quarta-feira, 3 de junho de 2015

Cinemaniac Indica (As Neves do Kilimanjaro)


Promovendo uma série de pertinentes reflexões políticas e sociais, As Neves do Kilimanjaro impressiona ao nos apresentar um relato humano e otimista sem parecer piegas ou descartável. Utilizando o sentimentalismo de maneira absolutamente honesta, o diretor Robert Guédiguian (Lady Jane) apresenta através de um interessante conflito de gerações um retrato engajado e extremamente universal sobre as desigualdades na atual sociedade francesa. Evitando ao máximo o discurso panfletário e as ideologias baratas, o experiente realizador encontra na humanidade dos personagens uma forma natural para questionar a reação individual perante as incertezas da vida e as dificuldades impostas durante a crise econômica

Numa adaptação livre do poema "Os Pobres", do clássico romancista Victor Hugo, Guédiguian faz um belo uso do atual cenário econômico europeu para narrar a generosa jornada de Michel (Jean-Pierre Darroussin) e Marie-Claire (Ariane Ascaride). Construindo as suas respectivas vidas através de muito trabalho, o experiente casal vê a sua rotina mudar quando o idealista marido acaba perdendo o emprego em um porto de Marselle. Apesar da sua posição de destaque dentro da empresa, ele resolveu ser tratado com qualquer funcionário, sendo dispensado junto de outros 19 empregados em um sorteio motivado pela crise financeira no país. Sem idade para conseguir um novo emprego, Michel resolve levar uma vida de aposentado, dando mais atenções aos netos e a sua família como um todo. Quando tudo parecia tranquilo, no entanto, Michel e Marie-Claire são surpreendidos por um violento assalto, perdendo o dinheiro que haviam recebido dos filhos para uma viagem especial. Abalados com esta traumática situação, os dois passam a agir de maneira distinta, e enquanto Marie-Claire se mostra disposta a esquecer o crime, Michel parece não relaxar até encontrar o responsável pelo roubo. 

Apostando numa convincente discussão envolvendo uma série de interessantes questões morais, quase todas relacionadas a voracidade da atual sociedade capitalista, o argumento assinado por Guédiguian, ao lado de Jean-Louis Milesi, demonstra sutileza ao traçar um reflexivo panorama a cerca do impacto das injustiças sociais na rotina de um cidadão comum. Evitando a condescendência e a parcialidade ideológica, o diretor e roteirista francês é habilidoso ao construir uma envolvente premissa, que cresce gradativamente a partir de um violento assalto. Através de personagens impecavelmente humanos, o roteiro é preciso ao mostrar as consequências deste crime sob todos os prismas, incluindo o do autor do roubo. É nesse choque de realidades aparentemente diferentes, aliás, que reside a grande força do longa, principalmente pela sensibilidade de Guédiguian ao construir os embates entre os personagens. Tirando um belo proveito da ideologia sindical de Michel, que parece envergonhado ao conviver com um possível rótulo de burguês durante a indesejada aposentadoria, o longa é perspicaz ao fazer com que o dinheiro, ou a falta dele, acabe motivando o imbróglio entre os personagens. Na verdade, apesar do seu reconhecido esquerdismo, Guédiguian acerta ao não sair em defesa de uma tese ou de um ideal, encontrando no discurso otimista uma forma de criticar a inércia da população perante as desigualdades sociais.


Saindo em defesa da velha guarda francesa, representada com primor pela intensa atuação de Jean-Pierre Darroussin e pela dócil presença de Ariane Ascaride, Neves do Kilimanjaro se mostra disposto a dar um grande voto de confiança na humanidade, criando uma atmosfera singela e comovente ao analisar uma série de recorrentes e universais problemas sociais. Ainda que peque ao apostar em algumas soluções estéticas equivocadas, em muitos momentos a alta e deslocada trilha sonora parece reduzir a força dos próprios diálogos, Robert Guédiguian é certeiro ao não confundir otimismo com ingenuidade, questionando de maneira reflexiva não só a inércia daqueles que parecem não enxergar as injustiças sociais, mas também a hipocrisia daqueles que encontram no caminho mais fácil uma forma para reverter as dificuldades impostas pela crise econômica. 

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