terça-feira, 18 de agosto de 2015

A Dama Dourada

Excessivamente didático, drama é honesto ao evidenciar o nefasto impacto do Holocausto

Esbarrando num excessivo tom didático, A Dama Dourada é um daqueles longas que comove pura e simplesmente pela sua poderosa premissa. Inspirado numa trágica e redentora história real, o drama dirigido por Simon Curtis (Sete Dias com Marilyn) é honesto ao narrar a luta de uma senhora judia para reaver ao menos uma parte do que lhe foi retirado durante o Holocausto. Evidenciando com sensibilidade os traumas deste nefasto período, o longa peca ao abusar do recurso do flashback, que, utilizado de maneira pouco orgânica, reduz o peso desta otimista e revoltante jornada por justiça. Um equivoco que acaba amenizado pela estupenda atuação de Helen Mirren (A Rainha), que numa atuação vibrante se mostra capaz de expressar com extrema categoria a dor da sua personagem ao revisitar as feridas do passado que o tempo não conseguiu cicatrizar.

Inspirado no romance "A Dama Dourada: A Extraordinária história da obra-prima de Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer", da jornalista Anne-Marie O'Connor, Curtis narra a jornada de Maria Altman (Helen Mirren), uma pacata sobrevivente do Holocausto que descobre ser a herdeira de uma preciosa obra de arte após a morte de sua irmã. No passado, durante a sua feliz infância, ela era muito ligada a sua tia Adele (Antje Traue), uma bela mulher que acabou sendo retratada em um quadro pelo pintor Gustav Klimt. Veio a Segunda Guerra, a sua família foi destruída, mas Maria conseguiu sobreviver ao deixar a Áustria às pressas e se estabelecer nos EUA. Alimentando uma completa devoção pela pintura, que foi roubada pelos nazistas durante o conflito e incorporada como um tesouro cultural austríaco, ela resolve intervir junto ao governo de sua terra natal para reaver o quadro. Contando com a ajuda do jovem Randy Schoenberg (Ryan Reinolds), um obstinado advogado sedento por seu "lugar ao sol", Maria inicia então uma árdua luta pelos seus direitos, encarando de frente não só a arrogância e a burocracia do governo austríaco, como também as memórias deste trágico episódio de sua vida.


A partir de uma linha narrativa engessada, em que passado e presente se cruzam - na maioria das vezes - sem grande fluidez, o argumento assinado por Alexi Kaye Campbell perde parte de sua força ao se concentrar no doloroso passado da família Bloch-Bauer. Ainda que a opção de evidenciar o drama judeu durante a Segunda Guerra seja justificável, os caprichados flashbacks se mostram forçados, redundantes e didáticos, servindo quase sempre como uma mera ferramenta emotiva e contextualizadora. Na verdade, por mais que esta volta ao passado funcione quando se aprofunda na relação da protagonista com a sua tia Adele ou ao reproduzir algumas das singelas lembranças no seu retorno a Áustria, a impressão que fica é que Curtis parece não acreditar no peso da protagonista, nem tão pouco na sua batalha judicial. E até por isso recorre a esse carregado alicerce visual, que vai de encontro a sutileza com que o tema é abordado durante a fase madura da personagem. O que, nitidamente, se revela um gigantesco erro, já que os traumas do Holocausto ganham contornos verdadeiramente comoventes nas simples feições de Helen Mirren. Indo da simpática à devastada com rara intensidade, a experiente atriz impressiona pela forma contida e elegante com que explora as nuances da sua Maria, evidenciando gradativamente os dolorosos reflexos deste nefasto período. Através de diálogos acima da média, Mirren encanta ao construir esta mulher maravilhosamente humana, repleta de dúvidas e convicções, nos conduzindo por uma revigorante jornada de redenção e esperança. 

Embalado por esta brilhante atuação, Simon Curtis se sai melhor ao construir a bem humorada relação entre Maria e Randy. Tirando o máximo de Ryan Reinolds, que surpreende ao encarar um personagem mais sóbrio, o realizador constrói uma daquelas adoráveis amizades, que se torna um dos pontos altos do roteiro. Dando vida a um tipo que parece querer provar o seu talento a qualquer custo, logo no início descobrimos que ele é neto de um grande maestro e filho de um respeitado juiz, o carismático ator convence como um pai de família que amadurece ao longo da trama. Chama a atenção, aliás, a forma como o argumento explora a hereditariedade do advogado, permitindo que ele vá do moralmente dúbio ao naturalmente engajado à medida que experimenta um pouco da dor sofrida por seus antepassados. Além disso, o "núcleo austríaco" comprova o seu valor ao longo da projeção, dando um pouco mais de validade aos excessivos flashbacks. Entre os destaques estão a magnética Antje Traue, que traduz em cena a iconicidade do quadro a Dama Dourada, a expressiva Tatiana Maslany, precisa como a versão mais jovem de Maria, e o experiente Allan Corduner, cativante como o distinto patriarca. Por outro lado, Curtis vacila ao subaproveitar alguns dos personagens secundários. Enquanto o ótimo Daniel Brühl faz o possível para dar um pouco mais de profundidade ao seu Hubertus, um jornalista investigativo identificado com a luta de Maria, nomes como os de Katie Holmes e Charles Dance são meros coadjuvantes dentro da trama. 


Contando também com o fantástico trabalho da equipe de direção de arte, com a contrastante fotografia de Ross Emery e com a singela trilha sonora da dupla Hans Zimmer e Martin Phipps, A Dama Dourada supera os seus altos e baixos ao abraçar com enorme dignidade esta magnífica história real. Ainda que algumas das soluções encontradas por Simon Curtis não se mostrem tão certeiras, incluindo ai a incômoda ode patriótica ao sistema judiciário norte-americano, a inestimável presença de Helen Mirren eleva consideravelmente o patamar - e a nossa avaliação - desta produção, mostrando através de uma nobre personagem que nunca é tarde para lutar pelos seus direitos, para se libertar das sombras de um doloroso passado.

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