sexta-feira, 24 de julho de 2015

Pixels

Efeitos digitais originais e a nostálgica aura oitentista derrotam o humor frágil e os clichês do roteiro

Dirigido por um Ás do cinema infanto-juvenil, o competente Chris Columbus (Harry Potter e a Pedra Filosofal), Pixels é uma divertida aventura que parece sofrer de uma ligeira crise de identidade. Responsável por nos apresentar a sucessos como Gremlins (1984), Os Goonies (1984), Uma Noite de Aventuras (1987), Esqueceram de Mim (1990) e Uma Babá Quase Perfeita (1993), Columbus até se esforça para oferecer um material atrativo para as novas gerações, mas acaba se conectando melhor com a marmanjada ao buscar referências num universo pop bem distante da juventude atual. Fazendo um criativo uso dos mais clássicos games da década de 1980, que aqui se tornam armas numa curiosa invasão alienígena, este descompromissado longa se agarra como pode na original aura nostálgica, explorando os caprichados efeitos digitais ao levar as pixelizadas batalhas dos fliperamas para os cenários da vida real. Pra ser bem sincero, a estética do longa é tão inventiva, tão legal, que supera até mesmo a simplicidade da trama, dando um "continue" a um argumento recheado de personagens caricatos e de piadas oscilantes.


Numa época em que o jogos prezam pela realidade e violência, confesso que foi extraordinário ver clássicos como Space Invaders, Pac-Man, Galaga e Centipede ganharem as telas num esperto 3-D de maneira ultra colorida e digital. Por mais que a inocência destes arcades não dialogue com a nova turma de gamers, o argumento assinado por Tim Herlihy e Timothy Dowling é perspicaz ao reciclar estes "dinossauros" virtuais, explorando uma realidade que só aqueles com mais de trinta anos puderam viver com mais intensidade. Inspirado no curta homônimo de Patrick Jean, o longa se inicia nos anos 80 quando os jovens amigos Brenner (Adam Sandler) e Cooper (Kevin James) se deparam com a inauguração de uma gigantesca loja de fliperamas. Enquanto o segundo não demonstrava lá muito talento, Brenner logo se destacou e resolveu participar de uma competição mundial de videogames. Durante o evento, que seria gravado e lançado no espaço como uma forma de mostrar parte da cultura do nosso planeta, o jovem acaba sendo derrotado pelo popular Eddie (Peter Dinklage). O tempo passa e trinta anos depois o agora adulto Brenner seguiu como um nerd deslocado. Enquanto Copper virou um subestimado Presidente dos EUA, ele trabalha como instalador de uma loja de equipamentos eletrônicos, sem grandes feitos ou perspectivas. Após conhecer a bela tenente coronel Violet (Michelle Monaghan), no entanto, Brenner se vê em um gigantesco conflito intergaláctico, se tornando o "salvador da pátria" ao descobrir que os alienígenas iriam invadir a Terra utilizando os mesmo games enviados ao espaço na década de 80. Ao lado do estranho Ludlow (Josh Gad) e do ainda marrento Eddie, o trio terá que colocar a sua vocação em teste durante uma destruidora invasão alienígena.


Se visualmente Pixels é irretocável, o argumento peca principalmente no que diz respeito ao humor. Ainda que a trama flua bem no primeiro ato, introduzindo com leveza não só o universo gamer na década de 1980, mas também o destino dos jovens após três décadas, pouco a pouco as piadas vão se tornando repetitivas e desniveladas, bem no estilão das comédias estreladas por Adam Sandler. Apostando em personagens caricatos, como o presidente bobalhão vivido por James, o general 'old school' estrelado por Brian Cox e o arrogante jogador interpretado por Dinklage, o longa até consegue arrancar honestas risadas com o 'looser' conspirador de Josh Gad (O Roqueiro), mas em nenhum momento as gags se mostram à altura das divertidas cenas de ação. O mesmo, aliás, acontece com o desenvolvimento dos personagens já adultos, que vão dos estereotipados nerds à última alternativa do governo de maneira excessivamente conveniente. Além disso, apesar da censura baixa, o roteiro patina ao tentar priorizar a universalidade, não conseguindo encontrar o equilíbrio ideal entre a inocência e a nostalgia. Por mais que o longa se esforce para dialogar com a garotada, vide o espaço dado ao fofo Q*Bert, a verdade é que Pixels se conecta melhor com os mais experientes, explorando não só os clássicos games, mas também a trilha sonora hard-rock e as piadas referentes à cultura pop dos anos 80. Em meio a citações ora certeiras, ora extravagantes (Marta Stewart e Serena Williams, sério?), Sandler convence como um nerd aventureiro, entregando uma performance mais contida e nitidamente melhor do que os seus risíveis últimos trabalhos. A birrenta relação de Brenner com a bela Violet, inclusive, se revela um dos trunfos do roteiro, principalmente pela ótima presença da sempre competente Michelle Monaghan (Controle Absoluto). 


A simplicidade da trama, no entanto, não é de todo ruim. Abrindo mão das soluções mirabolantes, a veloz invasão alienígena é muito bem arquitetada, deixado de lado as explicações desnecessárias em torno da origem destes extraterrestres. O mesmo, aliás, acontece nas ágeis sequências de ação, que, apesar de carregarem uma necessária introdução aos mais jovens, se mantém fiel aos clássicos games. Tentando tirar o máximo deste claudicante argumento, Chris Columbus mostra o seu reconhecido talento nos momentos de maior aventura, que sem dúvida alguma elevam o patamar desta divertida película. Contando com efeitos digitais absolutamente particulares, as coloridas criaturas pixelizadas ganham corpo de maneira vigorosa, empolgando ao reproduzir a mecânica e os cenários de alguns dos mais populares jogos oitentistas. Sem querer revelar muito, a sequência envolvendo o Pac-Man é - de longe - um dos pontos altos do longa, comprovando que a criatividade que faltou ao roteiro, sobra no aspecto estético. Méritos que precisam ser divididos com funcional 3-D, que, ao levar o espectador para dentro das batalhas, potencializa sequências como o duelo noturno contra as centopeias em Londres. Além disso, personagens como Pac-Man e Donkey Kong são excepcionalmente reconstruídos, quadrado por quadrado, numa nítida valorização do aspecto primitivo dos pixels. O único deslize fica pela desnecessária presença de Lady Lisa (Ashley Benson), a sexy e fictícia personagem de um jogo que se distancia completamente da estética dos games daquele período. 


Entre o inocente e o nostálgico, Pixels diverte - principalmente - quando invade o universo dos videogames oitentistas, evidenciando o talento de Columbus para conduzir grandes aventuras. Por mais que o longa esbarre no oscilante humor e nos estereotipados personagens, o experiente realizador é certeiro ao transformar uma invasão alienígena numa divertida brincadeira, encontrando na ingenuidade destes clássicos games e no caprichado apuro visual um caminho para superar as fragilidades do roteiro. Até porque, ainda que Adam Sandler e sua turma não comprometam, o diretor faz de Pac-Man, Donkey Kong e dos "invasores espaciais" os merecidos grandes astros desta bem intencionada película. Game Over!


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