quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Festival do Rio (O Amor é Estranho)


A vida e as suas aparências

Quase quatro décadas. Esse foi tempo que o casal Ben e George esperou para sacramentar a sua união. O que era para ser o momento mais feliz de suas respectivas vidas, no entanto, ganha contornos inesperados em O Amor é Estranho. Dirigido com sensibilidade por Ira Sachs (Vida de Casado), o longa é preciso ao mostrar que as aparências muitas vezes podem enganar. Discutindo nas entrelinhas a - ainda hoje - nítida discriminação sexual, o bem humorado drama encontra no talento do casal vivido por John Lithgow e Alfred Molina uma ferramenta sutil para falar sobre o amor, o companheirismo e a decadência. 


Conduzindo com cuidado essa singela relação entre os dois experientes homossexuais, com cenas simples, mas extremamente afetuosas, a trama assinada pelo próprio Sachs, ao lado do brasileiro Maurício Zacharias, desenvolve uma daquelas peças que só a vida é capaz de pregar. Evitando se prender aos motivos que adiaram o casamento deste carismático casal, o que se revela um tanto quanto frustrante, o argumento narra a história dos apaixonados Bob, um pintor aposentado que vive de pensão, e George, um professor de música que se mostra o pilar financeiro desta relação. Em meio à celebração pela oficialização deste vínculo, o casal vê a sua rotina mudar quando o preconceito faz George perder o emprego. Sem fontes de renda, e com a idade já avançada, os dois decidem vender o apartamento. Na busca por um imóvel mais barato, enquanto George vai morar com um festeiro vizinho, Ben recebe abrigo do seu sobrinho Elliot (Darren E. Burrows), que mora com a esposa Kate (Marisa Tomei) e o filho único Joey (Charlie Tahan). Apesar de se mostrarem gratos e inspirados pelo amor do casal, a presença de Ben passa a ser vista como um estorvo pela família, rendendo uma série de problemas não só com o problemático adolescente, mas também com a antes afetuosa Kate.


Ainda que as desventuras do casal ganhe contornos inicialmente divertidos, o processo de decadência de Ben e George é conduzido de forma bem honesta por Ira Sachs. Apostando em algumas interessantes sequências, que exploram com o humor os contrastes da nova rotina dos dois, o argumento é habilidoso ao ressaltar como eles passaram de amados parentes a intrusos indesejados. Impulsionados pelas contidas atuações de Molina e Lithgow, impecavelmente abatidos em função deste desfecho melancólico para uma vida gloriosa, o longa é preciso ao alimentar a sensação de abandono e mal estar gerado por esta situação. Se concentrando na relação cheia de aparências entre Ben e Kate, o roteiro abre um interessante espaço para as nuances da escritora, indo naturalmente da carinhosa a desagradável nas mãos de Marisa Tomei. O problema é que no meio deste maduro dilema, Sachs perde a mão na oscilante segunda metade. Deixando as dificuldades da dupla em segundo plano, com direito a um desfecho abrupto e excessivamente metafórico, a trama passa a sugerir certa dúvida sobre a sexualidade de Joey. Uma solução nitidamente bem intencionada, mas que se distancia da proposta inicial do longa, apelando para uma crítica velada envolvendo as dificuldades em se assumir a verdadeira identidade sexual. Deslizes que não apagam alguns momentos memoráveis, como o emocionante desabafo de George, ao som de Chopin.


Procurando destacar a consequências desta corajosa, mas tardia decisão, Ira Sachs tenta mostrar em O Amor é Estranho o porquê de muitos casais homossexuais não oficializarem as suas verdadeiras relações. Por mais que aborde de forma superficial a questão da intolerância sexual, e que algumas soluções se mostrem pouco inspiradas, as tocantes atuações de Alfred Molina e John Lithgow elevam consideravelmente o nível deste eficiente drama. Na verdade, a impressão que fica é que o desempenho dos dois merecia um cuidado maior por parte do roteiro, principalmente em função do esvaziado clímax, que peca pela falta de contundência ao concluir o que tentou começar.

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