terça-feira, 11 de agosto de 2015

Do Fundo do Baú (Rastros de Ódio)

Colocando em cheque a figura do herói do velho oeste, Rastros de Ódio (1956) disseca como poucos o aspecto cultural mais enraizado por trás do popular Western. Dando ao ícone John Wayne um dos personagens mais marcantes de sua carreira, o aclamado diretor John Ford (Vinhas da Ira) evidencia de maneira fria e elegante o modo com que Hollywood se acostumou a pintar as minorias indígenas, cedendo inicialmente aos clichês do gênero ao pintar os índios como os antagonistas cruéis e imorais. Apesar do ponto de vista polêmico e completamente parcial daquele período, Ford faz questão de tecer nas entrelinhas uma refinada crítica ao papel do homem branco dentro deste conflito, expondo através de um instável e ambíguo anti-herói os reflexos deste opressor período. Tudo isso, é verdade, em meio a sequências de ação antológicas, embaladas pela brilhante trilha sonora assinada por Max Steiner.

Inspirado na obra homônima de Alan Le May, o roteiro Frank S. Nugent é magistral ao compor a figura do enigmático ex-confederado Ethan Edwards (John Wayne). Num daqueles protagonistas magneticamente complexos, que merecem ser analisados antes, durante e depois dos créditos, Wayne cresce assustadoramente em cena, fugindo dos padrões à medida que vai revelando as suas verdadeiras intenções. Ainda que o argumento falhe ora e vez na transição dos sentimentos deste personagem, o ator desfila a sua experiência em cena, explorando com rara felicidade as nuances deste ex-militar tragado precocemente para o campo de batalha. De volta ao lar após servir por vários anos ao exército durante a Guerra Civil, Ethan é recebido com entusiasmo na casa do irmão. O curto período de paz, no entanto, logo se esvai quando ele é atraído para uma armadilha indígena, não conseguindo evitar um ataque surpresa ao rancho de sua família e a morte do irmão e da esposa dele. Além disso, o grupo liderado pelo cruel Scar (Henry Brandon) sequestra duas de suas sobrinhas, o obrigando a partir atrás do paradeiro das jovens. Contando com a dispensada ajuda do jovem Martin (Jeffrey Hunter), um mestiço adotado pela família do irmão, Ethan logo percebe que a busca será mais longa do que a esperada, mas movido pelo ódio e pelo sentimento de vingança coloca em prova a sua obstinação numa reveladora jornada.


Ainda que boa parte do longa recorra ao polêmico modo hollywoodiano de encarar os indígenas, num ponto de vista realmente perigoso, pouco a pouco John Ford e o envolvente argumento vão se desvencilhando destes estereótipos a partir das atitudes de Ethan. Apesar do ódio imposto pela morte de sua família, o racista protagonista faz questão de ressaltar a cultura dos Comanches, mostrando um profundo conhecimento sobre a tribo que perseguia. Por mais que Scar e o seu bando sejam pintados como os grandes vilões, do tipo que invade terras alheias e mata inocentes, nas entrelinhas o longa se preocupa em ressaltar o outro lado desta moeda, evidenciando de maneira sutil o impacto da ação do homem branco neste conflito texano. A começar pelo próprio temperamento hostil do ex-confederado, um homem nitidamente atormentado por tudo o que viveu durante a Guerra Civil. Vivendo num país rachado entre Norte e Sul, Ethan se torna um anti-herói que reflete a brutalidade daquele período, não encontrando qualquer tipo de redenção na busca do paradeiro de sua sobrinha. Através do relacionamento dele com o mestiço Martin, percebemos o quão traumática é a ligação de Ethan com os indígenas, o que nos leva a uma surpreendente mudança de atitude no terceiro ato. Além disso, apesar do nítido dualismo da trama, o roteiro abre espaço para sutis críticas, questionando o rótulo de mocinho criado por Hollywood. Numa das sequências mais contundentes, após passarem por uma aldeia indígena, Martin e Ethan percebem o rastro de destruição deixado por um destacamento militar americano.


Tentando amenizar o tom do longa através de alívios cômicos, que na maioria das vezes não se mostram tão ajustados assim, Ford encontra no talento de John Wayne a força necessária para interpretar este intenso personagem. Com poucas palavras e uma expressão quase sempre fria, o astro do Western carrega consigo o peso de cada uma de suas atitudes, impressionando com seus rompantes de fúria e o seu temperamento hostil. A partir da relação cheia de altos e baixo com o inocente Martin (Jefrey Hunter), uma figura justa e completamente oposta a Ethan, Wayne se aprofunda gradativamente nas nuances do protagonista, culminando numa sequência final que em nada combina com a atmosfera heroica de alguns clássicos do Western. Trazendo no elenco ainda a bela Natalie Wood, que rouba a cena como a já envelhecida sobrinha, o experiente Ward Bond (A Felicidade Não se Compra), divertido como o "eclético" Reverendo Samuel, e o alemão Henry Brandon (Assalto ao 13º Distrito), numa estereotipada presença como o antagonista Scar, John Ford mostra também o seu talento nas grandiosas sequências de ação. Reconhecido por clássicos como No Tempo das Diligências (1939), Vinhas da Ira (1940) e o ótimo O Homem que Matou Facínora (1962), o cultuado realizador aposta em takes amplos, potencializados pela vigorosa fotografia desértica de Winton C. Hoch (Depois do Vendaval), para construir cenas fantásticas e repletas de movimento em um gigantesco set de filmagem. A cena de fuga no vale, onde os índios preparam uma enorme emboscada, impressiona por sua rara beleza e pela incrível fluidez. 


Eleito pela britânica BBC um dos cinco maiores filmes americanos de todos os tempos, Rastros de Ódio mostra através de um enraizado ponto de vista o impacto de tamanha violência na rotina de um ex-militar confederado. Empurrado pela avassaladora performance de John Wayne, John Ford constrói um daqueles filmes definitivos sobre o "velho oeste", destacando o quão tênue pode ser a linha entre os mocinhos e os vilões. Tecnicamente impecável, o longa pode até patinar nos problemas de tom e nas pequenas oscilações do roteiro, mas se mantém fiel a sua dureza ao narrar a jornada de um amargurado homem em meio as suas dúbias convicções.

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