sexta-feira, 19 de junho de 2015

Divertida Mente

A Pixar no melhor estilo Pixar


Após ceder às fórmulas mais comerciais nos divertidos Carros 2 (2011), Valente (2012) e Universidade Monstros (2013), a Pixar volta a defender a originalidade que a consagrou no fantástico Divertida Mente. Nos conduzindo por uma mágica e genial viagem pelo cérebro humano, o novo trabalho do expressivo diretor Pete Docter (Up - Altas Aventuras) se apropria com uma impressionante inocência de temas complexos, mostrando sob um ponto de vista adoravelmente particular as oscilações emocionais de uma garotinha prestes a encarar a pré-adolescência. Personificando cada um dos principais e mais abstratos sentimentos humanos, que ganham corpo através de personagens cativantes e primorosamente desenvolvidos, a animação faz do cérebro infantil um criativo mundo de magia e cores, promovendo uma daquelas encantadoras viagens cada vez mais raras dentro do cinema atual. Uma jornada brilhante e impecavelmente universal capaz transformar uma elaborada premissa sobre o nosso comportamento numa leve e singela brincadeira de criança.



Voltando a utilizar a infância como o pano de fundo para as suas histórias, vide os inquestionáveis Toy Story (1995) e Monstros S.A (2001), Docter busca no bem sucedido passado do estúdio a inspiração para construir esta engenhosa aventura. Encontrando na fertilidade da mente infantil um aliado poderoso, o realizador é inventivo ao explorar não só as inúmeras possibilidades estéticas, como também as narrativas, usando a inocência, os temores, as inseguranças e as experiências como um elemento fundamental na construção deste universo fantástico. Sem subestimar a inteligência do seu público, o longa impressiona pela forma acessível com que traduz algumas das noções mais complexas da psicologia, dialogando habilmente tanto com a criançada, como também com os adultos. Utilizando com extremo cuidado o recurso da narração, que suavemente nos apresenta a este mundo cerebral, o argumento assinado pelo diretor, ao lado de Meg LeFauve e Josh Cooley, nos leva a cabeça de Riley, uma jovenzinha feliz criada com muito carinho por seus pais. Apesar dela levar uma vida de brincadeiras, dentro do seu cérebro as emoções tem muito trabalho para manter este bem estar. À frente do Centro de Controle de Emoções, a Alegria (Miá Mello) toma as rédeas do comportamento da menina, tendo como ajudantes o Raiva (Leo Jaime), o Medo (Otaviano Costa), a Nojinho (Dani Calabresa) e a renegada Tristeza (Katiuscia Canoro). Na tentativa de ter uma participação maior dentro desta rotina, no entanto, a Tristeza acidentalmente elimina as memórias base da garotinha, e ao lado da Alegria acabam sugadas para fora do controle geral. Agora perdidas dentro no cérebro da jovem, as duas terão que se unir para conseguir voltar ao comando das emoções, antes que os reflexos de uma mudança de cidade transformem completamente a personalidade de Riley.


A partir desta aparentemente complexa premissa, o envolvente roteiro é perspicaz ao conceber este fértil universo, que, potencializado pelo competente uso do 3-D, ganha contornos visualmente irretocáveis. Fazendo do cérebro humano uma espécie de parque de diversões, com uma série de espetaculares atrações criadas a partir das próprias memórias da criança, chama a atenção a forma inventiva com que Docter e a equipe de animação trabalham para fazer do funcionamento da mente algo divertido, fascinante, mas genuinamente embasado pelos fundamentos da psicologia. Apesar de trabalhar com conceitos mais complexos, a maioria deles envolvendo as memórias e a relação delas com as emoções, em nenhum momento o longa perde a energia e a universalidade, já que esteticamente esses temas são traduzidos de maneira criativa, lúdica e naturalmente compreensível. Desta forma, as memórias são apesentadas como uma espécie de bola colorida, armazenadas em estilizadas canaletas quanto importantes, descartadas para uma sombria lixeira quando irrelevante, os sonhos e pesadelos são criados numa sagaz versão de Hollywood e o subconsciente se torna uma prisão secreta, impedindo que os piores temores atrapalhem a mecânica cerebral. Em suma, um daqueles cenários difíceis de serem traduzidos em palavras, tamanha a coragem da Pixar em tira-lo do papel. Sem querer revelar muito, num dos momentos mais pirados do longa, Tristeza, Alegria e o adorável Bing Bong, um ex-amigo imaginário de Riley que ficou perdido na mente dela, passam por uma máquina de interpretação de sonhos abstratos, rendendo uma cena que celebra a própria arte da animação.


Se esteticamente o refinado cenário funciona notavelmente, o mesmo pode-se dizer do magnético argumento, que esbanja vigor ao longo das fluídas 1 h e 40 min de projeção. Narrado em duas linhas distintas, ao mesmo tempo em que acompanhamos as desilusões de Riley, que entra em um colapso emocional ao ter que se mudar para a cidade grande, seguimos de perto também o trabalho de cada um dos seus sentimentos, e o esforço deles para reorganizar o temperamento da jovem durante este duro processo de adaptação. Costurando estas situações de maneira inspirada, o roteiro faz um belo uso dos apaixonantes personagens, com destaque máximo para as emoções de Riley e a forma dinâmica como elas se relacionam. Sem perder muito tempo, após uma breve e competente introdução, os cinco "controladores" logo tomam as rédeas do longa, encantando por suas cores particulares e pelas personalidades idênticas aos seus sentimentos. Na verdade, ainda que todos ganhem a mesma importância, é interessante ver como a trama parece se concentrar na relação entre a eufórica Alegria e a depressiva Tristeza, duas figuras completamente opostas, mas nitidamente complementares, cuja incompatibilidade reflete o estado de espírito de Riley. A partir desta cativante relação, Docter se aprofunda na importância dos mais variados sentimentos, classificando a valorização das experiências - sejam positivas ou não - como um verdadeiro trunfo para o equilíbrio comportamental. Reconhecido pela comovente cena de abertura de Up - Altas Aventuras, o diretor, aliás, é novamente maduro ao explorar as situações mais densas, evidenciando que por trás desta brincalhona abordagem sobre a nossa mente existe um admirável e pertinente fundo de realidade, principalmente quando o assunto é a difícil transição da infância para a adolescência.


O grande trunfo de Divertida Mente, no entanto, fica pelo inesperado bom humor do longa. Num dos trabalhos mais engraçados da Pixar, Docter consegue tirar o máximo da personalidade de cada uma das emoções, explorando com sagacidade a incompatibilidade entre eles. Com diálogos ágeis, afiados e recheados de referências à cultura pop, a equipe de dubladores brasileiros faz um competente trabalho e consegue traduzir com intensidade os traços individuais dos personagens. Enquanto Miá Melo fica com a missão mais "tranquila", se saindo muito bem ao capturar a empolgação da sua Alegria, Otaviano Costa (Medo), Dani Calabresa (Nojinho) e Leo Jaime (Raiva) se destacam ao reproduzir as particularidades de cada um dos seus personagens, arrancando risadas pela forma com que conduzem o cérebro de Riley na ausência dos dois integrantes do grupo. Quem rouba a cena, porém, é a insegura Tristeza, que ganha uma interpretação realmente particular na voz de Katiuscia Canoro. Com uma entonação frágil e sempre reticente, ela se torna a pivô de boa parte dos acontecimentos do filme, arrancando risadas com o seu tipo deprimente. Além disso, o roteiro amplia a brincadeira em torno deste inusitado ponto de vista sobre o funcionamento da nossas mentes, se conectando não só com a Central de Controle de Riley, mas também com a dos pais, da professora e até mesmo de alguns animais. Desta forma, ainda que de maneira pontual, o longa é perspicaz ao rir dos estereótipos, ressaltando os diferentes modos de pensar de cada um dos envolvidos e o modo de agir de cada um dos "controladores". Não podemos esquecer também da presença do simpático amigo imaginário Bing Bong, que, apesar de ser o porta voz do humor mais infantil, se torna uma figura verdadeiramente marcante dentro dos sutis momentos mais dramáticos.


Por mais que no último ato o longa se mostre ligeiramente acelerado, Divertida Mente é uma obra magistral, um trabalho que se orgulha em resgatar à identidade que consagrou a Pixar. Num período em que as mesmas fórmulas e personagens são requentadas em busca do necessário sucesso comercial, a empresa deixa a crise financeira de lado e volta aos trilhos com um trabalho comovente, inteligente, revigorante, ousado e acima de tudo original. Utilizando o fantástico mundo da animação para levantar preciosas questões inerentes à nossa existência, Pete Docter mais uma vez nos conduz por uma jornada repleta de situações divertidas e reflexivas, evidenciando que, tal qual a alegria e a tristeza, a inocência e a complexidade podem sim caminhar lado a lado.

Obs: Seguindo a tradição do estúdio com curtas-metragens, Lava é um adorável e visualmente encantador romance musical. Um espetacular cartão de visitas antes do incrível Divertida Mente.

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