película.


Fazendo um caprichado uso da figura do narrador, os dois protagonistas contam a mesma história sob os seus respectivos pontos de vista, Woody Allen se distancia do seu singelo último trabalho, o adorável Magia ao Luar, ao promover um relato irônico e inusitado sobre o comportamento humano. Através de citações a inúmeros filósofos e teses, o cultuado realizador aborda com acidez temas recorrentes dentro da sua filmografia, refletindo de maneira sagaz sobre a decadência, a acomodação, a crise de meia idade e as ilusões a cerca de um relacionamento. Na trama, assinada como de costume por Allen, o tal homem irracional é Abe Lucas (Phoenix), um cultuado professor de filosofia que chega a uma cidade do interior à procura de novos objetivos para a sua vida. Contratado para dar aulas numa prestigiada universidade local, ele causa um rebuliço entre os habitantes locais, já que era considerado uma "celebridade" dentro do cenário acadêmico. Encantada com a enigmática presença de Abe, a jovem Jill (Stone) logo se aproxima dele, interessada em tirar o máximo de conhecimento deste escritor. Não demora muito, porém, para ela se apaixonar por este abatido homem, mesmo já tendo uma sólida relação com o bom moço Roy (Jamie Blackley, numa atuação apagada). Na ânsia por reencontrar a vontade de viver, Abe decide então seguir as palavras de alguns dos seus mais queridos teóricos e coloca em prática um nefasto plano contra um perverso juiz local. 



Contando com a estupenda presença de Joaquin Phoenix, brilhante ao capturar a instabilidade emocional do galã barrigudo Abe, Woody Allen até se esforça para tornar mais acessíveis as indagações presentes no argumento. Mostrando a partir de conceitos e teorias o depressivo estado de espírito do professor de meia idade, o realizador recheia o primeiro ato com reflexivas discussões existenciais, pontuando de maneira inicialmente arrastada o complexo romance entre aluna e mentor. A partir da segunda metade da trama, no entanto, tudo parece se encaixar melhor, principalmente quando o então racional filósofo se "entrega as emoções" ao colocar em prática um plano sombrio para recuperar o seu apetite pela vida. Se equilibrando habilmente entre o romance e o suspense, o crescente roteiro passa a abraçar uma linguagem mais objetiva, que encontra nas atitudes dos próprios protagonistas uma forma esperta de contextualizar as referências filosóficas. Alimentando sabiamente o mistério em torno da postura do professor, que se transforma no momento em que começa a planejar o seu perigoso "crime perfeito", o longa ganha contornos mais inspirados à medida que estas elaboradas teorias são distorcidas quando colocadas em prática. Expondo não só o vazio das palavras mal interpretadas, mas também dos seus insatisfeitos personagens, Allen abraça com elegância o humor negro ao questionar os perigos por trás desta irracional busca pela ilusão do controle, pela felicidade plena. Indo contra a aparente atmosfera leve, iluminada e otimista da película, o experiente diretor mostra a sua reconhecida genialidade ao nos brindar com um tenso e inesperado clímax, digno dos clássicos de Hitchcock, fechando com extrema ironia esta venenosa crítica moral.


Nos convidando para uma improvável aula de filosofia, Homem Irracional está longe dos melhores trabalhos de Woody Allen. Ainda assim, apesar das elevadas pretensões em torno do argumento, esta improvável mistura de comédia, suspense e romance comprova o afiado faro do realizador para analisar o comportamento humano e a suas tão exploradas crises existências. Um trabalho menor, que carece até mesmo de coadjuvantes mais interessantes, mas que mostra ao menos no caprichado texto e no vigoroso clímax um pouco da astúcia deste realizador nova-iorquino. Repetindo a parceria com Emma Stone, que mesmo numa personagem naturalmente tola entrega mais uma das suas magnéticas performances, Allen tenta jogar uma luz em direção ao seu público, questionando de maneira ácida e reflexiva a supervalorização dos dilemas da vida moderna.


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