quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Último Ato

Al Pacino traz humanidade ao conto do ator decadente


Aproveitando o vácuo dos recentes Birdman e Acima das Nuvens, dois trabalhos aclamados por público e crítica, O Último Ato chega aos cinemas brasileiros promovendo um novo ponto de vista sobre a decadência na indústria do entretenimento. Num meio termo entre a ácida crítica proposta pelo diretor Alejandro G. Iñarritu, e a jornada intimista sobre a maturidade estrelada pela espetacular Juliette Binoche, o longa dirigido por Barry Levinson opta por um tom tragicômico ao narrar as desventuras de um respeitado ator em busca do talento aparentemente perdido. Se apropriando muito melhor da comédia, do que da tragédia, este eficiente drama encontra a sua força na espetacular performance de Al Pacino, que, do alto dos seus 74 anos, comprova que segue convivendo com uma realidade completamente distante do seu personagem.

Trabalhando com uma narrativa altamente sugestiva, daquelas que parece ter prazer em dificultar a missão do espectador, o argumento assinado por Buck Henry é perspicaz ao se aprofundar nas nuances emocionais de uma estrela do teatro. Inspirado na obra The Humbling, do escritor Philip Roth, o longa coloca frente a frente realidade e imaginação ao mostrar a crise existencial de Simon Axler (Al Pacino), um ator decadente que resolve se atirar de um palco durante a realização de uma peça. Do auge dos seus 65 anos, ele sempre fez de seus papéis um reflexo de sua vida, se dedicando de corpo e alma a sua função. Acreditando ter perdido não só a sua capacidade de atuar, mas também o desejo, Simon decide então se aposentar, retornando assim para a sua solitária casa em Connecticut. Sob a supervisão do terapeuta (Dylan Baker), o ator ganha um novo sopro de esperança ao reencontrar a problemática Peegen (Greta Gerwig), uma vizinha lésbica que durante a sua infância\adolescência nutria uma paixonite por Simon. Inebriado pela juventude dela, ele decide então dar uma chance para esta improvável relação, tentando encontrar neste convívio a inspiração para voltar aos teatros. O ator, no entanto, não esperava que esse novo amor fosse mexer ainda mais com a sua instabilidade emocional.


Através de um texto ora habilmente reflexivo, ora verborrágico, Barry Levinson é sagaz ao explorar as idas e vindas em torno desta relação. Por mais que o primeiro ato seja realmente arrastado, o realizador não tem pressa ao compor o intrigante Simon, mantendo certo mistério em torno da condição mental do ator. Evitando ao máximo as respostas fáceis, Levinson transforma pequenos indícios em uma série de dúvidas, levantando - de maneira subjetiva - questões envolvendo os medos, as inseguranças e as frustrações do personagem. Na verdade, uma cena parece contradizer a outra, parece querer colocar em cheque a veracidade do que estamos vendo, gerando um atrativo choque entre expectativa e possibilidade, entre fatos e alucinações, entre sonhos e realidades. Em meio a tantos contrastes, as consultas de Simon com o terapeuta, via Skype, se tornam uma espécie de fio condutor da trama, externando de maneira original uma pequena parte dos verdadeiros anseios por trás de tamanha oscilação. Nesse sentido, aliás, o argumento é igualmente criativo ao abordar o método de atuar de Simon, evidenciando como os seus sentimentos e problemas pessoais se transformam numa poderosa inspiração na construção dos seus personagens. Na verdade, sem querer revelar muito, a alma da trama passa por esta forma com que Simon encara a sua profissão, numa confusa extensão do seu dia a dia. Afinal de contas para ele "a vida é um grande palco".


E do alto dos seus 74 anos, Al Pacino impressiona ao se deparar outra vez com um personagem raro. Humanizando a complexidade de Simon, o veterano é versátil ao capturar as nuances do ator. Tirando um belo proveito da metalinguagem do roteiro, com direito a monólogos cada vez mais raros no cinema atual, ele constrói um personagem contido, mas vibrante, que explode em intensidade no avassalador último ato. Abrindo mão de qualquer vaidade, Pacino mostra ainda uma surpreendente energia nos momentos cômicos, arrancando honestas risadas tanto nas piadas físicas, como também nas cenas mais elaboradas. Demonstrando entusiasmo com os absurdos desta inusitada relação, Levinson nitidamente se diverte ao abrir espaço para as situações mais estapafúrdias possíveis. Até porque, além de se envolver com a egocêntrica Peggen, o ator é perseguido por uma mulher que busca ajuda para uma insana tarefa, recebe ligações ameaçadoras da ex-amante da namorada, e precisa também lidar com os indignados novos "sogros". Estes últimos, aliás, rendem um plano sequência absolutamente impagável em um veterinário. É só com a entrada da sempre adorável Greta Gerwig, no entanto, que o longa parece realmente pegar embalo. Diante de um dos grandes nomes do cinema atual, a nova musa do cinema 'indie' ganha uma das personagens mais elaboradas de sua carreira, empolgando por sua invejável química com Pacino. Desfilando o seu talento ao dar vida a uma mulher de muitas facetas, a jovem esconde atrás de um sorriso cativante uma personagem de moral dúbia, ora tratada como força motora, ora como destruidora.


Contando ainda com as indispensáveis presenças de Kyra Sedgwick, Dianne Wiest e de um já envelhecido Charles Grodin, O Último Ato é um daqueles longas que precisam de um pouco mais de tempo, ou talvez de paciência, para serem digeridos. Por mais que peque pela falta de objetividade em alguns momentos, o que abre um leque de interpretações em torno da trama, é inegável que esta aura de dúvida traz um charme todo especial ao filme. Escancarando a decadência sob um ponto de vista extremamente universal, Barry Levinson mostra que para um ator que fez de seus personagens um reflexo das suas emoções, a recepção apática do público pode representar muito mais do que uma mera humilhação.


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